quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Religião das Relíquias


A Religião das Relíquias


Em seu artigo publicado (em 13/06/03) no site “www.ianpaisley. org”, o Dr. Ian Paisley escreveu o seguinte:

C. G. Spurgeon concluiu um dos seus grandes sermões com as palavras abaixo:

“Não encontro palavras por demais severas. Se cada frase minha fosse um trovão e cada palavra, um relâmpago, mesmo assim não seriam fortes demais para protestar contra a maldito sistema que tem degradado a terra inteira, levando-a a beijar os pés do papa e que ainda continuar a rebaixar a nossa nação, e isso através de uma igreja dita protestante. Ó Deus Todo Poderosos, Tu que é o Deus de Latimer e de Ridley, o Deus dos mártires, cujas cinzas ainda se encontram entre nós, será que vais tolerar que este povo volte aos falsos deuses, aos santos e santas, às virgens e crucifixos, às relíquias e às baforadas de fumaça e ao domínio tenebroso? Pois a isso ele vai chegar, se a Tua graça não prevalecer. Ó, meu ouvintes, Jesus é o único Salvador dos filhos dos homens. Creiam nele e vivam. Este é o único evangelho e vocês estarão correndo perigo se não o receberem, por amor a Cristo”.

No jornal católico “Universe”, de 08/06/03, foi publicado um longo artigo sobre a lança que feriu o lado do Salvador, após a sua morte.

Cada vez mais a ICAR (Igreja Católica Romana) está indo de volta às relíquias e às trevas da Idade Média, antes da Reforma. A linguagem de Roma é controlada, mas as relíquias não são condenadas nem rejeitadas e muito pelo contrário, têm sido honradas se veneradas.

Se a ICAR rejeita as relíquias, como é que ela gasta tanto tempo expondo a sua história e credibilidade? O artigo do “Universe” entra nos mínimos detalhes. Ele nos conta o nome do soldado que usou a lança e do entusiasmo dos líderes mundiais, de Constantino até Hitler, os quais estiveram de posse da relíquia sagrada.

O artigo diz que a lança “sagrada” foi retirada do Museu de Viena, após a II Guerra Mundial, conforme poderemos ver.

“No capítulo 19, S. João nos conta como, com a aproximação do sábado foi sugerido a Pilatos que as mortes de Jesus e dos dois ladrões com Ele crucificados fossem apressadas, se as pernas destes fossem quebradas. O governador deu-lhes o consentimento e a ordem brutal foi executada nos dois homens condenados com cristo. Mas quando estes chegaram a Jesus, Ele já estava morto e para ter certeza, um dos soldados furou o lado de Jesus com uma lança, tendo escorrido do ferimento sangue e água.



O Centurião



Esse incidente foi registrado por S. João como prova de que na morte Cristo havia cumprido as profecias do Velho Testamento: “Nenhum dos seus ossos será quebrado” e “Verão aquele que traspassaram” .

O soldado que usou a lança não é nomeado no evangelho. Mas conforme o Evangelho de Nicodemos, antes chamado Atos de Pôncio Pilatos ele era um centurião meio cego chamado Longuinho, o qual se ajoelhou depois e teve a sua visão miraculosamente restaurada. Logo em seguida, ele abandonou o exército romano e passou a levar uma vida de oração, tendo sido torturado pela sua fé e se tornado santo.

Contudo, em sua obra “Vida dos santos”, o Ver. Sabino Baring Gould lança algumas dúvidas sobre a veracidade esta história, declarando que o nome do soldado pode ter resultado simplesmente de um erro na tradução da palavra grega “longenhe” , que significa lança”.

Mesmo assim, as supostas relíquias do “soldado” desconhecido têm sido conservadas, por toda a cristandade, inclusive a “lança” rival, para a qual nenhuma exigência de autenticidade tem sido feita pelo Vaticano.

Mas tendo estabelecido na narrativa do seu evangelho que alguém, de fato, enfiou uma lança no lado do Salvador, é precisa haver muito pouca imaginação para entender por que esse artefato, manchado com o verdadeiro sangue de Cristo, poderia ser, caso ainda existisse, uma das relíquias mais sagradas já conhecidas do mundo cristão.

A lenda diz que no Século IV da Era Cristã, Constantino, o Grande, invocou o poder da lança para cristianizar o Império Romano e que Carlos Magno (nascido em cerca de 742 d.C.) também recebeu o poder através da posse da mesma. Duzentos anos mais tarde, L. de Cremona deixou a primeira narrativa escrita sobre a relíquia sagrada, ligando-a ao primeiro sacro imperador romano, Constantino. Enquanto isso, em 1084 o seu sucessor Henrique IV afirmou em sua coroação que a lança continha também um dos cravos usados na crucificação.

Lá pelo Século XIV, o valor dessa propaganda era tal que Carlos IV da Boêmia e Alemanha, a reclamaram para o trono, afirmando que a relíquia era a “Lança do Senhor”.

Contudo, em 1424, Sigismundo de Luxemburgo vendeu a lança à cidade conhecida como Nuremberg, onde ela permaneceu até 1800, quando foi contrabandeada para Viena, a fim de livrá-la de ser capturada por Napoleão.

Foi ali que o jovem Adolfo Hitler viu a lança e ambicionou-a, pelo poder que ele acreditava que ela proporcionava a quem a possuísse.

Historiadores mais moderados afirmam que ela foi roubada no meio das “jóias da coroa” da Casa de Habsburgo, entre as quais a lança se encontrava, o que é mais consistente com a narrativa da devastação de outros museus, e que Hitler a considerava uma relíquia, simplesmente como o fazia com outros espólios de guerra. E que no final do conflito a lança , ou talvez uma réplica da mesma, foi recapturada pelos soldados americanos e conduzida de volta ao Museu Kunsthistorishes de Viena”.

E mesmo permanecendo a duvidosa autenticidade da lança exposta, o artigo prossegue:

“Sua origem é depressa esquecida, mas a piedade popular se encarrega do resto e a lança continua a ser reverenciada, junto com outros tesouros menores, como um dente de S. João Batista e um osso do braço de Santa Ana, através dos séculos”.



A veneração dessas relíquias é uma supersticiosa idolatria. Mesmo que a lança fosse genuína, ela não poderia conter qualquer valor espiritual. Na história de Israel a serpente de bronze erguida sobre uma haste trouxe a cura a milhares de israelitas. Contudo, o Rei Ezequias, ao constatar que ela estava sendo adorada, mandou que fosse destruída. Vamos ler em Números 21:7-9:

“Por isso o povo veio a Moisés, e disse: Havemos pecado porquanto temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo. E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia”.

Agora vamos ler 2 Reis 18:1-4:

“E sucedeu que, no terceiro ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abi, filha de Zacarias. E fez o que era reto aos olhos do SENHOR, conforme tudo o que fizera Davi, seu pai. Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã”.

Agora vamos ler o Êxodo 20:1-6:

“ENTÃO falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos”.



O que é proibido no segundo Mandamento?

Deus proíbe a adoração a Deus através de imagens ou de qualquer outro meio exposto na Sua Palavra.

Então, como é que a ICAR ultrapassa o Segundo Mandamento, o qual declara que o homem não deve fazer nem se dobrar diante de imagens fabricadas?

A ICR sempre omite o Segundo Mandamento em seus catecismos. E para esconder essa falcatrua, ela divide o Décimo Mandamento em dois.



O que a ICAR entende como relíquia?

Os cadáveres ou ossos dos santos e qualquer outra coisa que lhes tenha pertencido durante sua vida terrena.



Quais são as duas classes de relíquias mais valorizadas pela ICAR?

São elas: “1. partículas de crânios, ossos, pele, dentes, cabelos, unhas e gotas de sangue dos santos. 2. Instrumentos de tortura através dos quais os santos tenham perecido.”





Nomes de algumas relíquias expostas e veneradas pela ICAR

Dentre uma infinidade de outras coisas, a ICAR expõe e venera como relíquias: “1. os cabelos de Santa Madalena. 2. as pedras atiradas contra Sto. Estevão. 3. o feno da mangedoura de Belém. 4. A cauda do jumento de Balaão. 5. Um dente de S. Paulo. 6. pedaços dos artelhos de Sto. Edmundo”.

Além de várias cabeças de S. Pedro!!!



Qual a veneração devida às relíquias?

“O Concílio de Trento não definiu. As autoridades modernas declaram que as relíquias são “valiosas promessas que animam a sua confiança e comunhão na intercessão dos santos”. Dizem ainda que a estas deveria ser dada “uma honra relativa e inferior, visto como se relacionam a Cristo e aos santos, sendo memoriais destes”. E que “na exibição formal das relíquias na Catedral de S. Pedro, em Roma, adoração formal e pública lhes pé oferecida, enquanto o papa e os cardeais se ajoelham diante delas, do mesmo modo como o fazem diante da hóstia e do altar”.



Qual o fato que contesta a genuinidade das relíquias da ICAR?

É o fato de que existem tantas relíquias de cada apóstolo e santo e tantas duplicatas de cada uma. Os apóstolos devem ter tido várias cabeças, cada um, bem como um número enorme de costelas, a fim de ser conseguido tal suprimento. Helena [mãe de Constantino] , que descobriu a cruz, deve ter possuído nada menos de três corpos, visto como existe um na Igreja de Arascelli, em Roma, outro perto de Rheims, e um terceiro em Constantinopla.

A cruz de Cristo deve ter sido monumental [bem maior do que a estátua do Cristo Redentor no RJ], a fim de poder suprir todos os pedaços que têm sido exibidos. Existem até mesmo relíquias de anjos, como uma pena da asa do arcanjo Miguel.



Qual a vanglória da ICAR sobre os milagres?

Ela afirma que o poder lhe foi transmitido. Que as suas relíquias, imagens e santos, todos eles têm operado milagres e ainda continuam operando. O Cardeal Neumann [bispo anglicano apóstata, amigo de Westcott e Hort, que se converteu ao Catolicismo Romano, no Século XIX) falou:

“Certamente a ICR, de Leste a Oeste e de Norte a Sul está apoiada em milagres”.



Será que o caráter das doutrinas, para cujo apoio os milagres da ICR têm sido aplicados não nos levam a rejeitá-los?

Sim, Deus declara que qualquer sinal ou maravilha operados como suporte a qualquer doutrina contrária à Sua palavra, que não tenham passado por um exame rigoroso, devem ser considerados falsos.



Qual o código moral ou caráter dos supostos milagres alegados pela ICR?

Segundo Francis Schaff, esses milagres não têm sido tão sobrenaturais e acima do racional. Eles têm sido anti-naturais e irracionais.

É dito, por exemplo, que S. Bernardo, quando estava dentro do vapor rumo à França, achando que havia esquecido alguma coisa, voltou caminhando a pé enxuto sobre o mar.

Que S. Dionísio, após ter sido decapitado, andou duas milhas segurando a própria cabeça.

Que Sto. Antônio [hoje é o dia dele] fez o cavalo de um herege venerar a hóstia, inclinando a cabeça e ajoelhando-se diante da mesma.

Que Sto. Hilário, atendendo ao apelo de um dos fiéis que patrocinava o turfe, o qual era invariavelmente derrotado pelos seus antagonistas, deu-lhe uma jarra com água para ser aspergida sobre o cavalo e o curso da corrida. Isso resultou em que o cavalo do tal jóquei ultrapassasse todos os demais, vencendo a corrida. [Este deve ser o padroeiro dos jogadores no hipódromo].

Em contraste a todos esses “milagres” católicos, os de Cristo foram operados com a dignidade e o poder correspondentes ao objetivo de Sua missão. Eles foram uma belíssima ilustração das bênçãos que Ele veio nos prodigalizar.



