sábado, 20 de junho de 2009

SANTO SEXO


SANTO SEXO

Pr. Walter Santos Baptista

"Que o marido cumpra os seus deveres a mulher e, do mesmo modo, a mulher para com o marido. Não é a mulher que é dona do seu próprio corpo, mas sim o marido. De igual modo, não é o marido que é dono do seu próprio corpo, mas sim o marido. Não se privem um do outro, a não ser de comum acordo e para se dedicarem durante algum tempo à oração. Depois, voltem outra vez à vossa vida conjugal, para que Satanás vos não faça cair na tentação, por não se saberem dominar" (1Co 7.3-5)

São necessidades básicas do ser humano entre outras: alimentar-se quando tiver fome, beber quando tiver sede, ar quando a respiração fica difícil, descansar quando fatigado, dormir quando com sono, abrigar-se do frio ou do calor, livrar-se da dor, fugir quando for ameaçado e satisfazer o instinto sexual.

Tem-se criado uma verdadeira arte para se satisfazer a fome: a gastronomia; sofisticam-se os anestésicos para o alívio da dor; que se dirá dos confortos térmicos? E com respeito à sexualidade, que se diz? Que ensino é repassado acerca deste fato?

Escapa à imaginação o que já se pensou e ensinou sobre esse tema. Graciano, monge italiano que viveu no final do século 11, pregava que o Espírito Santo saía do quarto quando o casal praticava o ato sexual.

Quanto à abstinência do sexo, era ensinado:

Abstinência nos dias santos;
E em certos dias úteis, como:
Na quinta-feira porque Jesus fora preso numa quinta-feira;
Em respeito à crucificação, não se podia ter relações nas sextas-feiras;
Não no sábado, porque tradicionalmente é o dia dedicado a Virgem Maria;
Naturalmente, no domingo também não seria possível, porque Jesus ressuscitou num domingo;
Nem na segunda-feira em respeito aos falecidos.
Sobravam a terça e a quarta-feiras.
A Reforma Protestante do século 16 desenvolveu uma Teologia da Sexualidade, observando que o homem e a mulher têm necessidades de ordem sexual a nível físico, emocional e espiritual. A ignorância, a desinformação e a má orientação das idéias, no entanto, foram tamanhas que em algumas comunidades cristãs havia senhoras idosas que eram verdadeiras "evangelistas da frigidez", visitando as noivas antes do casamento para informá-las acerca do que se chamava "os fatos da vida", bem como que o ato sexual era do casamento a parte mais desagradável e detestável. Entretanto, diziam, todas as esposas tinham que se conformar com tal situação. Com esse tipo de iniciação, que moça poderia esperar alegria na vida conjugal?





OS QUATRO AMORES

Os gregos têm uma variedade de palavras para o que traduzimos como "amor": Philia, Storge, Eros e Agape.


Philia é o amor social, amor de amigo, de afinidade, patriótico, cívico. É a necessidade de compartilhar algo com alguém. Envolve afeição, e é o que chamamos "amizade".


Storge é o amor familiar, amor natural de pai para os filhos, do tio para o sobrinho, e vice-versa. Envolve reciprocidade e homogeneidade.


Eros é o amor biológico, físico, sensorial, hormonal, visceral, sensual. É o amor que é atraído pelo charme, beleza, elegância, graça, delicadeza, pelas formas. É boa palavra e define bem o aspecto das diferenças sexuais. O Eros atrai o homem para a mulher e a mulher para o homem. Fora disso é perversão: homem + homem, mulher + mulher, desvios que recebem o nome dehomossexualismo; adulto + criança é pederastia ou pedofilia; ser humano + animal tem o nome de bestialismo. Todas essas perversões encontram reprovação na Escritura Sagrada: Levítico 18.22,23; 20.13,15,16. Eros é o instinto sexual. Paulo apresenta os reclamos do Eros em 1Coríntios 7.2-5 e 1Tessalonicenses 4.3-8.


Agape é o amor que pode salvar o eros da perversão porque o transforma e dá ao amor humano e biológico sua verdadeira dimensão no santo sexo. É o amor como o de Deus, o amor-que-se-dá, o amor-sacrifício, o amor-entrega, o amor eterno, imutável e perfeito. Está nos lábios de Jesus em João 3.16; Paulo o cita em Romanos 5.5; 1 Coríntios 13; e João, o Evangelista, o menciona em 1João 4.16,18. Jesus Cristo é o supremo exemplo de agape, entrega total para a salvação da esposa que é a Sua Igreja (cf. Ef 5.25-33).


Já dá para entender que a soma Storge + Agape é a fórmula ideal para o amor paterno, materno, fraternal, filial e familiar.


E Eros + Ágape, por sua vez, é a receita perfeita para o santo sexo, o casamento do cristão.





UMA TEOLOGIA DA SEXUALIDADE


Uma coisa é o que os médicos, os sexólogos, os psicólogos, os psicanalistas e os terapeutas de casal pensam do sexo. Outra é o que Deus pensa (cf. Gn 1.31).


Muita gente não diz que o corpo veio do Diabo, mas acha que o sexo é mau, sujo e indigno dos filhos de Deus. Olha o exemplo do monge Graciano... Realmente, a sexualidade nunca foi suja e mundana na visão da Bíblia (cf. Ec 9.9). No projeto do reino de Deus, o sexo é expressão da vontade do Pai Celeste.


Gênesis 1.27,28 mostra indivíduos perfeitos, sadios, criados à imagem de Deus, e seus corpos incluem a sexualidade e a capacidade de se reproduzirem, bem como a ordem direta para fazê-lo. De fato, sendo cada ser humano uma imagem criadora, um reflexo do Deus Criador, apresenta no sexo bem praticado, no santo sexo, esse dom de um Deus que ama, cria, recria e faz criar. Os crentes em Jesus Cristo, aliás, devemos ser os mais inteligentes, melhores e mais criativos amantes porque, por trás de tudo os outros seres humanos têm, temos a unção do Agape de Deus.


Pois é; em Gênesis 1.31 "viu Deus que tudo era bom", mas o produto final no seu teste de qualidade deu como resultado"Aprovado! Muito Bom!", porque a masculinidade e a feminilidade são ótimas!


Gênesis 2.24,25 mencionam a expressão "uma só carne" (basar no hebraico; sarx no grego). Entre outros sentidos, basar é a totalidade da pessoa humana (cf. Sl 16.9); sarx é o "corpo" como em 2Coríntios 12.7; Filipenses 1.24 e Gálatas 4.13,14. "Uma só carne" é, assim, união de corpos e de naturezas daqueles que formam o casal.