Qual era a opinião do Cardeal Neumann sobre os milagres da ICAR, antes dele se converter à mesma?

Ele disse que os milagres da ICAR eram “indignos de qualquer autor sábio”, acrescentando que: “a notória falta de sinceridade e as fraudes da ICR em outros assuntos eram suficientes para observar com forte suspeita o seu testemunho de milagres”. Pois, logo depois de passar para o lado romano, ele começou a aceitar os milagres da ICAR, passando a se ajoelhar diante dos seus crucifixos, no choro de suas “madonas” e até mesmo na liquidificação do sangue de San Genaro. [Depois de convertido à ICAR, ele se encaixou direitinho em Efésios 4:18, que diz: “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração”].



Será que esse tipo de caráter da ICAR não foi predito e severamente condenado nas Escrituras Sagradas?

Sim. esta é uma das características do “homem do pecado” , segundo Paulo, na 2 Tessalonicenses 2:7-12: “Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; e então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade”.

Durante 12 ou 15 séculos a ICR tem se locupletado de falsos dogmas e de milagres espúrios, o que demonstra claramente o caráter de sua enorme apostasia. E na hora em que publicamos este artigo, uma nova relíquia da ICR está chegando de visita à Irlanda – um pedaço da língua de um santo qualquer...



Ian Paisley/Mary Schultze, 13/06/03

A reforma deformada


A reforma deformada


No próximo dia 31 de outubro comemoraremos o dia da Reforma Protestante. Na mesma data outros comemoram o Dia de Todos os Santos e outros ainda festejam o Halloween ou Dia das Bruxas. Cuidado pra não confundir as celebrações.

Segundo Rubem Alves, a igreja católica pagou um alto preço por sua unidade, e os protestantes pagaram outro alto preço pelo livre exame das Escrituras. Trocando em miúdos: Pela unidade, muita gente permanece na igreja mesmo sem concordar com a interpretação de quem está ensinando. Enquanto outros decidem romper com uma comunidade por sentirem que a mesma encontra-se desfigurada, sem a forma original para a qual fora concebida.


O Dia de Todos os Santos vem da tradição católica. Todo dia do ano é o dia de algum dos “santos”. Como tem mais “santo” na Igreja Católica do que dias no ano, há um dia para todos eles, assim tudo se ajeita. Reforma não tem nada a ver com agradar a todos os santos ou crentes. A defesa do livre exame das escrituras, um dos pilares da Reforma, não significa dar direito ao irmão contrariado de sair e fundar outra igreja a seu bel prazer. Alguém já contou quantas denominações compõem esse circo denominacional que temos hoje?


Cremos que o compromisso do movimento protestante é com Deus. É retornar ao padrão bíblico em questões de fé e prática. Isso foi ensinado tanto por Jesus quanto pelos apóstolos que várias vezes corrigiram impropérios, mas sem que isso significasse a divisão da igreja. E a igreja primitiva já sofria com o partidarismo, sectarismo, imoralidade, mundanismo, bem como, com a contaminação da sã doutrina por ensinos de homens e demônios.


Por outro lado, também não confunda reformadores com bruxas. Não são a mesma coisa. No período da Reforma, a mentalidade deformada da Igreja Católica ocidental, defendia que quem criticava seus ensinos anti-bíblicos e suas práticas imorais tinha o mesmo destino das bruxas - a fogueira “santa”. Os apóstolos na igreja primitiva não tinham medo nem de bruxas nem de reformas. As críticas recebidas dos helenistas quanto a falhas na distribuição do pão, onde estavam sendo prejudicadas as viúvas destes foram resolvidas sábia, democrática e racionalmente . Se os próprios apóstolos reconheceram que com a nova realidade da igreja, realmente havia necessidade de reformas naquele sistema de trabalho disfuncional e instituíram o diaconato (At. 6:1–7), não podemos ignorar outro princípio da Reforma: Ecclesia reformata et semper reformanda est, a igreja reformada precisa continuar a ser reformada.


É preciso reconhecer as áreas que temos negligenciado em nossa missão como igreja e retornar à Palavra de Deus mesmo que haja um preço a ser pago por isso, pois não se pode agradar a todos os santos. Comece admitindo que muitas das críticas e reclamações de que somos alvo são razoáveis. Foi isso que os apóstolos disseram: “Irmãos, não é razoável” e resolveram a questão. Já a bruxa que a Igreja Católica tanto temia na era dos reformadores, nada mais era que a perda do poder. E semelhante ao jovem rico da parábola que Jesus contou, a Igreja Católica de então, não quis pagar o preço, pois era dona de muitas riquezas. Viva a reforma!


Sola Gratia, Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Fide, Soli Deo Gloria. Amém!


Professora de Escola Dominical

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Deus pode usar Satanás para santificar


Deus pode usar Satanás para santificar

Paulo diz, nos versículos 2, 7 e 13, que o homem que é culpado desta imoralidade impenitente deve ser removido da igreja: "Expulsem esse perverso do meio de vocês." (v.13) Mas ele dá a resposta mais completamente nos versículos 3-5: "Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente." Em outras palavras, Paulo não pode estar lá em pessoa, mas diz que ele exercerá a influência que puder à distância (talvez em oração) para garantir que a disciplina será efetiva.

Ele continua no versículo 4: "Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus [e é por isto que não estamos fazendo isto privadamente, mas reunidos na igreja], estando eu com vocês em espírito [em outras palavras, vocês podem contar com a aprovação de Paulo e a presença de sua influência através da oração], estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, 5 eu decidi [que vocês devem] entregar esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor."

Pode ser que, simplesmente expulsando uma pessoa da comunidade, seja o mesmo que entregá-la a Satanás, mas acho que não. Quando Paulo diz, no final do versículo 4, "com o poder do Senhor Jesus", acho que ele nos mostra que algo mais está acontecendo - algo que precisa do poder de Jesus para ser realizado. Paulo fez isto pelo menos uma outra vez, que sabemos (1 Tim. 1:20): "Entre eles estão Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar."

O que parece estar à vista é algo como o que aconteceu no livro de Jó. O único outro lugar na Bíblia, fora das cartas de Paulo, onde "entregar alguém a Satanás", com estas mesmas palavras, ocorre é em Jó 2:6, que diz, literalmente, "E o Senhor disse a Satanás, 'Pois bem, ele [Jó] está em suas mãos; apenas poupe a vida dele."

O próximo versículo diz, "Saiu, pois, Satanás da presença do Senhor e afligiu Jó com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça." E o resultado da finalidade da graça de Deus? Jó 42:6-7: "Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza".

Então Satanás tornou-se o meio, sob o controle soberano de Deus, para purificar o coração de Jó e trazê-lo para o mais perto de Deus que jamais esteve. Este não é o único local onde Deus usa Satanás para isto. Em 2 Coríntio 12, Paulo descreve seu espinho na carne como um mensageiro de Satanás, que Deus submete para a humildade de Paulo e a glória de Cristo. Versículo 7: "Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar - para impedir que eu me exaltasse!"

Quando Paulo orou para que Jesus o retirasse, a resposta que teve foi, "Minha graça é suficiente para você, pois o poder é perfeito na fraqueza." Note que aquele que controla se o "mensageiro de Satanás" fica ou vai é Cristo. É por isto que é tão significativo em nosso texto (v. 4) quando Paulo diz que entregar alguém a Satanás é "com o poder do Senhor Jesus". Não temos o poder ou a autoridade, em nós mesmos, para fazer isto.

Termino com o que espero contenha tanta esperança para vocês como contém para mim. Jesus é o soberano de Satanás. E ele usa Satanás, nosso arqui-inimigo, para salvar e santificar seu povo. Ele trouxe Jó à penitência e à prosperidade. Ele trouxe Paulo ao ponto onde ele poderia exultar na tribulação e tornar manifesto o poder de Cristo.

E Paulo espera que o resultado da entrega deste homem a Satanás será a salvação de seu espírito no dia de Cristo. Em outras palavras, o objetivo de Paulo - nosso objetivo - em entregar alguém para Satanás é que a miséria virá de tal forma que a pessoa dirá com Jó, "Meus olhos viram o Senhor, por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza".

John Piper
In: Como Satanás Salva a Alma

sábado, 3 de outubro de 2009

O Culto Doméstico


O Culto Doméstico

Brian Schwertley

Numa época em que a família cristã é hostilizada pela cultura moderna e quando a maioria das igrejas evangélicas há muito abandonou as devoções domésticas, seria bom considerarmos a necessidade, importância e prática do dever bíblico da adoração familiar. A Confissão de Fé de Westminster diz: “Deus deve ser adorado em todo o lugar, em espírito e verdade — tanto em famílias diariamente e em secreto, estando cada um sozinho, como também mais solenemente em assembléias públicas, que não devem ser descuidadas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas, sempre que Deus, pela sua providência, proporciona ocasião” (21:6).

Antes de examinarmos os elementos da adoração familiar, é necessário primeiro dar razões bíblicas pelas quais esta prática é um dever cristão. Dado o fato de que em nosso século o culto doméstico tem sido extremamente negligenciado e substituído por grupos de jovens e pela escola bíblica dominical, é necessário um exame da autorização divina para esta prática esquecida. Há várias razões bíblicas para que o culto doméstico seja praticado em cada família cristã:

1. O pai, sendo cabeça da família da aliança, é responsável por liderar, ensinar, dar exemplo e comandar sua família no caminho do Senhor. “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Dt. 6:6-7). “Lembra-te dos dias da antiguidade, atenta para os anos de gerações e gerações; pergunta a teu pai, e ele te informará, aos teus anciões, e eles to dirão… Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico entre vós, para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei” (Dt. 32:7,46). “Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei os lábios em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos. O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez. Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus”. (Sl. 78:1-8). “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef. 6:4; cf. Pv. 4:1-4). Essas passagens não mencionam especificamente o culto doméstico. Contudo, a condução da devoção doméstica pelo pai é um aspecto ou parte desses comandos ou princípios gerais. (Princípios e exemplos mais específicos serão considerados em breve).

2. Há uma série de exemplos históricos na bíblia em que homens piedosos cuidadosamente mantiveram a religião familiar. Depois que chamou Abraão de sua terra natal, Deus prometeu a terra de Canaã a seus descendentes (Gn. 12:7; 13:14-17; 14:18-21). Quando Deus fez uma aliança com Abraão, ela incluía seu lar e descendência (Gn. 17:7-8). Abraão como cabeça da família da aliança aplicou o sinal do pacto (a circuncisão) não só em si mesmo como em todos de sua casa, incluindo os bebês (Gn. 17:10-14). Por que Deus estabeleceu um relacionamento de aliança com Abraão? Uma razão principal foi que Abraão instruiria sua família na piedade. “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn. 18:19). “Ora, Deus considerava Abraão como Seu amigo íntimo, não somente para desfrute do próprio Abraão, mas, como Ele especificamente disse, para que aquilo fosse transmitido à posteridade. De fato, isto deveria ser repassado como uma séria exigência (yetsawweh = “ele pode pôr ordem”) para seus próprios filhos e toda a sua casa”. Calvino escreve: “O significado óbvio da passagem é que Abraão é aprovado por Deus porque pode fielmente cumprir o ofício de bom líder do lar, instruindo sua própria família”.

O SENHOR tem uma grande preocupação com a fidelidade da geração da aliança. Essa fidelidade não se alcança de maneira meramente externa, mas vêm pela instrução fiel da família. Deus coloca Abraão, e por implicação todo cabeça da família, no rol dos profetas. Eles devem ensinar “retidão e justiça” à sua casa. O líder da aliança deve instruir na “justiça que vem da fé” como também na obediência à lei da palavra de Deus como fruto da fé salvadora. “Que Deus pela Sua providência incline minha família, e pela sua graça incline as afeições de todos em meu lar, de acordo com sua vontade, para seu próprio louvor. Que eu e os meus sejamos única, completa, e eternamente dEle.”