O ato sexual não é só uma função biológica, é, igualmente, de fundo espiritual (1Coríntios 6.16). Une-se o soma (corpo), com asarx (o mais humano em nós). Por esse motivo, o adúltero peca contra o ser-que-se-forma-no-casamento (1Co 6.18) e viola o seu destino que é glorificar a Deus (vv. 20; cf. v. 13).


Na realidade, a Escritura exalta a felicidade sexual (cf. Pv 5.15-19; Ec 9.7,9; Ct 6.6-12). É o erotismo no contexto do santo sexo, do casamento dos filhos de Deus. 1Coríntios 7.2-5 é, sem dúvida, a mais clara passagem sobre o assunto. Dela, três idéias podem ser extraídas:

Os santos têm necessidades sexuais idênticas e definidas. Sexo não é prerrogativa do homem, sendo a sua parceira apenas submissa, passiva , acomodada e silenciosa. Isso viola a natureza, pois, ao contrário do que muitos podem pensar, 1Coríntios 7.3a faz a esposa valer seus direitos.
A responsabilidade do marido é satisfazer as necessidades emocionais, sexuais e espirituais da sua santa esposa, e vice-versa. É uma experiência solidária.
A satisfação das necessidades sexuais dos santos não entra em conflito com a piedade da vida espiritual. Pelo contrário, vida sexual equilibrada é boa mordomia. Paulo fala, mesmo, em oração no seu comentário sobre esse importante tema (cf. v.5).
É recomendável e altamente conveniente ver com os olhos do outro, pensar com a cabeça do outro. O marido precisa entender o que se passa no coração, cabeça e corpo da sua mulher quanto ao sexo, e ela, por seu lado, necessita compreender que significado tem o sexo para seu esposo. Mulheres que se queixam de que os maridos só pensam em sexo, muitas vezes espelham problemas como a não apreciação das relações, ou a não compreensão das necessidades de seu santo, ou, ainda, a preocupação mais com elas mesmas que com o bem-estar do casal.


Vamos entender: o ato sexual é importante porque satisfaz o instinto do marido. Deus o colocou em nós, portanto pecado não pode ser. O instinto sexual no homem é constante, o que significa que ele não precisa de muito estímulo para ficar preparado.


É importante porque satisfaz o senso de feminilidade da esposa. Nos primeiros dias de casada apresenta-se a insegurança, mas agora isso passou, o ritmo da vida, inclusive o sexual, já é normal ou relativamente normal. Mas é preciso entender o coração da mulher que quer ser amada, vista e sentida como mulher. De fato, as mulheres mais frustradas do mundo são as que abafam sua feminilidade, o que não pode acontecer com uma santa filha de Deus. Uma esposa vai além de mãe e dona de casa: é parceira sexual do marido. Se o ato conjugal não for bom para ela, será muito difícil ter sucesso como mãe e dona de casa.


É importante o ato sexual para o marido porque faz aumentar o amor pela esposa, reduz as tensões no lar e proporciona uma experiência emocional sem par.


Para sua esposa dá segurança quanto ao amor do companheiro: amor de companhia, de compaixão e de romance.


E ainda: satisfaz o instinto sexual da santa, que é diferente do instinto sexual do homem. A imagem do fogão a gás e do fogão a lenha para descrever a prontidão do homem e da mulher para o sexo é corriqueira porém verdadeira: a lenha (às vezes verde) demora a pegar fogo, mas quando queima...


Sexo e reprodução foram ordenados por Deus, e nada têm de pecaminoso (cf. Gn 1.28). Mas o ato sexual tem se tornado um martírio, um tormento para algumas pessoas. Por quê? Ora, o casamento (e o conseqüente ato sexual) são aprovados pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo. O Pai o estabelece em Gênesis 1.28; o Filho dele fala em Mateus 19.5, e o Espírito Santo pela inspiração de Hebreus 13.4, texto que fala com extrema clareza do santo sexo, pois que a palavra "leito" que nele aparece é em grego koite, da mesma raiz da palavra latina coitus, descritiva do ato sexual.


A Bíblia condena, no entanto, o abuso sexual, chamando-o de "fornicação" (sexo entre solteiros) e "adultério" (sexo pago). Deus criou a sexualidade e colocou os instintos em nós, não para nossa tortura, mas para a satisfação do casal em santo sexo e senso de realização. Como é significativo o uso da palavra "conhecer" ( yada em hebraico) para designar o ato sexual (cf. Gn 4.1; Mt 1.25). O ato sexual é o conhecimento mais íntimo que se pode ter de uma pessoa. Mas é um ato santo, reservado, por ser conhecimento sagrado, pessoal, íntimo. O Cântico dos Cânticos é incrivelmente franco sobre o assunto (cf. 2.3-17; 4.1-7).


Provérbios 5.18 fala de prazer total, e não só para reprodução. Por outro lado, Deus não planejou um sexo pervertido, barateado, comercializado com vem acontecendo em outros arraiais. Deus planejou um santo sexo que fica bom com o tempo, com o casal mais amadurecido no amor e nas artes amorosas.





DIFICULDADES SEXUAIS


Conflitos sexuais são criados por mil e duas razões. Reservamo-nos algumas poucas:

Problemas no namoro e no noivado trazidos para o casamento. Os antigos já diziam que "o que começa errado termina errado".
Conflitos na lua-de-mel. Ou será na "lua-de-fel"? Uma senhora que teve péssima experiência na lua-de-mel com um marido vinte anos mais velho dizia que "o casamento é a legalização do estupro".
Traumas de infância. A esposa evita carícias, tem horror até em pensar, o ato sexual é um martírio. Aliás, convém lembrar que ninguém está só, mas talvez seja necessário buscar ajuda profissional de um médico ou terapeuta de casal.
Sexo sem amor O amor é uma atitude mental, e o sexo é uma entre muitas expressões dessa atitude mental. Sexo sem amor equivale a uma vida de miséria.
Falha em bem aproveitar os jogos amorosos. É falta de sabedoria não preparar a esposa para o ato conseqüente.
Coisas de que um não gosta no outro. Idéias, hábitos, sentimentos de competição. E quando o marido chega, e encontra em vez da esposa, um espantalho? Rolinhos no cabelo, desarrumada pensando que com isso sensibiliza o marido? Pouca higiene, falta de asseio adequado. Cuidado com os odores, meus santos! Uma coisa é o cheiro do corpo masculino ou feminino estimulantes das funções sexuais, outra é cheiro de suor e mau hálito. Dentro de certos parâmetros o odor pode ser um estimulante sexual, qualquer sexólogo ou terapeuta o reconhece e pode informar.
Conflitos em outras áreas: diferença acentuada de idade ou de nível acadêmico; comparações com a mãe, com o pai, com o irmão, etc.
Pense mais em qualidade que em quantidade de relações sexuais; pense em integralidade do sexo, e, sobretudo, que o amor é uma extraordinária fonte de poder nas adversidades e dificuldades da vida.


Sem receio de ser mal-compreendido, a experiência do ato sexual, do santo sexo discreto, reservado e exclusivo, pode ser comparada à da oração em Mateus 6.6:

"Entra no teu quarto, fecha a porta..." Resultado: "...te recompensará".

A transmissão do Antigo Testamento a você


É provavel que possua na sua própria língua um exemplar do Antigo Testamento, também chamado de Escrituras Hebraicas. Esta parte hebraica da Bíblia Sagrada contém alguns capítulos e versículos isolados escritos em aramaico. A escrita das Escrituras Hebraicas (AT) foi terminada há mais de 2.400 anos.

Pode ter a certeza de que seu exemplar das Escrituras Hebraicas representa aquilo que foi escrito originalmente? Alguns acham que milhares de anos de copiar e recopiar certamente devem ter obscurecido o texto das línguas originais, além de qualquer reconhecimento. Mas aconteceu isto realmente? É interessante considerar algumas informações básicas sobre como estes escritos foram transmitidos através dos séculos.

Desde o começo da escrita da Bíblia, houve empenho em preservar a Palavra de Deus. As Escrituras declaram que Moisés ordenou aos levitas que preservassem “este livro da lei” em benefício das gerações subsequentes. (Deu. 31:25, 26) Deus ordenou aos reis de Israel que fizessem para si “uma cópia desta lei”, quando assumissem o trono. — Deu. 17:18.

Mais tarde, surgiu uma necessidade especial de cópias das Escrituras Hebraicas, no tempo de Esdras, um sacerdote que, junto com outros judeus, subiu de Babilônia para Jerusalém, no sétimo ano do rei persa Artaxerxes (468 A. E. C). (Esd. 7:1-7) Milhares de judeus haviam decidido permanecer em Babilônia e outros haviam sido espalhados, por causa de migrações e por motivos comerciais. Em diversos lugares surgiram salões locais de assembléia, conhecidos como sinagogas, e, para elas, os escribas precisavam fazer, à mão, cópias dos manuscritos bíblicos. O próprio Esdras é identificado como “copista destro da lei de Moisés” e como “copista das palavras dos mandamentos de Jeová e dos seus regulamentos para com Israel”. — Esd. 7:6, 11.

I. O TRABALHO DOS “SOFERINS”

A partir dos dias de Esdras, e por uns mil anos, os copistas das Escrituras Hebraicas eram conhecidos como “soferins”. Uma antiguíssima tradição rabínica relaciona este título com o verbo hebraico (safar) que significa “contar”, dizendo: “Os primitivos eruditos eram chamados Sof’rim, porque contavam todas as letras na Tora”, quer dizer, no Pentateuco, ou nos primeiros cinco livros da Bíblia. Tal empenho meticuloso assegurou alto grau de exatidão na transmissão das Escrituras Hebraicas.

É claro que séculos de produção de cópias resultaram, naturalmente, em que alguns erros se introduzissem no texto bíblico, hebraico. Há evidência de que os soferins até mesmo fizeram algumas poucas mudanças intencionais. Por exemplo, copistas muito posteriores na história alistam 134 lugares onde os soferins mudaram o texto original hebraico para rezar Adonai [“Senhor”] em vez de o nome pessoal de Deus, IHVH [“Jeová ou Javé”]. Felizmente, porém, estes escribas indicaram onde fizeram as mudanças, de modo que eruditos subsequentes soubessem o que o texto dizia originalmente.

De acordo com a tradição judaica, antes da destruição do templo da adoração de Deus em Jerusalém, em 70 E. C., fizeram-se esforços estrênuos de voltar ao que o texto bíblico hebraico dizia originalmente. Sobre isso escreve Robert Gordis em O Texto Bíblico na Produção (em inglês): “Os guardiães do texto bíblico encontraram um manuscrito antigo, meticulosamente escrito, e constituíram-no em base para o seu trabalho. Tomaram-no como arquétipo, do qual se deviam fazer todas as cópias oficiais e segundo o qual todos os manuscritos em mãos particulares podiam ser corrigidos daí em diante.”

A literatura rabínica menciona uma cópia hebraica do Pentateuco conhecida como o “Rolo dos recintos do Templo”, que servia de modelo para a revisão das novas cópias. Faz-se também menção de “corretores de livros bíblicos em Jerusalém”, que recebiam seu salário do tesouro do Templo.

II. O TEXTO “MASSORÉTICO”

Originalmente, os manuscritos da Bíblia hebraica foram escritos apenas com consoantes. O alfabeto hebraico não possui letras vocálicas, tais como as nossas a, e, i, o, u. Mas, se olhar hoje para uma Bíblia hebraica impressa, notará que acima, abaixo ou no meio de cada palavra há pontos, traços e outros sinais. Por que foram estes acrescentados ao texto das Escrituras Hebraicas? Porque as palavras hebraicas escritas apenas com consoantes muitas vezes podem ser pronunciadas de várias maneiras diferentes, com variações de sentido. Os pontos vocálicos e os acentos servem para proteger a pronúncia tradicional de cada palavra.

Os pontos vocálicos e os acentos são a obra de copistas especialmente peritos, que viviam durante o sexto e até o décimo século E. C. Estes escribas vieram a ser conhecidos como baalei ha-masoreth (“senhores da tradição”) ou “massoretas”. O texto hebraico com pontuação vocálica, portanto, é chamado texto “massorético”.

Os massoretas não mudavam nada quando copiavam os manuscritos da Bíblia hebraica. Examinavam todas as formas incomuns de palavras, fazendo anotações sobre elas nas margens dos manuscritos massoréticos. Estas notas são chamadas “massorá”. Um método muito abreviado de anotações, conhecido como a “pequena massorá”, aparece nas margens, ao lado do texto da Bíblia hebraica. As margens no alto e ao pé das páginas contêm a “grande massorá”, que suplementa a pequena massorá. No fim de alguns manuscritos massoréticos encontra-se uma “massorá final”, parecida a uma concordância.

Tais anotações revelam que os massoretas haviam acumulado enorme quantidade de informações para a preservação fiel do texto bíblico. Segundo Robert Gordis, “contavam as letras da Escritura, determinavam a letra central e o versículo central da Tora [Pentateuco], fixavam a letra central da Bíblia como um todo, compilavam listas extensas de formas bíblicas raras e únicas, alistavam o número de ocorrências de milhares de palavras e usos bíblicos — tudo para ajudar a protegê-la contra alterações e impedir que escribas introduzissem mudanças no texto aceito.”