Tanto Isaque como Jacó seguiram o piedoso exemplo de Abraão. Eles, assim como Abraão, construíram um altar ao Senhor no lugar onde firmaram suas tendas; um altar, à época, era um utensílio necessário à adoração divina. Isto aparece repetidamente na pequena história que temos destes patriarcas, particularmente em Gênesis 26:25; 28:18, e 33:20”. Estes homens piedosos do passado adoraram ao Senhor Jesus Cristo como lares da aliança através de tipos cerimoniais e sombras. Nós que temos mais luz, que vemos a obra perfeita e completa de Cristo devemos adorar ao Salvador em e com nossas famílias.

O culto familiar também foi praticado pelo piedoso Noé. Em Gênesis lemos que Deus fez uma aliança com Noé, sua casa e cada ser vivente (Gn 9:12, 14-15). Assim que Noé e sua família deixaram a arca, ele construiu um altar e ofereceu uma oferta queimada de cada animal limpo (Gn 8:20). Embora por meio da tipologia do sacrifício animal, Noé cultuou ao SENHOR e fixou perante sua família um vislumbre do redentor que viria, Jesus Cristo.

Temos mais informações sobre culto familiar através da vida de Jó. “Decorrido o turno de dias de seus banquetes, chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocausto segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim o fazia Jó continuamente” (Jó 1:5). Inicialmente vimos que Abraão foi um profeta para sua família, instruindo-a na prática da justiça e da retidão. Aqui encontramos Jó intercedendo por seus filhos; agindo como um sacerdote, orando e oferecendo sacrifícios em favor deles. Matthew Henry escreve: “Jó, como Abraão, tinha um altar para sua família, sobre o qual, nos parece, oferecia sacrifícios diários; mas, nessa ocasião específica, ele oferecia mais sacrifícios do que o normal, e com mais solenidade, de acordo com o número deles, um sacrifício por filho. Os pais devem ser específicos ao se dirigirem a Deus pelos vários membros de sua família. ‘Por esta criança oro, de acordo com seu temperamento, gênio, e condição específica’, sobre a qual as orações, bem como as ações devem sobrevir. Quando esses sacrifícios eram oferecidos (1) ele se levantava cedo, como alguém que cuidasse para que seus filhos não permanecessem muito tempo sob culpa, e como alguém cujo coração e desejo íntimo estavam naquela obra; (2) ele exigia que seus filhos assistissem ao sacrifício, para que pudessem se unir a ele nas orações que oferecia com o sacrifício, para que a visão do animal sacrificado pudesse humilhá-los ainda mais por seus pecados, pelos quais era merecida a morte, e para que a visão da oferta deste sacrifício subindo ao alto pudesse conduzi-los ao Mediador”.

A responsabilidade do pai em conduzir sua família na fé ao SENHOR é exemplificada na vida de Josué. Josué não sustentou uma filosofia de liderança por meio da qual descobriu com o dedo para que lado o vento soprava e seguiu a igreja apóstata. Pelo contrário, ele considerou a lealdade à aliança de Deus com toda a sua família como sua responsabilidade mesmo se toda a nação estivesse rumando para a apostasia. “Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-lo com integridade e fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR. Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR” (Js. 24:14-15).

O cabeça da família deve reger como um rei buscando o bem do seu pequeno rebanho. Fidelidade à aliança não é algo que pode ser delegado ao líder da mocidade ou ao professor da escola dominical. O cabeça da aliança não pode sustentar uma religião mista. Quando denominações estão pondo de lado a inerrância bíblica, o nascimento virginal, a ética bíblica e o sofrimento vicário do nosso Senhor, cabeças da família deveriam estar ensinando a verdade aos seus e separando-se da apostasia. Quando denominações reformadas corromperam o culto a Deus com acréscimos humanos e abraçaram o feminismo, os cabeças da aliança deveriam fazer seu trabalho para deter o declínio. Os pais não devem negligenciar os deveres da aliança. Eles têm de garantir a pureza da doutrina, culto e ética em sua própria paróquia — a família. Matthew Henry escreve: “É algo bom quando um homem toma sua própria casa e a converte em igreja, dedicando-a a servir e honrar a Deus, para que ela possa ser Betel, casa de Deus, e não Bete-Avém, casa de vaidade e iniqüidade… Olhem para suas casas como templos para Deus, lugares de adoração, e todas as suas posses como coisas dedicadas, a serem utilizadas para a honra de Deus, e não para vaidade ou profanação”.

A bíblia ensina que os pais (os cabeças do lar) devem considerar a si mesmos como profetas, sacerdotes e reis de sua própria casa. Como profeta eles têm a obrigação de ler a palavra de Deus e instruir sua família a respeito de todo o conselho de Deus. Como sacerdote devem orar com e por suas famílias. Devem interceder diariamente em favor de seu lar. Como rei devem governar e dirigir seus lares para que obedeçam à palavra de Deus. Eles também devem proteger e prover suas famílias. Esses três deveres (profeta, sacerdote e rei) se fundem quando um pai conduz sua família no culto doméstico. “Embora alguns que governem possam ser indiferentes a isto, devem ter a certeza de que Deus irá exigir deles o desempenho destes ofícios. Pois, como argumentou o apóstolo, aquele que não provê sua própria casa de elementos temporais negou a fé e é pior do que um incrédulo; a que grau ainda maior de apostasia deve ter chegado aquele que não tem a menor preocupação em prover o bem-estar espiritual de sua família?”.

Não há campo neutro a respeito desta importante matéria do culto doméstico. Um pai que negligencia este dever, que tem uma família que não adora ao Deus vivo e verdadeiro, deve questionar o caráter de sua própria fé em Cristo. Perceba quais são os tipos de pessoas que irão receber a ira de Deus. O profeta Jeremias diz: “Derrama a tua indignação sobre as nações que não te conhecem e sobre os povos que não invocam o teu nome” (Jr. 10:25). Ninguém se surpreende ao ler que os pagãos que não conhecem ao SENHOR e por isso são idólatras receberão a fúria de Deus. Mas e quanto àqueles que fazem profissão de fé e se unem à igreja visível porém suas famílias não invocam o nome do SENHOR? Se Deus julga os pagãos que não O conhecem, o que fará com aqueles que conhecem Sua palavra e recusam-se a obedecê-la? Calvino escreve: “Invocar é sempre fruto da fé, como é uma evidência da religião; pois aqueles que não clamam por Deus provam, de forma conclusiva, que nunca conheceram coisa alguma da religião”. Há algo mais triste e terrível para um pai que professa a Cristo do que observar seus próprios filhos apostatando porque foram treinados na negligência e esquecimento de Deus em casa? Pai, se você negligencia o mais importante dever familiar agora, você sofrerá depois em um leito de lágrimas e aflição.

3. A responsabilidade do pai de conduzir seu lar no culto doméstico flui também do próprio conceito bíblico de família. Quando o apóstolo Paulo escreveu à igreja em Corinto ele lhes disse que os filhos de crentes são santos (1Co. 7:14). Como filhos de um pai crente eles estão em uma posição consagrada perante o Senhor. O profeta Malaquias disse que uma razão por que Deus instituiu o casamento e a família foi “buscar uma semente piedosa” (2:15). Em outras palavras, Deus quer que seu povo crie filhos piedosos. A bíblia inteira vê as famílias organicamente. Os pactos que foram feitos com os cabeças de famílias se aplicavam à família inteira: bebezinhos, filhos e mesmo escravos (Gn. 9:12ss; 12:3; 17:1-11; Sl. 82:26-29, etc.). Charles Hodge escreve: “Aos olhos de Deus, pais e filhos são um. Aqueles são os representantes autorizados destes; agem por eles; contraem obrigações por eles. Em todos os casos, portanto, quando os pais entram em aliança com Deus, seus filhos acompanham… É desnecessário dizer que crianças não podem fazer contratos ou juramentos. Seus pais podem agir por eles; e não só trazer-lhes uma obrigação, mas assegurar-lhe os benefícios da aliança vicária. Se um homem se unisse à comunidade de Israel, teria garantindo para seus filhos os benefícios da teocracia, a menos que eles os renunciassem de forma voluntária. E assim quando um crente é adotado na aliança da graça, ele traz seus filhos para dentro desta aliança, no sentido que Deus lhes promete, conforme seu próprio tempo, todos os benefícios da redenção, contanto não renunciem voluntariamente aos seus compromissos batismais”. Na bíblia, circuncisão e batismo têm, virtualmente, significado idêntico (Cl. 2:11-12; Rm. 4:11) Assim, não nos surpreendemos ao encontrar no livro de Atos famílias inteiras sendo batizadas e incluídas na igreja visível (At. 10:24ss; 16:14-15, 30-34; 18:8; cf. 1Co. 1:14-16). Isto significa que os filhos de crentes nascem regenerados e automaticamente se tornam cristãos? Não, não é isso. Contudo, isto significa que os pais, especialmente o pai (cabeça da aliança) tem a responsabilidade especial de criar seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor (Ef. 6:4). Deus promete a pais fiéis uma herança piedosa. “E os meus eleitos desfrutarão de todo as obras de suas próprias mãos. Não trabalharão em vão, nem terão filhos para a calamidade, porque são a posteridade bendita do SENHOR, e os seus filhos estarão com eles.” (Is. 65:22-23).

Como resultado da visão bíblica da família da aliança, igrejas presbiterianas que crêem na bíblia exigem que os pais publicamente garantam criar seus filhos de acordo com a Escritura. Os pais têm uma aliança de fidelidade para cumprir seus deveres da aliança com seus filhos. Veja o seguinte exemplo: “Você promete instruir seu filho nos princípios da santa religião como revelada nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, e como sumarizada na Confissão de Fé e Catecismos de nossa Igreja; e promete orar com e por seu filho, ser exemplo de piedade e bondade perante ele, e empreender todos os meios apontados por Deus para criá-lo no temor e na admoestação do Senhor?” Mesmo igrejas batistas implicitamente reconhecem seus deveres quando realizam a cerimônia em que pais cristãos dedicam as crianças — isto é o reconhecimento da aliança sem o sinal da aliança. Tudo isto aponta para o dever e a necessidade do culto doméstico. Será que pais crentes podem ser fiéis aos votos da aliança tomados no batismo de seus filhos se não oram, louvam e estudam a palavra de Deus com eles? Obviamente, a resposta é não. Pais, vocês sabem que a coisa mais preciosa que Deus lhes deu foi seus filhos. Portanto, amem, nutram e instruam seus filhos diariamente. Não negligenciem o culto doméstico. Coloque-o no topo das prioridades de sua casa.


O que fazer no culto doméstico

O culto doméstico deve ser uma atividade simples consistindo de três elementos básicos: leitura bíblica e instrução, oração e cântico de louvor. A medida que consideramos brevemente essas três áreas, tenha em mente os seguintes princípios: Primeiro, é muito importante que o culto doméstico seja conduzido de forma regular. Portanto, é sábio fixar um tempo específico para a família inteira se encontrar diariamente; isto deve ser mantido exceto somente em razão de uma grande emergência. Fixar o tempo do culto doméstico e torná-lo um evento diário inegociável irá eliminar a tentação de pular dias ou deixá-lo para depois por causa de várias desculpas (e.g., doença, cansaço, eventos esportivos, programas de TV, filmes, etc.). Sermões e livros antigos sobre religião familiar ensinam que o culto doméstico deve ser feito duas vezes por dia. Tal ensino é baseado em passagens que falam de orações matutinas e noturnas (e.g., Sl. 92:1-2; 141:2). Dado o fato de que tais passagens falam diretamente a respeito do culto privado, os pais devem se comprometer com a adoração, no mínimo, diária.

Segundo, o pai (ou no caso de alguém que é sozinho a cabeça da família da aliança) é responsável por conduzir a devoção familiar. Este dever não deve ser delegado à esposa, ou ao irmão mais velho ou a um empregado da casa. A esposa e as crianças devem ser ensinadas e dirigidas pelo cabeça do lar da aliança. O pai é o profeta, sacerdote e rei da família. Ele deve ler as Escrituras, fazer perguntas, ensinar a doutrina e conduzir a oração.

Terceiro, o culto doméstico deve ser simples, prazeroso, e não excessivamente longo ou formal. Não somos gnósticos ou ascetas. A adoração familiar deve ser algo que a família aguarde ansiosamente; assim, não precisa ser uma maratona teológica. Quinze ou vinte minutos por dia deve ser suficiente para leitura, discussão e oração. As famílias que transformam suas devoções em uma tarefa prolongada e complexa freqüentemente se desgastam e acabam abandonando a adoração completamente. É muito melhor ser conciso e consistente do que excessivo e inconstante.


Os elementos básicos

1. Os pais devem ler as Escrituras para suas famílias. O conhecimento da palavra de Deus é necessário para a salvação, fé e vida. A bíblia é a base para a ética e a razão. Ela é a luz que guia nosso caminho (Sl. 119:105). As sagradas Escrituras são aptas para tornar uma criança sábia para a salvação (2Tm. 3:15). Devemos buscar as Escrituras diariamente para aprender e provar a doutrina (Atos 17:11), pois a palavra de Deus é a própria verdade (Jo 17:17). Ela é nosso guia para um modo de agir que santifica nossos corações e vidas (Jo. 17:17). Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo. 8:31-32). A palavra de Deus deve estar em nossos corações e deve ser diligentemente ensinada a nossos filhos (Dt. 6:6-7). Tudo que necessitamos crer e tudo que necessitamos fazer está dentro destas páginas. “É melhor estar sem pão em nossas casas do que sem bíblias, pois as palavras da boca de Deus são e devem ser mais necessárias a nós do que comida”. J. W. Alexander escreve: “A leitura diária da santa palavra de Deus, por um pai perante seus filhos, é uma das mais poderosas atitudes da vida cristã. Nós somos propensos a subestimar esta ação. Ela é um gotejar contínuo, mas que deixa sua marca na pedra. Uma família assim treinada não pode ser ignorante da Palavra. A bíblia inteira vem repetidamente à mente… Nada na educação dos jovens é mais importante.”

E como a bíblia deve ser lida para as crianças? Há várias coisas que devem ser lembradas considerando esse dever crucial. Primeiro, a bíblia deve ser lida com autoridade e solenidade, pois é a própria palavra de Deus. Tal leitura instila na criança um respeito e santa reverência pelas Escrituras. Eles aprendem que a Bíblia não é apenas outro livro antigo; ou somente outro livro para se estudar, mas que é verdadeiramente ímpar. Somente ela tem autoridade absoluta. Somente ela merece uma confiança e obediência irrestritas.

Segundo, a bíblia deve ser lida de maneira que a criança foque a atenção na leitura. Isto significa que os pais devem ler as Escrituras com um certo amor, vibração e fervor. Se um pai demonstra fadiga e lentidão em sua leitura as crianças irão perceber isto. Por meio de um exemplo tão apático o pai está implicitamente ensinando a seus filhos que a Bíblia é um livro seco e enfadonho. Nossos filhos devem perceber nosso amor, alegria e entusiasmo pela palavra de Deus através de nossa leitura. Além disso, o pai deve freqüentemente parar e fazer perguntas a seus filhos a respeito da Escritura lida. As perguntas têm funções importantes: (1) Elas forçam as crianças a prestar atenção ao que está sendo lido de forma que não fiquem distraídas e falhem em aprender a seção da Escritura. (2) Elas também permitem que o pai enfatize doutrinas importantes e faça aplicações em cada passagem (e.g., “João, por que Paulo disse que ninguém pode ser salvo guardando a lei?” ou, “Susana, por que Jesus Cristo sofreu e morreu na cruz?”). Lembre-se, o pai é o profeta da família: lendo as Escrituras, reprovando pecados, enfatizando doutrinas, fazendo aplicações, vigiando contra erro e imoralidade. Não é de surpreender que um pai que é diligente e aplica-se ao culto familiar torna-se, em razão disto, um pai melhor.

Terceiro, o pai deve focar na qualidade e não na quantidade. Em outras palavras, uma leitura curta (e.g., um capítulo) com perguntas e comentários é melhor do que uma longa leitura sem atenção ou aplicação. Não esqueça, o culto doméstico deve ser conciso, objetivo e regular. Leituras muito longas sem análise podem conduzir à distração e inquietação em crianças pequenas.

Finalmente, a bíblia deve ser lida na sua inteireza, do princípio ao fim, para se ter todo o conselho de Deus. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2Tm. 3: 16-17).2. Os pais devem orar com suas famílias. Como sacerdote da família o pai deve se aproximar do trono da graça e interceder por si mesmo, por sua esposa e filhos. “As famílias têm muitas incumbências para apresentar ao trono da graça, o que as provê com assunto e ocasiona diariamente oração familiar; tais incumbências não podem ser feitas tão bem em secreto ou em público, mas são mais proveitosas se forem desempenhadas pela família separadamente, aparte de outras famílias”. É principalmente através da oração familiar que as crianças menores aprendem a importância de orar e a metodologia bíblica da oração. Na oração a família inteira vai a Deus através de Jesus como um corpo da aliança dedicado à causa de Cristo e da verdade.

Há várias coisas importantes que devem ser parte da oração familiar. Primeiro, as famílias devem reconhecer a total dependência de Deus e sua providência. Em oração, honramos a Deus e glorificamos a Ele por Suas infinitas perfeições. Reconhecemos a soberania de Deus e o reinado mediatorial de Cristo. Cristo é o dono e mestre desta família. Nós reconhecemos nossa dependência dEle para salvação e todas as boas dádivas.

Segundo, as famílias devem confessar seus pecados a Deus. Na bíblia os chefes da casa são considerados de forma orgânica. Quando um membro cai em maldição e pecado isto pode afetar a todos. Há numerosos exemplos da iniqüidade de cabeças da aliança trazendo desgraça sobre toda a família (e..g., Açã, Js. 7:19-26; Baasa, 1Rs. 16:3-4, 12; Acabe, 1Rs. 21:21). Há até mesmo os pecados de filhos que trazem calamidade sobre uma família inteira (e.g., os filhos de Eli, 1Sm. 3:13-14). As famílias devem vir juntas e confessar seus pecados diários por pensamento, palavra e ação. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo. 1:9). Devemos fortalecer nossas mãos na santidade, arrependimento sincero e confissão de culpa perante Deus. “Como é triste a condição das famílias que pecam juntas, e nunca oram juntas!” Os membros da família freqüentemente dizem e fazem coisas uns para com os outros que são contrárias à palavra de Deus. Uma confissão diária irá reconciliar a família com Deus e entre si. Ela irá incutir nas crianças a seriedade do pecado e a grande necessidade de arrependimento contínuo. Whitifield escreve: “Não há uma família que não tenha que dar graças pelas bênçãos das quais têm sido participantes, e algumas aflições e cruzes em comum que todas elas lastimam e lamentam. Mas é difícil conceber como isto pode ser feito sem unir-se em um ato comum de humilhação, súplica, e ação de graças”.

Terceiro, as famílias devem agradecer a Deus por todas as bênçãos da vida, especialmente a salvação conquistada por Jesus Cristo. Todas bênçãos da vida — o alimento que comemos, a roupa que vestimos, os carros que dirigimos, mesmo o ar que respiramos — vêm da mão beneficente do SENHOR. Não devemos continuamente dar graças a Ele por estas grandes dádivas? Ele também não nos protege continuamente do mal, da calamidade e de nossa própria tolice (cf. Jó 1:10; Is. 4:5)? O grande presente de toda a nossa família é o próprio Jesus Cristo. Deus nos escolheu nEle e nos uniu em Sua vida, morte e ressurreição. Deus regenerou nossos corações nos permitindo crer em Cristo. Por causa dEle somos famílias cristãs. Jesus teve misericórdia de nosso lar. O Emanuel vive conosco. “Naquele tempo, diz o SENHOR, serei o Deus de todas as tribos de Israel, e elas serão meu povo” (Jr. 31:1).

Quarto, as famílias devem orar a Deus por suas necessidades físicas e espirituais. Jesus nos instrui a orar por nosso pão diário (Mt. 6:11). Como famílias podemos nos unir para pedir prosperidade física, não para vivermos vidas mundanas e negligenciar nossos deveres religiosos, mas, para que possamos como famílias servir melhor a Cristo e expandir Seu reino. Se devemos orar por nosso pão diário, então quanto mais por santificação, mortificação do pecado e libertação do mal. Como famílias devemos orar: “não nos deixes cair em tentação” (Mt 6:13). Os líderes do lar freqüentemente sofrem das mesmas fraquezas e tentações. Os filhos com freqüência imitam os maus hábitos e as tendências pecaminosas de seus pais. As famílias devem identificar os problemas, hábitos pecaminosos e tentações comuns e orar juntos, como um lar, por livramento e santificação.

Quinto, as famílias devem orar pelo bem-estar de outros. Elas devem orar por toda sorte de homens. Há parentes, amigos e conhecidos que precisam ser salvos. Há crentes que estão sofrendo sob várias provações (doença, injúria, problemas financeiros, etc.). Há cristãos apostatando que necessitam despertar para sua condição e se arrepender. Há vários missionários por quem se pode interceder em família. Há conflitos e problemas civis e denominacionais que devem ser colocados perante o trono da graça. Há crentes que estão sofrendo severa perseguição longe, mundo afora, nas mãos de tiranos. “Os benefícios da oração vão longe, pois aquele que ouve a oração pode estender sua mão de poder e misericórdia até ao mais extremo da terra, e àqueles que estão distantes no mar.” “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável a Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm. 2:1-4).

3. Os pais devem conduzir suas famílias no cântico de louvor. “Habite, ricamente em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, hinos, e cânticos espirituais, com gratidão em vosso coração” (Cl. 3:16). O cântico de um ou dois salmos a Deus é uma resposta apropriada à leitura da Escritura e oração. Fazendo assim a família glorifica a Deus e se admoesta mutuamente. Samuel Davies escreve: “O louvor da família é um dever porque a ação de graças freqüentemente acompanha a oração na Escritura; Filipenses 4:5; Colossenses 4:2; 1Tessalonicenses 5:17-18; e a salmodia deve ser considerada o método mais apropriado de expressar gratidão como parte do culto divino. ‘Nas tendas do justo há voz de salvação e júbilo’, Salmo 118:15 — uma expressão que muito propriamente significa louvar a Deus nos salmos, e hinos, e cânticos espirituais, como nos é ordenado, Colossenses 3:16”.


Conclusão

Pai, considere o importante dever que Deus colocou em suas mãos: criar uma semente piedosa. Considere seus preciosos filhos da aliança; imprima neles as grandes verdades do cristianismo bíblico enquanto são jovens e maleáveis. Ensine-os a honrar a Deus com seus corações, mentes, lábios e mãos desde a mais tenra idade. Considere seus filhos como bênçãos de Deus, feitos para servir ao Senhor. Eles devem levar a bandeira de Cristo adiante, à geração seguinte. Faça seu trabalho diligentemente para que quando você estiver louvando a Cristo no céu seus filhos estejam servindo e louvando a Deus na terra.