Por exemplo, a pequena massorá observa que a primeira palavra de Gênesis, bereshith (muitas vezes traduzida: “No princípio”), ocorre cinco vezes na Bíblia, três vezes no começo dum versículo. Muitas palavras, em quase cada página dos manuscritos bíblicos massoréticos, são marcadas na margem pela letra hebraica lamedh (ל). Esta letra (equivalente ao nosso “l”) é uma abreviatura da palavra leit, que é aramaica para “não há nenhuma”. Indica que a expressão, assim como aparece naquele ponto, não ocorre em nenhum outro lugar. Sobre a massorá, Ernst Würthwein observa em O Texto do Antigo Testamento (em inglês):

“Muitas vezes, tais anotações massoréticas nos parecem forçadas, frívolas e sem finalidade. Mas, precisamos lembrar-nos de que são o resultado do desejo apaixonado de proteger o texto e de impedir erros deliberados ou descuidados do escriba, . . . A massorá dá testemunho da revisão extremamente precisa do texto, que merece nosso respeito, embora sempre haja o perigo de que no cuidado com a letra do texto seu espírito tenha sido despercebido.”

III. A EXATIDÃO É CONFIRMADA PELOS ROLOS DO MAR MORTO

Pesquisas feitas na região do Mar Morto encontraram numerosos rolos hebraicos, escritos antes do começo da Era Comum. Muitos deles contêm partes das Escrituras Hebraicas. Como se comparam eles com os manuscritos massoréticos, produzidos uns mil e tantos anos mais tarde?

Num estudo, examinou-se o capítulo cinquenta e três de Isaías, tanto no Rolo de Isaías do Mar Morto, copiado por volta de 100 A. E. C., como no texto massorético. Norman L. Geisler e William E. Nix apresentam os resultados deste estudo em Uma Introdução Bíblica:

“Dentre as 166 palavras em Isaías 53, há apenas dezessete letras em dúvida. Dez destas letras simplesmente são questão de grafia, que não afeta o sentido. Mais quatro letras são mudanças estilísticas menores, tais como conjunções. As remanescentes três letras abrangem a palavra ‘luz’, que é acrescentada ao versículo 11, e não afeta muito o significado. . . . Assim, em um só capítulo de 166 palavras, há apenas uma palavra (três letras) em dúvida, depois de mil anos de transmissão — e esta palavra não altera significativamente o sentido da passagem.”

Outra publicação observa que este rolo é uma cópia adicional de partes de Isaías encontrada perto do Mar Morto, “mostraram ser palavra por palavra idênticos à nossa Bíblia hebraica comum, em mais de 95% do texto. Os 5% de variação consistem principalmente em lapsos óbvios da pena e em variações de grafia”.

Portanto, quando lê o Antigo Testamento, ou as Escrituras Hebraicas, pode confiar em que a sua Bíblia se baseia num texto hebraico que transmite com exatidão os pensamentos dos escritores inspirados de Deus. (2 Tim. 3:16) Milhares de anos de produção profissional, meticulosa, de cópias asseguram o que Deus predisse há muito: “Secou-se a erva verde, murchou a flor, mas, quanto à palavra de nosso Deus, ela durará por tempo indefinido.” — Isa. 40:8.

A Palavra de Deus — evidências de autenticidade



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A Palavra de Deus — evidências de autenticidade


Certo ou errado? — A Bíblia atravessou as eras sem nenhuma alteração.

Certo ou errado? — Os milhares de variações nos manuscritos bíblicos enfraquecem a sua afirmação de que seja a Palavra de Deus.

Antes de responder a essas perguntas, considere alguns dados, apresentados na Exposição “A Palavra de Deus” realizada na Biblioteca Chester Beatty, em Dublim, Irlanda.

As páginas corroídas e fragmentadas de papiro estão-se desgastando pelo tempo. Todavia, os papiros Chester Beatty são os mais preciosos manuscritos na biblioteca. Foram escavados de um cemitério cóptico (egípcio) por volta do ano de 1930. “[Foi] uma descoberta”, disse Sir Frederic Kenyon, “que se rivaliza apenas com a do Códice Sinaítico”.

Essas páginas manuscritas de papiro, em forma de códice, foram copiadas no segundo, terceiro e quarto séculos de nossa Era Comum. “Alguns”, disse Wilfrid Lockwood, o bibliotecário, “podem muito bem ter sido copiados dentro dum período de cem anos desde a composição do original”. (O grifo é nosso.) Um dos códices contém os quatro Evangelhos e o livro de Atos. Outro contém a maioria das cartas do apóstolo Paulo, incluindo a sua carta aos hebreus.

Copiar manuscritos assim era tedioso e cansativo, e sujeito a erros. Era fácil ler erroneamente uma letra ou pular uma linha, por mais cuidadoso que o copista fosse.

Às vezes o copista estava mais interessado em obter a essência e o significado do original do que nas palavras exatas. Ao se recopiarem as cópias, os enganos eram perpetuados. Peritos em texto agruparam em famílias os manuscritos que continham variações similares. Esses papiros Chester Beatty, os mais antigos manuscritos substanciais da Bíblia grega que existe, deram aos peritos uma inesperada nova visão das coisas, visto que não se enquadravam em nenhuma das famílias estabelecidas.


Antes dos dias de Jesus, e especialmente após a destruição de Jerusalém (607 AEC) e a subsequente dispersão dos judeus, fizeram-se muitas cópias manuscritas das sagradas Escrituras Hebraicas. Por volta de 100 EC, autoridades judaicas usaram tais cópias para oficializar um texto hebraico aceito pelos judeus ortodoxos.

Eles também estabeleceram regras precisas para tentar garantir a cópia exata do texto. Especificaram que materiais poderiam ser usados e até mesmo o tamanho e o espacejamento das letras, palavras, linhas e colunas. “Nenhuma palavra ou letra, nem mesmo um iode [a menor letra no alfabeto hebraico], deve ser escrita de cor”, disseram. Assim, os copistas produziram rolos tais como o Torá (ensino), que abrangia os primeiros cinco livros da Bíblia e o livro de Ester. Tais manuscritos do texto hebraico, dizia o catálogo da exposição, “exibem um impressionante grau de uniformidade”.