Enquanto é verdade que somente Deus pode dar graça à alma, é também verdade que Ele usa meios secundários — o ensino da palavra de Deus — para dar a soma do conhecimento salvífico ao eleito. Pai, considere sua dor e miséria se por descuido e negligência seus filhos aprenderem a trilha do mundo ao invés do caminho do Senhor. Se você cumpre suas obrigações da aliança amando, ensinando, exortando, admoestando, encorajando e alertando seus filhos para confiar em Cristo e obedecer a Sua lei então você fez sua parte e com paz de espírito pode confortavelmente deixar seus filhos nas mãos de Deus. Pais fiéis à aliança podem descansar nas promessas de Deus. Que Deus nos permita sermos fiéis a nossos deveres do pacto para que Cristo possa ser glorificado em nossos filhos.


Tradução: Márcio Santana Sobrinho

Fonte: The Christian Family. Chapter 6: Family Worship.

Neoevangélicos: raízes podres e indigestas


Neoevangélicos: raízes podres e indigestas

Derval Dasilio

Os surtos neoevangélicos recentes são certamente contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, econômico, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo, moderno. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano marcado pelo anonimato, por relações indiretas, pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Imaginam-se no mundo pré-histórico? Nunca. São muito modernos, capitalistas “in essentia”, como coreografia de mitos ancestrais manipulados convenientemente.

A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais (em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não) e a religião nunca se dissociam dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o transcendente. Estão na religião. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vão se racionalizar origens e fins. Atualizemos o surto contemporâneo da religião de mercado.

Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, com estrelas cadentes. Debaixo dele as pessoas armavam tendas. Como seria intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas... Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento... Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros e feiticeiros conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. O homem bíblico não é diferente dos outros: denuncia-a imediatamente. A guinada na direção da religião revelada ocorrerá gradativamente.

A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico e depois cananita enseja uma abordagem diferenciada, notável. O povo bíblico crê numa religião revelada. Deus é espontâneo, revela-se porque quer. Não crê na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo ao redor. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. E agora, o deus econômicus neoevangélico, dita novas regras?

A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, na madeira carbonizada e exposta (terror que converteu Lutero!). Acrescentemos a observação de ciclones, furacões, maremotos. Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que as pessoas conheciam? Hoje, o otimismo evangélico econômico, em trono da prosperidade, passa ao largo dessas questões.

Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina” da teatrologia da Grécia Antiga, é bem brasileiro. Deus é um serviçal, “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico. Todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. O crente ora e ordena à divindade imprensada na parede, depois das ofertas compulsórias: ”Fiz a minha parte, agora faças a tua”. Estamos na iminência de um “deus demitido do trono da graça”. Perdeu-se a essência bíblica que convoca à ética, solidariedade, compaixão e misericórdia. A graça de Deus custa muito caro no mundo neoevangélico carismático.


• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

‘Eisegeses‘ Famosas


‘Eisegeses‘ Famosas

Marcelo Lemos

O leitor certamente saberá definir o termo “exegese”. O termo vem do grego exegeomai, exegesis: ex tem o sentido de extrair, externar, exterioriar, expor. Daí, muitos darem para o conceito a famosa definição “conduzir para fora”; que alguns desavisados anunciam pleonasticamente como “retirar para fora” (he, he).

Portanto, exegese, como Interpretação da Bíblia, significa o exercício de compreender o que diz o Santo Texto, para então trazer ao leitor atual o seu real significado. Como ferramentas de apoio, o exegeta se vale de gramáticas, dicionários, léxicos, comentários, pesquisas históricas e geográficas, enfim. Todo e qualquer recurso que possa lançar luz sobre “o que está escrito”, poderá ser utilizado pelo interprete das Escrituras.

Não falaremos sobre a exegese neste artigo. Hoje, pretendemos tecer algumas linhas sobre sua principal rival: a eisegese. Ainda que você não saiba o que o termo significa, esteja certo de já ter sido vitima dela, e, quem sabe, ter vitimado alguém com ela.

Por eisegese, compreendermos todo movimento feito a partir de um texto bíblico, indo na direção contrária da proposta pela exegese.Em outras palavras, se a exegese dedica-se a revelar ao leitor o que o texto diz, extraindo dele, o texto, seu significado original; a eisesege, por sua vez, ter sido vitima dela, e, quem sabe, ter vitimado algupal rival: a eisegese. dedica-se a inserir no texto algum significado que o leitor acha que este possui, ou meramente quer que possua.

Para que possamos compreender um pouco mais a questão, passaremos a listar e comentar algumas das eisegeses mais famosas que conhecemos, e também algumas bem hilárias.

As Sobras da Santa Ceia

Que devemos fazer com o pão e o vinho que sobram da Mesa do Senhor? Para muitos a pergunta não tem nenhuma razão de ser. Todavia, eu cresci numa congregação onde as sobras erram obrigatoriamente jogadas em água corrente. Somente muitos anos depois, é que foi conhecer irmãos que pegam as sobras e, por exemplo, davam para as crianças comerem após o culto!

Recordo de ter presenciado uma irmã, que visitava nossa Igreja, quase sofrer um “treco” quando as filhas de nosso pastor pegaram as sobras da Mesa e começou dar aos pequeninos. Na ocasião eu não tinha mais qualquer pudor sobre o assunto, mas, para ela, aquilo era verdadeira blasfêmia, e foi preciso algum esforço para acalmá-la.

Quais justificativas bíblicas alegam aqueles que jogam os restos da Mesa em água corrente? Talvez o leitor conheça outra, a que conheço se vale do texto de Eclesiastes 11.1; no qual se lê:

Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás – Eclesiastes 11.1.

Basta estabelecermos o fato de que no tempo de Salomão não existe algo como a “Ceia do Senhor”, para verificarmos que tal interpretação não é, de fato, exegese. Aqueles que assim a interpretam, nada mais fazem que jogar sobre o texto o significado que bem deseja, arrumando uma pseudo-base-biblica para seu estranho dogma.

A Barba de José

A cerca de um ano foi muito contente ouvir um determinado pastor, num culto que nós assembleianos intitulamos “de doutrina”. Era a minha primeira vez, ouvindo-o; e muita expectativa me acompanhava, de tão bem ter do mesmo escutado falar. E, em geral, não me decepcionei, pois o mesmo manteve uma linha de exposição bíblica muito sóbria, tranqüila, quase um diálogo com a Igreja (que, claro, estava abarrotada de gente!Graças a Deus!).

Porém, algo estranho aconteceu quando ele quis corrigir alguns membros da Igreja, provavelmente entre os jovens, que estavam ousando usar barba. Como sabem, a maioria dos assembleianos não aceita aqueles ‘pelinhos’ que crescem no rosto dos homens; só bigode!

Qual a razão para proibição tão esquisita? Aí veio meu susto. Eu esperava que o pastor se referisse a questão dos “costumes”: eu mesmo faço isso inúmeras vezes. Por exemplo, um jovem me pergunta: “Posso subir no altar de jeans?”. A isso respondo: “Biblicamente não há pecado nenhum em fazer tal coisa, todavia, nós assembleianos adotamos costume diferente. Se você subir no altar de jeans, não peca por isso; mas pode estar levando a alguém a se escandalizar. O que você prefere?”.

Biblicamente falando, escandalizar um irmão mais fraco na fé, quando se pode evitar, é pecado. Tenho tal convicção muito forte comigo. E tal atitude não significa me submeter ao legalismo, antes, significa cuidar para que aqueles que estão ligados a ele, não deixem, por causa de um capricho meu, de conhecerem a liberdade cristã.

Mas, o querido pastor fez algo diferente. Mandou que abríssemos a Bíblia na passagem onde alguém diz ao prisioneiro José que o Faraó desejava falar com ele. O texto bíblico diz que José tomou um gostoso banho e barbeou-se. Pronto! Eis a base do argumento: se José barbeou-se para apresentar-se perante um Rei humano, como nós ousaríamos nos apresentar perante o Rei do Universo, com a barba por fazer?

A Imagem da Besta

Foi hilário andar por uma famosa marginal de São Paulo e ler o imenso cartaz que dizia: “A Televisão é a Imagem da Besta”. Sem que ninguém precisasse me dizer, eu sabia exatamente de qual mente sóbria tal afirmação havia brotado. Se você pensou no famoso missionário voz-do-pato-donald, pensou igual a mim!

Mais diversão só quando o escutei, no rádio, dando a base bíblica para tal afirmação. Segundo o voz-do-pato-donald, a imagem da besta era a televisão, pois;

a) A imagem da besta deixaria um “sinal na mão” dos pecadores. A televisão deixa um sinal na mão de quem a assiste: o controle remoto!

b) A imagem da besta faria grandes sinais “na vistas” dos pecadores. Isso a televisão também faz. Certamente nela você vê cavalos falando, formiginhas dançando, homens voando e parando balas no peito! Tanto milagre assim só pode ser coisa da “besta”, oras bolas! O Pato Donald só se esqueceu de um detalhe: João diz que os milagres eram feitos pela Besta, e não pela “imagem da besta”.

c) A “imagem da besta” era um ser sem vida, porém, foi lhe dado um espírito para que “falasse”. Ora, ouvinteeeeeeeeees!; qual a única imagem que conhecemos que tem o “poder” de falar? A televisão, claro! Vamos deixar passar que a televisão não recebeu nenhum espírito, apenas energia elétrica e um sinal de ondas…

O Culto Racional, e a Ração do Papagaio…

Essa também foi hyper-divertida. Quase na mesma época que o Encardido virou dono, e o milagreiro que fez a tv “falar”, a esposa do mesmo missionário resolveu dar uma série de estudos bíblicos no rádio. Sim, no rádio, pois televisão é coisa do Capeta, hein?

Então, ela leu a seguinte passagem bíblica:

Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional – Romanos 12.1.

Confesso que a escolha do texto me surpreendeu, e fiquei esperando para ver o que a palestra me reservava. Então, tive que ouvir o seguinte discurso;

O crente, meus queridos, não deve gastar seu tempo com aquilo que não alimenta a sua alma. Alguns irmãos acham que não é nada demais ouvir uma música mundana, ou assistir um programinha de televisão.

A Bíblia diz que devemos apresentar a Deus um culto racional. Vocês sabem o que “racional” significa? O termo “racional” vem de “ração”. Como sabem, “ração” é um alimento diário, absolutamente necessário. Por isso, o crente precisa alimentar sua alma com a ração que Deus nos dá: a Palavra de Deus. Porém, muitos estão alimentando sua alma com coisas mundanas…

Eu, ouvindo assombrado tão erudita explanação, não sabia se ria, ou chorava…

Se fossemos continuar escrevendo sobre este assunto, provavelmente reuniríamos várias páginas de eisegeses que conhecemos.Por isso decidi comentar apenas algumas das mais bizarras que já presenciei. E você? Conhece alguma boa eisegese para compartilhar conosco? Deixe seu comentário!

Paz e bem!



Márcio Melânia

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Transmissão do Antigo Testamento


A Transmissão do Antigo Testamento

É provável que possua na sua própria língua um exemplar do Antigo Testamento, também chamado de Escrituras Hebraicas. Esta parte hebraica da Bíblia Sagrada contém alguns capítulos e versículos isolados escritos em aramaico. A escrita das Escrituras Hebraicas (AT) foi terminada há mais de 2.400 anos.

Pode ter a certeza de que seu exemplar das Escrituras Hebraicas representa aquilo que foi escrito originalmente? Alguns acham que milhares de anos de copiar e recopiar certamente devem ter obscurecido o texto das línguas originais, além de qualquer reconhecimento. Mas aconteceu isto realmente? É interessante considerar algumas informações básicas sobre como estes escritos foram transmitidos através dos séculos.