Quão sérios eram os erros que se infiltraram tanto nos manuscritos hebraicos como nos gregos cristãos? “Deve-se salientar”, disse o Sr. Lockwood, “que as divergências entre os manuscritos da Bíblia são superficiais em comparação com os encontrados nos manuscritos da literatura pagã . . . Em nenhum caso qualquer ponto da doutrina cristã é afetado pela alteração de escribas”. — O grifo é nosso.

Os livros da Bíblia de antes e de depois dos dias de Jesus foram traduzidos para outras línguas. Uma das versões mais antigas é o Pentateuco Samaritano. Os samaritanos eram um povo que ocupava o território do reino das dez tribos de Israel depois que o rei da Assíria levou os israelitas ao exílio (740 AEC). Eles adotaram algumas particularidades da adoração judaica e aceitavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia, o Pentateuco. O texto samaritano desses livros, escrito em forma de antiga escrita hebraica, tem 6.000 variações do texto hebraico. “A maioria”, dizia o catálogo da exposição, “são de pouca importância para o texto, embora de interesse na medida em que preservam particularidades da antiga pronúncia ou gramática”.

No terceiro século AEC, os peritos judeus em Alexandria, Egito, produziram a versão grega Septuaginta das Escrituras Hebraicas, que passou a ser usada pelos judeus de língua grega em todo o mundo. Com o tempo os judeus deixaram de usá-la, mas tornou-se a Bíblia da primitiva congregação cristã. Quando os escritores bíblicos cristãos citaram das sagradas Escrituras Hebraicas, eles usaram a Septuaginta. Os papiros Chester Beatty das Escrituras Hebraicas incluem 13 páginas do livro de Daniel na Septuaginta.

Versões posteriores da Bíblia foram produzidas em línguas como latim, cóptico, siríaco e armênio. Um exemplo na exposição era um códice de velino de uma versão cóptica duma parte da Bíblia do sexto ou do sétimo século EC. Como é que versões como estas ajudam os peritos bíblicos e os críticos textuais? Tais versões são em geral traduções mui literais dos manuscritos gregos que os tradutores usaram. “Se o texto grego usado pelo tradutor era bom”, explicou o Sr. Lockwood, “é evidente que a versão proverá importante ajuda na tarefa de recuperar as palavras originais do grego.

Uma amostra mui preciosa e ímpar dessa exposição na biblioteca é um comentário de um escritor sírio do quarto século, Efrém, sobre a Diatessarão, de Taciano. Por volta de 170 EC, Taciano compilou um relato harmonizado da vida e ministério de Jesus, usando extratos dos quatro Evangelhos (Diatessarão significa “através [dos] quatro”). Visto que nenhuma cópia sobreviveu, alguns críticos no último século debateram sobre se tal harmonia dos Evangelhos alguma vez realmente existiu. Tais críticos afirmavam que os próprios quatro Evangelhos não foram escritos antes da metade do segundo século.

Nos últimos cem anos, porém, a descoberta de traduções do Diatessarão em armênio e árabe obrigou os altos críticos a recuar. Daí, em 1956, Sir Chester Beatty obteve esse ímpar comentário do quinto/sexto século que contém longos extratos da obra original de Taciano. “Este certamente eliminou a noção de que os quatro Evangelhos não estavam em circulação naquela era”, disse o Sr. Lockwood.

A Exposição “A Palavra de Deus” foi um lembrete da abundância de material disponível a peritos bíblicos e críticos textuais. Deixemos que um desses peritos, Sir Frederic Kenyon, explique a importância de todos esses manuscritos bíblicos que têm sido descobertos e ao mesmo tempo responda às perguntas formuladas no início:

“Pode ser perturbador para alguns afastar-se da idéia de uma Bíblia que atravessou as eras sem alteração . . . No fim, é reanimador descobrir que o resultado geral de todas essas descobertas e de todos esses estudos é firmar a prova da autenticidade das Escrituras, e a convicção de que temos em mãos, em substancial integridade, a legítima Palavra de Deus.” (The Story of the Bible [A História da Bíblia], página 113.) — Salmo 119:105; 1 Pedro 1:25.

do http://bibliotecabiblica.blogspot.com/2009/06/palavra-de-deus-evidencias-de.html
Márcio Melânia

Espírito X Carne


Grego Bíblico: Espírito X Carne

Podemos separar alguns estudos interessantes nas palavras encontradas em Gálatas 5:16-17. As palavras que iremos estudar são “andar, espírito, desejo, contra, contrário, não pode”.

O cristão é exortado a andar em Espírito. A palavra “andar” é usada em um manuscrito grego no início da frase, “Eu estou em uma situação vergonhosa.” O escritor desta frase estava comentando sobre o tipo de vida que ele tinha, como ele estava conduzindo a si próprio. A forma no grego revela que ela é uma ordem para ser constantemente obedecida. “Estejais constantemente se comportando no Espírito.” A palavra “Espírito”, mencionada aqui é o Espírito Santo, que está no locativo da esfera, e que poderia ser traçado por um ponto dentro de um círculo. O ponto está dentro do círculo. A exortação é, portanto, “estar constantemente comportando-se na esfera do Espírito.” Isto é, determinar a cada pensamento, palavra e ação pela liderança do Espírito através da Palavra, cada pensamento criado, cada palavra falada, e obras feitas, em uma atitude de total dependência do Espírito Santo, “trazendo cativo todo pensamento à obediência em Cristo” (2 Cor. 10:5).

Se fizermos isso, temos a garantia e promessa de Deus que não iremos realizar a concupiscência da carne. A palavra “carne” aqui se refere à natureza decaída e depravada com a qual nós nascemos, mas cujo poder foi quebrado quando fomos salvos em Cristo. A palavra “concupiscência” mudou o seu significado. Hoje, ela se refere a um desejo imoral. Quando na Versão Autorizada foi traduzida, ela significava o que a palavra grega significava a partir da qual é traduzida, simplesmente um desejo. O desejo pode ser bom ou mau, de acordo com o contexto. A palavra no grego tem neste versículo uma preposição prefixada que intensifica o seu significado. Não é só um desejo, é uma ânsia desesperada. Mas como vamos determinar a nossa conduta por aquilo que o Espírito conduz que façamos, nos entregando diante da energia divina, que nos permite assim fazê-lo, temos a promessa de Deus que não iremos ceder ao pecado, e existe uma dupla negativa no grego, que reforça a negação, nós não iremos absolutamente cometer nem desejo carnal da natureza iníqua.