Desde o começo da escrita da Bíblia, houv e empenho em preservar a Palavra de Deus. As Escrituras declaram que Moisés ordenou aos levitas que preservassem “este livro da lei” em benefício das gerações subsequentes. (Deuteronômio 31:25, 26) Deus ordenou aos reis de Israel que fizessem para si “uma cópia desta lei”, quando assumissem o trono. — Deuteronômio 17:18.

Mais tarde, surgiu uma necessidade especial de cópias das Escrituras Hebraicas, no tempo de Esdras, um sacerdote que, junto com outros judeus, subiu de Babilônia para Jerusalém, no sétimo ano do rei persa Artaxerxes (468 a.C.) - Esdras 7:1-7) Milhares de judeus haviam decidido permanecer em Babilônia e outros haviam sido espalhados, por causa de migrações e por motivos comerciais. Em diversos lugares surgiram salões locais de assembléia, conhecidos como sinagogas, e, para elas, os escribas precisavam fazer, à mão, cópias dos manuscritos bíblicos. O próprio Esdras é identificado como “copista destro da lei de Moisà ©s” e como “copista das palavras dos mandamentos de Yahweh dos Seus regulamentos para com Israel”. — Esdras 7:6, 11.

I. O TRABALHO DOS “SOFERINS”

A partir dos dias de Esdras, e por uns mil anos, os copistas das Escrituras Hebraicas eram conhecidos como “soferins”. Uma antiguíssima tradição rabínica relaciona este título com o verbo hebraico (safar) que significa “contar”, dizendo: “Os primitivos eruditos eram chamados Sof’rim, porque contavam todas as letras na Tora”, quer dizer, no Pentateuco, ou nos primeiros cinco livros da Bíblia. Tal empenho meticuloso assegurou alto grau de exatidão na transmissão das Escrituras Hebraicas.

É claro que séculos de produção de cópias resultaram, naturalmente, em que alguns erros se introduzissem no texto bíblico, hebraico. Há evidência de que os soferins até mesmo fizeram algumas poucas mudanças intencionais. Por exemplo, copistas muito posterior es na história alistam 134 lugares onde os soferins mudaram o texto original hebraico para orar Adonai [“Senhor”] em vez de o nome pessoal de Deus, IHVH [“Yahweh”]. Felizmente, porém, estes escribas indicaram onde fizeram as mudanças, de modo que estudiosos subsequentes soubessem o que o texto dizia originalmente.

De acordo com a tradição judaica, antes da destruição do Templo, em Jerusalém, em 70 d. C., fizeram-se esforços estrênuos de voltar ao que o texto bíblico hebraico dizia originalmente. Sobre isso escreve Robert Gordis em O Texto Bíblico: “Os guardiães do texto bíblico encontraram um manuscrito antigo, meticulosamente escrito, e constituíram-no em base para o seu trabalho. Tomaram-no como arquétipo, do qual se deviam fazer todas as cópias oficiais e segundo o qual todos os manuscritos em mãos particulares podiam ser corrigidos daí em diante.”

A literatura rabínica menciona uma cópia hebraica do Pentateuco conhec ida como o “Rolo dos recintos do Templo”, que servia de modelo para a revisão das novas cópias. Faz-se também menção de “corretores de livros bíblicos em Jerusalém”, que recebiam seu salário do tesouro do Templo.

II. O TEXTO “MASSORÉTICO”

Originalmente, os manuscritos da Bíblia hebraica foram escritos apenas com consoantes. O alfabeto hebraico não possui letras vocálicas, tais como as nossas a, e, i, o, u. Mas, se olhar hoje para uma Bíblia hebraica impressa, notará que acima, abaixo ou no meio de cada palavra há pontos, traços e outros sinais. Por que foram estes acrescentados ao texto das Escrituras Hebraicas? Porque as palavras hebraicas escritas apenas com consoantes muitas vezes podem ser pronunciadas de várias maneiras diferentes, com variações de sentido. Os pontos vocálicos e os acentos servem para proteger a pronúncia tradicional de cada palavra.

Os pontos vocálicos e os acentos são a obra de copistas especialmente peritos, que viviam durante o sexto e até o décimo século d.C. Estes escribas vieram a ser conhecidos como baalei ha-masoreth (“senhores da tradição”) ou “massoretas”. O texto hebraico com pontuação vocálica, portanto, é chamado texto “massorético”.

Os massoretas não mudavam nada quando copiavam os manuscritos da Bíblia hebraica. Examinavam todas as formas incomuns de palavras, fazendo anotações sobre elas nas margens dos manuscritos massoréticos. Estas notas são chamadas “massorá”. Um método muito abreviado de anotações, conhecido como a “pequena massorá”, aparece nas margens, ao lado do texto da Bíblia hebraica. As margens no alto e ao pé das páginas contêm a “grande massorá”, que suplementa a pequena massorá. No fim de alguns manuscritos massoréticos encontra-se uma “massorá final”, parecida com uma concordância.

Tais anotações revelam que os massoretas havi am acumulado enorme quantidade de informações para a preservação fiel do texto bíblico. Segundo Robert Gordis, “contavam as letras da Escritura, determinavam a letra central e o versículo central da Torah [Pentateuco], fixavam a letra central da Bíblia como um todo, compilavam listas extensas de formas bíblicas raras e únicas, alistavam o número de ocorrências de milhares de palavras e usos bíblicos — tudo para ajudar a protegê-la contra alterações e impedir que escribas introduzissem mudanças no texto aceito.”


Por exemplo, a pequena massorá observa que a primeira palavra de Gênesis, bereshith (muitas vezes traduzida: “No princípio”), ocorre cinco vezes na Bíblia, três vezes no começo dum versículo. Muitas palavras, em quase cada página dos manuscritos bíblicos massoréticos, são marcadas na margem pela letra hebraica lamedh (ל). Esta letra (equivalente ao nosso “l”) é uma abreviatura da palavra leit, que é aramaica para “não há nenhuma”. Indica que a expressão, assim como aparece naquele ponto, não ocorre em nenhum outro lugar. Sobre a massorá, Ernst Würthwein observa em O Texto do Antigo Testamento:

“Muitas vezes, tais anotações massoréticas nos parecem forçadas, frívolas e sem finalidade. Mas, precisamos lembrar-nos de que são o resultado do desejo apaixonado de proteger o texto e de impedir erros deliberados ou descuidos do escriba, . . . A massorá dá testemunho da revisão extremamente precisa do texto, que merece nosso respeito, embora sempre haja o perigo de que no cuidado com a letra do texto seu espírito tenha sido despercebido.”

III. A EXATIDÃO É CONFIRMADA PELOS ROLOS DO MAR MORTO

Pesquisas feitas na região do Mar Morto encontraram numerosos rolos hebraicos, escritos antes de Cristo. Muitos deles contêm partes das Escrituras Hebraicas. Como se comparam eles com os manuscritos massoréticos, produzidos uns mil e tantos anos mais tarde?

Num estudo, examinou-se o capítulo cinquenta e três de Isaías, tanto no Rolo de Isaías do Mar Morto, copiado por volta de 100 a.C., como no texto massorético. Norman L. Geisler e William E. Nix apresentam os resultados deste estudo em Uma Introdução Bíblica:

“Dentre as 166 palavras em Isaías 53, há apenas dezessete letra s em dúvida. Dez destas letras simplesmente são questão de grafia, que não afeta o sentido. Mais quatro letras são mudanças estilísticas menores, tais como conjunções. As remanescentes três letras abrangem a palavra ‘luz’, que é acrescentada ao versículo 11, e não afeta muito o significado. . . . Assim, em um só capítulo de 166 palavras, há apenas uma palavra (três letras) em dúvida, depois de mil anos de transmissão — e esta palavra não altera significativamente o sentido da passagem.”

Outra publicação observa que este rolo é uma cópia adicional de partes de Isaías encontrada perto do Mar Morto, “mostraram ser palavra por palavra idênticos à nossa Bíblia hebraica comum, em mais de 95% do texto. Os 5% de variação consistem principalmente em lapsos óbvios da pena e em variações de grafia”.

Portanto, quando ler o Antigo Testamento, ou as Escrituras Hebraicas, pode confiar em que a sua Bíblia se baseia num text o hebraico que transmite com exatidão os pensamentos dos escritores inspirados de Deus. (2 Timóteo 3:16) Milhares de anos de produção profissional, meticulosa, de cópias asseguram o que Deus predisse há muito: “Secou-se a erva verde, murchou a flor, mas, quanto à palavra de nosso Deus, ela durará por tempo indefinido.” — Isaías 40:8.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cultura. A fé cristã é contra, ou a favor?


Cultura. A fé cristã é contra, ou a favor?

Gn 1.24-31 e Gn 2.8-20

© F. Solano Portela Neto, 1999

1. O que é cultura?

Definir cultura não é uma tarefa fácil. Ricardo Gondim, em seu livro “É Proibido” (Mundo Cristão, 1998) indica que os antropólogos já criaram mais de trezentas definições. Você, possivelmente, já ouviu ou falou a expressão: “isso faz parte do contexto cultural”? Ou, com certeza, você já ouviu palestras sobre “missões transculturais” . Mas como poderíamos definir esse conceito? Nos dois sentidos empregados acima, cultura se refere ao conjunto de características peculiares que identificam uma sociedade, em uma determinada época. Mas, em outro sentido, cultura é mais do que isso. A palavra em si vem do latim e significa “trabalhar o solo” ou “cultivar”. No seu sentido mais amplo, representa o resultado da aplicação do conhecimento humano no desenvolvimento de obras e atividades que possuem mérito e qualidade, bem como o envolvimento de outros na apreciação e apreensão dessas. Neste artigo, Gostaríamos de discutir um dilema freqüentemente: aquele que coloca a fé cristã em antagonismo com a cultura, levando o crente a um isolamento social ou a uma aceitação indiscriminada de todos os aspectos da sociedade em que vive.

Um dos problemas que confrontamos é que a visão da sociedade secular tende a classificar como “cultura” tudo o que caracteriza uma sociedade, considerando essas formas de expressão como moralmente neutras. Ou seja, tudo que um povo produz é considerado “cultura”, seja ela erudita ou popular. Não existe o certo ou o errado, quando se trata de cultura, é apenas uma questão de usos e costumes. Essa compreensão não é bíblica. O crente tem que ter sempre o discernimento moral para separar formas comportamentais que não condizem com a Palavra de Deus, independentemente se são classificadas como “cultura”, popular ou não. Muitos líderes evangélicos têm também aceito esse conceito e procuram uma adaptabilidade total da fé cristã. Qualquer tentativa de correção de aspectos culturais é rotulada de “ocidentalizaçã o do evangelho”, ou violência cultural. Chega-se ao ponto de se dizer que temos que ter “teologias regionais”, ou seja – uma teologia sul-americana, uma outra africana, e assim por diante – como se os princípios descritivos revelados de Deus não tivessem uma fonte única e imutável – a Sua Palavra.

Não podemos, portanto, simplesmente aceitar uma civilização como ela é sem termos a visão clara do que ela tem contrário à palavra de Deus. O apóstolo Paulo, o maior “missionário transcultural” , não hesitou em fazer observações que, nos dias de hoje seriam consideradas “politicamente incorretas” sobre os habitantes da Ilha de Creta – cultura na qual estava inserido o jovem pastor Tito. Paulo, citando um próprio poeta daquele povo (Epimênides) diz em Tito 1:
Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos, e enganadores, especialmente os da circuncisão. É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância. Foi mesmo dentre eles, um seu profeta que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos. Tal testemunho é exato. Portanto repreende-os severamente, para que sejam sadios na fé. (vs. 10-13)
Paulo reconhece, então, que existiam comportamentos genéricos que caracterizavam aquela cultura e vários desses eram desvios do comportamento que Deus espera dos seus servos. Tito, em seus esforços para edificar aquela igreja, tinha que reconhecer que muito dessa “cultura” havia sido trazida para dentro (1.5). Ele tinha que rejeitá-la e “repreender severamente” (v. 13) e “com toda autoridade” (2.15) os que refletiam tal “comportamento cultural típico dos cretenses” dentro da igreja.

Nossa responsabilidade de transmitir e viver adequadamente o evangelho em qualquer cultura, não nos libera de estarmos alerta aos aspectos antibíblicos exibidos na formação dos povos. Por exemplo, por mais cultural que seja e por mais que faça parte de nossa formação, do ponto de vista bíblico nada existe de recomendável para o famoso “jeitinho brasileiro”. O livro já mencionado de Ricardo Gondim, que é polêmico e desafia o nosso pensamento, e, em muitos sentidos, é muito bom, falha ao aceitar a opinião de E. A. Nida, que um cordão para cobrir o corpo de uma mulher é uma questão cultural, dentro da visão indígena, nada tendo de imoral (p.31).Mas será que “cultura” é algo tão supremo e destituído de valor moral, assim? Não foi o próprio Deus que vestiu o homem caído em pecado (Gn. 3.21)? Não seria a exiguidade de roupas dos índios, junto com seus costumes de explorar as mulheres no trabalho e até de assassinar as primeiras crianças, quando são do sexo feminino, uma evidência de uma sociedade distanciada dos princípios de Deus, carente do evangelho salvador de Cristo? Será que os missionários terão que preservar todos os aspectos daquela sociedade – porque se constituem em “cultura”, ou deverão procurar reformá-la e transformá-la à luz da Palavra? E nós, que faremos em meio à nossa sociedade? Vamos aceitar também “a dança do tchan” como uma expressão cultural inocente, ou vamos reconhecê-la como a banalização da imoralidade que é?


2. O que tem o crente a ver com a cultura?

Por outro lado, existe a cultura verdadeira. O resultado do conhecimento aplicado no caldeirão das peculiaridades e diversidades operadas por Deus em todos os povos. Enquanto muitos crentes não exercitam discernimento e aceitam tudo que é classificado como “cultura” sem se preocupar com a adequação moral e bíblica do que é apresentado, outros têm a compreensão que qualquer coisa produzida fora da igreja, sendo do campo “secular” não deveria ser apreciada. Qual deve ser a abordagem equilibrada desta questão? O que tem a Palavra de Deus a nos ensinar? O Salmo 24 nos diz, “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.” A verdade é que a visão bíblica não faz uma separação entre o secular e o sagrado. Todas as coisas pertencem a Deus. O Diabo tem atuado temporariamente na terra, mas ele é um usurpador–ele não é o rei por direito. Sabemos que um dos sinais da vitória final de Jesus Cristo é que Deus o exalta, “... para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra”(Fl 2.13). As demandas de Deus caem sobre todos os homens, crentes e descrentes. Seus mandamentos são válidos em todas ocasiões e situações. Deus é a fonte de tudo que verdadeiramente tem valor e de todo o desenvolvimento veraz do conhecimento humano.


3. Cultura não é “coisa do mundo”?

Temos nos acostumado a identificar o mundo como sendo uma expressão que indica apenas algo material que podemos ver e tocar. Este tipo de compreensão coloca as coisas materiais como sendo a esfera de domínio de Satanás. Mas a Palavra de Deus nos instrui qual o verdadeiro conceito do “mundo”. Em Gl 5.19-22 temos bem clara a antítese que deve ser alvo de nossa preocupação–qual a diferença entre o mundo e o Reino de Deus:
1. O Mundo, está descrito nos versículos 19-21. Ele é o domínio daquilo que se constitui nas obras da carne.
2. O Reino de Deus, está nos versículos 22 a 26 e se constitui no Fruto do Espírito.
A separação que existe entre o bem e o mal é ético-religiosa, não é uma questão de matéria versus espírito. As coisas que constituem o bem são concretas, e são também espirituais. Por outro lado, as coisas que constituem o mal também são de natureza espiritual (Ef 6.12), isto é, não estão identificadas apenas com coisas e questões materiais.
Em outra passagem–1 Tm 4:3-4, Paulo fala contra os que proíbem “...o casamento, e ordenando a abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos que são fiéis e que conhecem bem a verdade; pois todas as coisas criadas por Deus são boas, e nada deve ser rejeitado se é recebido com ações de graças”. Isto esclarece que a verdadeira religião não é ascética. Ascetismo é a separação artificial entre o mundo material (físico), supostamente inferior, e o mundo espiritual (metafísico), supostamente superior. Como já vimos em Gl 5, não podemos identificar maldade com matéria e bondade com espírito. Tudo procede de Deus. Tanto as coisas materiais como as espirituais são desvirtuadas pelo pecado e pelo diabo, subvertendo a ordem da criação. A idéia de que matéria é algo ruim é um conceito do monasticismo católico, dos escritos de Tomás de Aquino e do pensamento das religiões orientais, como por exemplo o Budismo e o Hare Krishna, mas não é uma visão bíblica da realidade.

Verificamos que criamos, na igreja, uma dissociação artificial entre o sagrado e o profano. Falhamos em reconhecer que todas as coisas provêm de Deus. Estamos em uma criação caída, sob o pecado, mas cabe a nós, servos fiéis, exercermos o domínio que nos foi outorgado por Deus, para a sua glória. Isso quer dizer procurarmos adquirir o melhor conhecimento e desenvolver a apreciação pelas coisas belas da criação e aquelas que Deus permitiu às pessoas desenvolverem. Ao mesmo tempo, devemos ter discernimento cristão para rejeitar as distorções malignas da cultura verdadeira.


4. Cultura e o domínio da Criação.

O homem é a coroa da criação, feito de uma forma toda especial à imagem e semelhança de Deus (Gn1.27). Tanto o homem quanto a mulher foram criação especial de Deus. Este tema é retomado e explicado em mais detalhes no capítulo 3 de Gênesis.

A maioria dos teólogos fiéis identificam a questão da “imagem de Deus” no fato de que o homem foi criado com a possibilidade de refletir certos aspectos das características de Deus (os chamados atributos comunicáveis) , como por exemplo conhecimento, justiça, santidade, amor (algumas características da divindade nunca foram compartilhadas ao homem–os atributos incomunicáveis– por exemplo, a eternidade, a absoluta perfeição e a imensidão de Deus). Em outras palavras, a imagem de Deus no homem torna este uma criatura moral. Esta imagem foi afetada pela Queda, pelo pecado, mas permanece como um diferencial do homem e será restaurada em sua plenitude na nossa glorificação (Rm 8.29; 2 Co 3.18). Calvino disse: “a imagem de Deus se estende a tudo aquilo que, na natureza do homem, excede o que existe nos animais” (Institutas, I, 15). A permanência de aspectos essenciais da imagem de Deus no ser humano, mesmo depois da queda, é comprovada, em adição, pela referência de Gn. 9.6.

O ser humano, com estas características, é, portanto, o recebedor capaz da delegação de domínio sobre a Criação recebida no em Gn1.28. Os versos 28 a 30 apresentam os primeiros mandamentos dados ao homem. Eles estabelecem a situação de primazia, comando e administração da criação, recebida diretamente de Deus. O homem não é um acidente na criação. Ele foi especialmente nela colocado, para servir a Deus, e a criação subsiste como base para servi-lo em seu propósito maior.

O capítulo 1º de Gênesis encerra-se com a declaração de adequação da criação, só que desta vez, em seu fecho, o texto sagrado apresenta um qualificativo a mais e registra que tudo quanto Deus fizera “era muito bom”! Gn 1.28 nos ensina, portanto, que Deus criou o homem e o comandou a “dominar a terra e a sujeitá-la”. Por esta razão colocou os outros seres viventes ao seu serviço e sob sua administração. Este mesmo comissionamento foi repetido em Gn 9.1-3, depois da queda e depois do Dilúvio. O exercício do domínio é impossível sem o conhecimento, logo isso tem muito a ver com cultura:

Significa que Deus dá legitimidade a todas as áreas do conhecimento e das atividades humanas (exceto, é óbvio, aquelas que representam envolvimento em práticas contrárias à Lei Moral de Deus) e que comanda as pessoas a desenvolverem o conhecimento verdadeiro sobre a sua criação. Todo o estudo das questões e matérias, à luz da Palavra de Deus, está dentro da legítima atuação do servo de Deus. Senão, como vamos “dominar a criação”?
1 Cor 10.31 nos indica como deve ser este envolvimento. Tudo que fazemos na vida, até as coisas mais mecânicas e instintivas, como o comer e o beber, deve ser feito com a plena conscientizaçã o da glorificação a Deus.

Esta era a visão de vida dos reformadores. Para eles o Cristianismo era vida e não apenas uma filosofia idealista compartimentalizada . Temos que ter cuidado para não apresentarmos a fé Cristã ao mundo como sendo um conceito distanciado que não interage com o dia-a-dia das pessoas.


6. Cultura e beleza foram utilizadas por Deus no Tabernáculo e no Templo.

O Tabernáculo: Em Ex 25.1-9, temos uma descrição de diversos tipos de matérias primas, trabalhos e artes utilizados sob o direcionamento e prescrição direta de Deus. Isso não somente legitima as diferentes profissões como também a arte e cultura contida em cada um dos artefatos descritos. Um artigo de uma autora cristã nos chama a atenção para o fato que “Deus permitiu que os israelitas recebessem jóias e roupas do povo do Egito e aceitou com agrado a contribuição voluntária de uma parte dessas para serem transformadas em utensílios e enfeites para o tabernáculo, o lugar em que Ele seria adorado. Moisés transmitiu a mensagem, Tomais, do que tendes, uma oferta para o Senhor; cada um, de coração disposto, voluntariamente a trará por oferta ao Senhor: ouro, prata, bronze, estofo azul, púrpura, carmesim, linho fino, pêlos..., peles..., pedras de ônix e pedras de engaste...(Ex 35.5-9). Êxodo 35 a 39 descreve a beleza desse tabernáculo e os detalhes das vestes dos sacerdotes, tudo do melhor e do mais bonito. Ouro, linho, pedras preciosas, anéis, argolas, coroa... Quando os israelitas tiraram o espólio do povo de Canaã, na medida em que Deus permitiu, ele nunca deu ordens para que deixassem de lado as jóias e roupas bonitas que estariam entre as riquezas que poderiam levar, nem que as aproveitassem de outra maneira.” Portanto, nas diretrizes bíblicas sobre a construção do tabernáculo vemos a aprovação divina de várias expressões de cultura e, o que é interessante, a apreciação de objetos de mérito procedentes de descrentes:

O Templo–Em 1 Reis 6.7 lemos sobre planejamento, arquitetura, engenharia. Em 7.14, sobre metalurgia e o trabalho específico em cobre. Sabemos que estas atividades não podiam ser executadas sem conhecimento e cultura. Academicamente falando, era necessário o saber das ciências exatas–matemática, física, química, além de habilidades artísticas reconhecidamente superiores. O Templo, que foi erguido como um símbolo (1 Reis 8.27) e um testemunho (1 Reis 8.41), é um selo de aprovação da parte de Deus nas apreciação naquilo que o homem pode produzir de belo e no conhecimento básico das diversas profissões, quando isso é encaminhado para a Sua glória.