A explicação de como devemos nos livrar desses desejos e as ações é encontrada no versículo dezessete. A natureza decaída de luxúria contra o Espírito Santo. A mesma palavra para “concupiscência” é usada como no versículo anterior. A carne tem um forte desejo contra o Espírito. O termo “contra” é a partir de uma preposição grega que significa literalmente “para baixo”. A idéia é de uma derrota, supressão. Pode-se traduzir como: “A carne tem constantemente um forte desejo de suprimir o Espírito.” A obra do Espírito Santo no crente é duas, ou seja, arrancar o pecado da vida e produzir seu próprio fruto. A natureza decaída tem um forte desejo de suprimir o trabalho do Espírito Santo em nós. Mas o Espírito Santo tem um forte desejo também para suprimir a natureza decaída na sua tentativa de fazer com que o crente a obedeça em seus desejos pecaminosos. Eles são contrários um ao outro em suas respectivas naturezas. As palavras “um ao outro” é um pronome recíproco no grego. O Espírito e a carne são recíprocos no antagonismo que cada um tem para com o outro. A palavra “contrário”, fala de uma permanente atitude de oposição de um para com o outro, por parte tanto da carne como do Espírito. A imagem na palavra grega é de dois exércitos opostos, cada qual cavando trincheiras para fins de exploração da terra alheia, que tem uma trincheira para conduzir operações militares. Eles cavaram para si próprios em uma longa disputa.

Esta disputa está acontecendo todo o tempo no coração de cada filho de Deus. Prossegue até a morte do crente. O Espírito Santo é a divina disposição para a vitória sobre o pecado, “para que não possamos fazer as coisas que teríamos vontade de fazer.” A parte que o cristão deve desempenhar nesta trincheira na guerra é encontrada em nosso versículo anterior, ou seja, estar constantemente com a sua determinação em cada pensamento, palavra e ação pela liderança do Espírito, rendendo a Ele a energia para atuar em sua força. Toda a tradução podia ler: “Mas eu digo, estejais constantemente conduzindo-vos na esfera do Espírito, e não cumprireis os desejos da carne. Pois a carne tem constantemente um forte desejo de suprimir o Espírito, e o Espírito tem constantemente um forte desejo de suprimir a carne, e estas estão entrincheiradas em uma permanente atitude de oposição de um para com outro, para que não executeis as coisas que terias vontade de fazer.”

de: http://bibliotecabiblica.blogspot.com/2009/06/grego-biblico-espirito-x-carne.html

O Verdadeiro Conhecimento de Deus está na Bíblia.


O Verdadeiro Conhecimento de Deus está na Bíblia.

"Para que Alguém Possa Chegar a Deus, O Criador,
É Necessário Que Tenha A Escritura Por Guia e Mestra."
por: João Calvino

Portanto, se bem que o fulgor que se projeta aos olhos de todos, no céu e na terra, retire totalmente toda base para a ingratidão dos homens - e ainda que Deus, para envolver o gênero humano na mesma culpa, mostre a todos esboçada nas criaturas, sua Divina Majestade -, é necessário, contudo, além disso, acrescentar outro recurso melhor, que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Por isso, não foi em vão que Deus acrescentou a luz de Sua Palavra para fazer-Se conhecido para a salvação do homem. E considerou dignos deste privilégio a todos aqueles aos quais quis trazer, para perto de Si, mais aproximada e intimamente.

Ora, porque Deus via a mente de todos ser arrastada, de um lado para outro, por constante e imutável agitação - depois de escolher os judeus para Si, como povo especial -, cercou-os por todos os lados, para que não se extraviassem com os demais povos. E não é em vão que ele nos mantém, por meio do mesmo remédio, no puro conhecimento de Si próprio, porque, de outra forma, se desfariam bem rapidamente até mesmo os que parecem mais firmes do que os outros. É exatamente como acontece com pessoas idosas ou enfermas dos olhos, e a todos quantos sofre de visão embaraçada: se pusermos diante delas até mesmo um volume vistoso, ainda que reconheçam estar ali algo escrito, mal poderão, contudo, ajuntar duas palavras. Ajudadas, porém, com o auxílio de óculos, essas pessoas começarão a ler de maneira eficiente. Assim a Escritura, reunindo na nossa mente, o conhecimento de Deus - que, de outro modo, seria confuso fazendo desaparecer a escuridão -, mostra-nos, com clareza transparente, o Deus Verdadeiro.

Constitui, pois uma dádiva singular o fato de Deus - para instruir a igreja -, servir-Se não apenas de mestres mudos, mas, ainda, abrir sua boca sacrossanta para não simplesmente proclamar que se deve adorar a Deus, mas também, ao mesmo tempo, declarar que Ele é esse Deus a quem devemos adorar. E não ensina Ele meramente aos eleitos que devem obedecer a Deus, mas mostra-Se como Aquele a Quem eles devem obedecer. Este modo de agir Deus tem mantido para com sua igreja, desde o princípio, de modo que, afora essas evidências comuns, Ele aplicasse também a palavra que é a marca direta e segura para reconhecê-LO.

Nem é para se duvidar de que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas - em função deste recurso - tenham conseguido mais íntimo conhecimento de Deus, fato que, de certo modo, os destingue dos incrédulos. Não estou falando ainda da doutrina da fé, pela qual eles haviam sido iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que pudessem eles passar, da morte para a vida, foi necessário que eles conhecessem a Deus não apenas como Criador, mas também como Redentor, pois eles chegaram a conhecer a Deus desses dois modos, seguramente, através da Palavra.

Ora, pela ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual lhes foi dado compreender quem é Deus, por meio de Quem o mundo foi criado e é governado. Em seguida, acrescentou-se, depois, a outra modalidade de conhecimento, interior, porque só esse conhecimento vivifica as almas mortas e só por ele se conhece a Deus não apenas como Criador do universo, Autor e Árbitro único de todas as coisas que existem, mas também na Pessoa do Mediador, como Redentor. Contudo, porque não tratei ainda da queda do mundo e da corrupção da natureza, não apresento ainda, aqui, o remédio.

Devem lembrar-se, portanto, os leitores de que não farei ainda considerações a respeito do pacto, mediante o qual Deus adotou, para Si, os filhos de Abraão, mas tratarei ainda daquela parte da doutrina pela qual os fiéis sempre foram apropriadamente separados das pessoas profanas, por aquela doutrina se fundamenta em Cristo (e, por isso, deve ser abordada na seção Cristológica); Agora, entretanto, só focalizarei como se deve aprender, da Escritura, que Deus como Criador, se distingue - por meio de marcas seguras - de toda a inventada multidão de deuses. Oportunamente depois, a própria seqüência dos fatos conduzirá ao estudo da redenção. Embora devamos derivar muitos testemunhos do Novo Testamento, e outros testemunhos da lei e dos profetas - onde se faz clara referência a Cristo -, sabemos que todos estes testemunhos visam mostrar que Deus, o Artífice do universo, se torna patente na Escritura e nela também se ensina o que devemos pensar a respeito de Deus, para que não busquemos, por caminhos tortuosos, alguma divindade incerta.