7. A Cultura Real tem Mérito e Qualidade.

Já nos referimos à tendência de definir tão abrangentemente o conceito de cultura, que todas as formas comportamentais são aceitas como valiosas. Essa mesma tendência se estende a outras áreas de realizações humanas, como por exemplo as artes plásticas e a música. Somos ensinados, por algumas pessoas, que tudo que provêm espontaneamente de um povo deve ser aceito e até trazido para a igreja. É tudo uma questão de estilo, nos dizem. Será que é mesmo assim (Fl 4.8-9)?

Até os descrentes estão começando a abrir os olhos para um julgamento mais adequado do que é considerado “arte” e “cultura”.. O caderno regional de uma revista semanal de circulação nacional publicou, recentemente, um ensaio no qual o articulista descrevia a sua visita na Bienal de São Paulo (Veja, SP, 2.12.98, p.122), feita em companhia de um amigo, conhecedor de “arte”. Em frente a uma tela branca, o seu amigo conhecedor exclamava, entusiasmado: “É um marco!”. Intrigado com várias outras obras estranhas que recebiam a admiração do amigo, entre elas uma pedra cheia de chicletes pregados, ele indicou que não estava entendendo nada. O amigo entendido “explicou” ao apreciador perplexo: “A arte não lida com a beleza, mas com transgressão”. Certamente esse não é o critério de Deus. Por mais difícil que seja discernirmos os critérios de julgamento, nossa apreciação da cultura e das artes nunca pode desprezar a pergunta: “mas isso possui realmente qualidade e mérito?” Vimos que Deus, na criação, avaliou o que fez, passo a passo, e viu que era “bom”, ou seja – a criação possuía valor intrínseco. Semelhantemente Ele escolheu formas de artes que eram “belas” para os locais de adoração. Vamos, portanto, ser apreciadores da cultura real (popular ou erudita), que tem mérito e qualidade.

Conclusão

Muitas perguntas pairam sobre nossa cabeça e deveríamos nos esforçar para respondermos, biblicamente, a cada uma delas: Será que temos absorvido aspectos da nossa sociedade como “cultura” sendo que estes, na realidade, contrariam preceitos da Palavra de Deus? Que devemos dizer da “cultura de negócios” encontrada em nossa sociedade, será que ela agrada a Deus? Estamos nos destacando pelo nosso testemunho de contraste, ou pelo envolvimento inconseqüente com as manifestações “culturais” de nossa sociedade? Ou será que temos nos isolado indevidamente e falhado em reconhecer as bênçãos de Deus, providenciadas por sua graça comum, quando permite que o homem escreva, componha ou produza algo que é belo e agradável?

E a igreja? Tem ela absorvido aspectos de uma cultura que contraria a Palavra de Deus. Ou será que tem reagido de forma extremada, proibindo o que Deus não proíbe? E qual tem sido o impacto da cultura, ao longo da história, na liturgia da igreja? Qual deve ser o papel da igreja na transformação da cultura de um povo? Recentemente temos visto muitos artistas que se declaram convertidos, mas que não discernem nenhuma maldade ou imoralidade na forma de expressão que marcou suas carreiras, por exemplo: uma dançarina, meio cantora, famosa por suas músicas entremeadas de grunhidos e suspiros, pelas roupas sumárias que usa e por sua dança erótica de segundas implicações, continua a se apresentar e divulgar essa forma de “cultura” ao mesmo tempo em que se identifica com a igreja evangélica. Será que está certo, isso?

Que Deus possa nos conceder o discernimento necessário a vivermos vidas cristãs autênticas que O honrem em todos os aspectos de nossas vidas.

Leitura adicional:

Michael S. Horton, O Cristão e a Cultura (S. Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998).
Don Richardson, O Fator Melquisedeque (S. Paulo: Edições Vida Nova, 1986).
Ricardo Gondim, É Proibido ( S. Paulo: Mundo Cristão, 1998).
John Fisher, What on the World Are we Doing? (Ann Arbor: Vine Books, 1996).

Textos Bíblicos Relevantes:
Gn 1.24-31 A cultura é o produto do domínio da criação.
Ex. 25:1-16 Deus utiliza o produto da cultura no seu tabernáculo.
1 Pe 3.10-18 O crente consciente e integrado na sociedade, faz o bem.
Cl 1:9-18 Cristo deve ter a preeminência em tudo em todas as culturas.
Cl 1.19-28 Cristo é a plenitude de Deus para todas as culturas.
Jo 14.1-4 e 17.14-23 Cidadãos dos céus, mas unidos no mundo para transformar.
1 Co 10.26-31 Tudo deve ser feito para a glória de Deus.

sábado, 5 de setembro de 2009

NÃO DESPERDICE SEU CÂNCER


JOHN PIPER: NÃO DESPERDICE SEU CÂNCER


Escrevo estas palavras na véspera da cirurgia do câncer na minha próstata. Creio no poder de Deus para curar - por meio de um milagre e da medicina. Sei que é certo e bom orar pelos dois tipos de cura. O câncer não é desperdiçado ao ser curado por Deus. O SENHOR recebe a glória! Então, não orar pela cura pode desperdiçar seu câncer. Mas a cura não é o plano de Deus para todos. E existem muitas outras formas de desperdiçar seu câncer. Estou orando por mim e por você - para que não desperdicemos esta dor.



1. Você desperdiçará seu câncer caso não creia que isto foi planejado por Deus.

Não diga que Deus apenas usa nosso câncer, mas que não o planeja. O que Deus permite, Ele o faz por uma razão. E esta razão é a Sua vontade. Se Deus prevê desenvolvimentos moleculares tornando-se cancerígenos, Ele pode deter isto ou não. Se não, Ele tem um propósito. Por ser infinitamente sábio, é correto chamar este propósito de plano. Satanás é real e causa muitos prazeres e dores. Mas ele não é a causa última. Assim, quando ele atacou Jó com úlceras (Jó 2:7), Jó atribuiu-as a Deus (2:10), e o escritor inspirado concorda: "e o consolaram de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado" (Jó 42:11). Se você não crê que seu câncer lhe foi planejado por Deus, você o desperdiçará.


2. Você desperdiçará seu câncer caso creia que ele é uma maldição , e não uma bênção.

"Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1). "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós" (Gálatas 3:13). "Contra Jacó, pois, não há encantamento , nem adivinhação contra Israel" ( Números 23:23). "Porquanto o Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dará graça e glória; não negará bem algum aos que andam na retidão." (Salmos 84:11).


3. Você desperdiçará seu câncer caso procure conforto em suas chances em vez de procurá-lo em Deus.

O plano de Deus em relação ao seu câncer não é treiná-lo no cálculo de chances racionalistas. O mundo arranja conforto em estatísticas . Nós, não . Alguns contam com seus carros (porcentagens de sobrevivência) e outros contam com seus cavalos (efeitos colaterais do tratamento), mas nós confiamos no nome do Senhor, nosso Deus (Salmos 20:7). O plano de Deus é claro em 2 Coríntios 1:9: "portanto já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos". O objetivo de Deus relativo ao seu câncer (entre várias outras coisas boas) é derrotar a autoconfiança em nosso coração para podermos descansar completamente nEle.


4. Você desperdiçará seu câncer caso se recuse a pensar na morte.

Todos nós morreremos caso Jesus não retorne em nossos dias. Não pensar sobre como seria deixar esta vida e encontrar Deus é tolice. Eclesiastes 7:2 diz: "Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens , e os vivos o aplicam ao seu coração". Como você pode aplicar esta verdade ao seu coração se não pensa nela? Salmos 90:12 diz: "Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios". Contar seus dias significa pensar sobre quão poucos eles são e que terminarão. Como você conseguirá um coração sábio se você se recusa a pensar nisto?



5. Você desperdiçará seu câncer caso pense que "vencê-lo" significa sobreviver e não aproximar-se de Cristo.
Os planos de Deus e os planos de Satanás para seu câncer não são os mesmos. Satanás deseja destruir seu amor por Cristo. Deus planeja aprofundá-lo. O câncer não vencerá se você morrer, apenas se falhar em aproximar-se de Cristo. O plano de Deus é privá-lo do alimento do mundo e satisfazê-lo com a suficiência de Cristo. Isto tem o objetivo de ajudá-lo a sentir: "tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor". E saber que "o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Filipenses 3:8; 1:21).


6. Você desperdiçará seu câncer caso gaste muito tempo lendo sobre o câncer e não o suficiente a respeito de Deus.

Não é errado ler sobre o câncer . Mas, o desejo de saber mais sobre a doença e a falta de zelo pelo contínuo conhecimento de Deus é sintomático no incrédulo. O alvo da dor é acordar-nos para Deus, colocar sensações e força no mandamento "Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor" (Oséias 6:3), acordar-nos para a verdade de Daniel 11:32 : "O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte, e fará proezas", tornar-nos carvalhos indestrutíveis e firmes : "antes tem seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e noite... (leiamos o Salmo 1). Que desperdício lermos dia e noite sobre o câncer e nada a respeito de nosso bom Deus.


7. Você desperdiçará seu câncer caso se isole em vez de aprofundar seus relacionamentos.

Quando Epafrodito trouxe ofertas enviadas pela igreja de Filipos para Paulo, ele ficou doente e quase morreu. Paulo diz aos filipenses: "porquanto ele tinha saudades de vós todos, e estava angustiado por terdes ouvido que estivera doente" (Filipenes 2:26). Não diz que estavam angustiados porque Epafrodito estava doente , mas que ele estava porque os irmãos ouviram que ele estava doente. Este é o tipo de coração que Deus pretende criar com o câncer: afetivo e preocupado com as pessoas. Não desperdice seu câncer voltando-se para si mesmo.


8. Você desperdiçará seu câncer caso se entristeça como quem não tem esperança.

Paulo usa esta expressão para designar pessoas cujos entes queridos haviam morrido: "Não queremos, irmãos , que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais como os outros que não têm esperança" (1Tessalonicenses 4:13). Existe tristeza na morte. Mesmo para o crente que morre, há uma perda temporária - a perda do corpo, de entes queridos e do ministério terreno. Mas a tristeza é diferente - é permeada pela esperança – leiamos 2 Coríntios 5:8. Não desperdice seu câncer ficando triste como quem não tem esperança.

9. Você desperdiçará seu câncer caso trate o pecado tão normalmente quanto antes.

Seus pecados freqüentes permanecem tão atrativos quanto antes de você ter câncer? Se a resposta for afirmativa, então você está desperdiçando seu câncer. O câncer foi planejado para destruir o seu apetite pelo pecado. Orgulho, ganância, luxúria, ódio, falta de perdão, impaciência, preguiça, procrastinação - todos estes são adversários que o câncer deve atacar. Não pense apenas em lutar contra o câncer. Pense também em usá-lo. Todas estas coisas são piores que o câncer. Não desperdice o poder do câncer para esmagar estes adversários. Deixe a presença da eternidade tornar os pecados temporais tão fúteis como eles realmente são. "Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?" (Lucas 9:25).

10. Você desperdiçará seu câncer caso falhe em utilizá-lo como meio de testemunhar a verdade e a glória de Cristo.

Os cristãos nunca se encontram em determinado lugar por acidente. Existem razões para as quais somos levados onde estamos. Considere o que Jesus diz sobre circunstâncias inesperadas e dolorosas: "Mas antes de todas essas coisas vos hão de prender e perseguir, entregando-vos às
sinagogas e aos cárceres, e conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Isso vos acontecerá para que deis testemunho" (Lucas 21:12-13). Assim também é com o câncer. Essa será uma oportunidade para testemunhar. Cristo é infinitamente digno. Aqui está uma
oportunidade de ouro para mostrar que Jesus vale mais que a vida. Não a desperdice.

Lembre-se de que você não foi deixado sozinho; terá a ajuda necessária: "Meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo as suas riquezas na glória em Cristo Jesus" (Filipenses 4:19).

John Piper