A Bíblia é a Palavra de Deus Escrita

Quer Deus Se tenha feito conhecido, aos patriarcas, através de visões ou oráculos, quer tenha dado a conhecer - mediante a obra e ministério de homens -, aquilo que, depois, transmitiria a pósteros pelas próprias mãos, está fora de dúvida que Deus gravou, no coração deles, a firme certeza da doutrina, de modo que fossem convencidos de que procedia de Deus o que haviam aprendido. Por isso Deus, pela Sua Palavra, tornou a fé segura para sempre, fazendo-a superior a toda mera opinião. Finalmente para que em perpétua continuidade de doutrina, a verdade permanecesse no mundo, sobrevivendo a todos os séculos, quis Deus que esses mesmos oráculos - que deixou em depósito com os Patriarcas -, fossem registrados como em públicos instrumentos. Com este propósito foi promulgada a Lei, à qual se acrescentaram, depois, como intérpretes, os Profetas.

Ora, se bem que foi múltiplo o uso da lei - como se verá no lugar mais adequado -, na verdade, foi dada especialmente a Moisés e a todos os profetas (a responsabilidade de) ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, fato que levou Paulo a dizer que Cristo é o fim da Lei (Rm.10:4). Contudo, torno a afirmar que, além da apropriada doutrina da fé e do arrependimento - que apresenta Cristo como Mediador -, a Escritura adorna, com sinais e marcas inconfundíveis, o Deus Único e Verdadeiro como Criador e Governador do mundo, para que Ele não seja confundido com a espúria multidão de deuses.

Portanto, por mais que ao homem sério convenha levar em conta as obras de Deus - um vez que foi ele colocado no belíssimo teatro do mundo para ser espectador da obra divina -, contudo, para ele poder aproveitá-la melhor, precisa dar ouvido à Palavra. Por isso, não é de admirar que os que nasceram nas trevas endureçam, mais e mais, a sua sensibilidade, visto que muito poucos se submetem docilmente à Palavra de Deus, de maneira a respeitar os seus limites; ao contrário, antes se gloriam em sua presunção.

Mas, para que a verdadeira religião resplandeça em nós, é preciso que ela seja o ponto de partida da doutrina celeste, pois não pode provar se quer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, senão aquele que se tornar discípulo da Escritura. Pois o princípio do verdadeiro entendimento vem do fato de abraçar-mos, reverentemente, o Deus testifica de Si mesmo na Escritura. Da obediência à Palavra de Deus nascem não somente a fé consumada e completa, em todos os seus aspectos, mas também todo reto conhecimento de Deus. E neste aspecto, fora de toda dúvida, Deus, com singular providência, levou em conta os mortais em todos os tempos.


A Bíblia é o Único Escudo que Nos Protege do Erro

De fato, se refletirmos quão acentuado é a tendência da mente humana para esquecer a Deus, quão grande é a inclinação dos homens para com toda espécie de erro e quão pronunciado é o gosto deles para forjar, a cada instante, novas fantasiosas religiões, poderemos perceber como foi necessário a autenticação escrita da doutrina celeste, para que ela não desaparecesse pelo esquecimento, nem se desfizesse pelo erro, nem fosse corrompida pela petulância dos homens.

Deste modo, como está sobejamente demonstrado, Deus providenciou o auxilio de Sua Palavra para todos aqueles aquém quis instruir de maneira eficaz, pois sabia ser insuficiente a impressão de Sua Imagem na estrutura do universo. Portanto, se desejamos, com seriedade, contemplar a Deus de forma genuína, precisamos trilhar a reta vereda indicada na Sua Palavra.

Importa irmos à Palavra na qual, de modo vivo e real, Deus Se apresenta a nós em função de Suas obras, ao mesmo tempo em que essas mesmas obras são apreciadas, não sendo o nosso julgamento corrompido, mas de acordo com a norma da verdade eterna. Se nos desviarmos da Palavra, como ainda há pouco frisei, mesmo que nos esforcemos com grande empenho - pelo fato de a corrida ser fora da pista - jamais conseguiremos atingir a meta. Devemos pensar que o esplendor da face divina, que até mesmo o Apóstolo Paulo reconhece ser inacessível (I Tm.6:16), é para nós um labirinto emaranhado, no qual só podemos entrar se, através dele, formos guiados pelo fio da Palavra. Por isso, é preferível andar mancando, ao longo deste caminho a correr velozmente fora dele!

É por isso que, não poucas vezes, nos Salmos 93, 96, 97 e outros, ensinando que devemos tirar do mundo as superstições, para que floresça a religião pura, Davi representa a Deus como Aquele que reina, dando a entender, pelo termo reinar, não o poder de que Deus está investido e que exerce no governo universal da natureza, mas significando a doutrina pela qual reivindica, para Si, a legítima soberania, visto que jamais se pode arrancar os erros do coração humano, enquanto nele não se implantar o verdadeiro conhecimento de Deus.


A Revelação da Bíblia é Superior a Revelação da Criação

Por isso, onde o mesmo profeta afirma que os céus proclamam a glória de Deus, que o firmamento anuncia as obras das Suas mãos e que a regular seqüência dos dias e das noites apregoa a Sua majestade (Sl19:1-2), em seguida faz menção de Sua Palavra: "A Lei do Senhor" diz ele, "é perfeita e restaura as almas; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples; os mandamentos do Senhor são retos e alegram o coração; o preceito do Senhor é puro e ilumina os olhos" (Sl19:7-8). Ora, ainda que faça referência a outros usos da Lei, assinala ele, contudo, de modo geral, que Deus ainda que em vão convide a Si todos os povos, pela contemplação de Suas obras, oferece a Escritura como a única escola de Seus filhos.

Idêntica é a maneira como o Profeta fala no Sl.29, porque, depois de discursar a respeito da terrível voz de Deus - que sacode a terra com trovões, ventanias, chuvas, furacões e tempestades, fazendo tremer as montanhas e despedaçando os cedros - acrescenta, ao final, que no santuário de Deus se cantam louvores, visto que os incrédulos são surdos a todas as vozes de Deus, que ressoam nos ares! Da mesma maneira conclui ele outro Salmo, onde descreve as espantosas ondas do mar: "Confirmados foram os Teus testemunhos; a santidade é, para sempre, a formosura do Teu templo"(Sl.93:5). Daí vem também o que Cristo disse à mulher samaritana (Jo.4:22): que a gente dela e os outros povos adoravam o que desconheciam; que só os judeus prestavam culto ao Deus verdadeiro!

Ora, já que a mente humana, por causa da sua estupidez, não pode chegar até Deus, a menos que seja guiada e sustentada por Sua Sagrada Palavra, com exceção dos judeus (que eram guiados pela Palavra) todos os mortais - pelo fato de buscarem a Deus sem a Palavra -, tiveram de vagar na estultice e no erro!

Fonte: As Institutas da Religião Cristã - Livro I, Capítulo 6.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Escatologia


Escatologia Reformada

por

Autor Desconhecido

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I - ESCATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS
1.Escatologia Consistente
2.Escatologia Realizada

CAPÍTULO II - AMILENISMO AGOSTINIANO
1.Descrição e Origem
2.Apoio do Novo Testamento
3.As Duas Ressurreições
4.Profecias do Antigo Testamento

CAPÍTULO III - AMILENISMO CLÁSSICO
1.Descrição
2.Interpretação de Apocalipse

CAPÍTULO IV - PÓS-MILENISMO
1.Descrição
2.Origem
3.Apoio do Novo Testamento

CAPÍTULO V - PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO
1.Descrição
2.Interpretação de Gálatas 6:16

CAPÍTULO VI - PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA
1.Origem
2.Descrição
3.As Duas Ressurreições
3.1.A Ressurreição para a Vida
3.2.A Ressurreição para a Condenação
3.3.O Tempo das Ressurreições
3.4.OA palavra escatologia é formada de duas palavras gregas: escato (eschatos = último, fim) e logo (lógos = palavra, discussão, instrução, ensino, assunto, tema). Portanto escatologia é o estudo do fim ou o estudo das últimas coisas, ou ainda o estudo dos últimos dias. Programa da Ressurreição
4.Profecias do Antigo Testamento

INTRODUÇÃO



Várias passagens das Escrituras empregam a palavra eschatos juntamente com hmera (heméra = dia). Assim temos escath hmera (eschatê heméra = último dia), usado em Jo.6:39 e 7:37. A primeira ocorrência se refere ao último dia da ressurreição, um dia escatológico, enquanto que a segunda apenas faz alusão ao último dia da festa de casamento. Temos escatai hmerai (eschatais hemerais = últimos dias) em At.2:17; II Tm.3:1; Tg.5:3; e escatou twn hemerwn (eschatou tôn hemerôn = últimos dias) em Hb.1:2. Todas estas passagens aludem ao período de tempo entre a 1ª e a 2ª vindas de Jesus. Os últimos dias iniciaram-se com a 1ª vinda de Jesus que veio na "plenitude do tempo"(Gl.4:4), pois o tempo anterior da dispensação da lei já estava cumprido (Mc.1:15; Lc.16:16). Estamos vivendo os últimos dias. Esse período de tempo que a Bíblia chama de últimos dias, recebe ainda outras designações, tais como: "tempo aceitável... dia da salvação"(Is.49:8) ou "ano aceitável do Senhor"(Is.61:2a); "dispensação da plenitude dos tempos"(Ef.1:10) ou "dispensação da graça"(Ef.3:2)1 ou "dispensação do mistério"(Ef.3:9); "tempo da oportunidade", "tempo sobremodo oportuno", "dia da salvação"(IICo.6:2), "tempos oportunos" (IITm.2:6), "tempos devidos" (Tt.1:3); "hoje" (Hb.3:7,15;4:7,8); "fins dos séculos" (ICo.10:11); "última hora"(IJo.2:18).

Durante este período a Igreja tem a incumbência de proclamar o evangelho antes que venha o "grande e terrível dia do Senhor"(Ml.4:5), que porá fim aos últimos dias, para inaugurar o "dia da vingança do nosso Deus"(Is.61:2b).

A Bíblia é categórica em afirmar a existência de três dias (considerados como períodos) nos quais se deve fazer distinção quanto ao programa de Deus para cada um deles. O dia do homem é o dia da salvação, dia de oportunidade. O dia do Senhor e o dia de Cristo2 é dia do arrebatamento da Igreja e de tribulação para Israel, e de castigo para os gentios (conforme o pré-milenismo). O dia de Deus é o dia quando "os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão"(IIPe.3:12). Inicia-se no dia do juízo final, e talvez (conforme o amilenismo ou pós-milenismo), o dia do fim (ICo.15:24), quando "Deus será tudo em todos"(ICo.15:28).

O estudo da escatologia deve levar o crente a proclamar o dia do homem(a salvação), o dia do Senhor (a volta de Cristo)e o dia de Deus(após o juízo).Veja Jo.16:8; Hb.6:2. Se queremos conhecer as profeciais apenas para satisfazer nossa curiosidade, então estaremos nos aplicando aos estudo das Escrituras de uma forma que não agrada a Deus. Deve ser nosso objetivo discernir os tempos para que nossos espíritos se entreguem à mais nobre tarefa da qual fomos incumbidos: o anúncio da morte do Senhor, sua ressurreição e seu retorno à esta terra: "anunciais a morte do Senhor até que Ele venha"(ICo.11;26).

Estudando escatologia, veremos que muitas profecias se cumpriram, demonstração clara e evidente de que as demais profeciais hão de se cumprir, e portanto devemos proclamá-las com ardente fervor. Ouçamos, pois, a advertência do apóstolo: "E digo isto a vós outros que conheceis o tempo, que já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite e vem chegando o dia..."(Rm.13:11,12). Anunciemos o evangelho enquanto é dia (Jo.9:4), antes que venha o "dia de escuridade e densas trevas"(Jl.2:2).

Além deste, podemos citar vários outros motivos porque devemos estudar profecias:

1) Sua importância nas Escrituras é estabelecida pelo fato de que 25% da Bíblia é composta de profecias. Convém mencionar que todas elas, com uma única excessão, são literais.

2) Há a promessa da iluminação do Espírito Santo no estudo das profecias (Jo.16:13).

3) A profecia serve de consolo para os crentes (IITs.1:4-10; Hb.10:32-39).

4) As profecias causam influência nos descrentes (Is.44:28; IICr.36:22,23; Ed.1:1,2).

5) Devemos estudar as profecias para combater as falsas interpretações dada pelas seitas.

6) As profecias nos dão claras orientações para os últimos dias.

7) As profecias nos incitam à uma vida de pureza (I Jo.3:1-3).

8) Oferece equilíbrio doutrinário na vida do estudante de profecias.

É mister lembrar que o estudo da escatologia não nos levará a desvendar todos os mistérios, épocas e tempos estabelecidos por Deus. Deus nos dará compreensão apenas às coisas que nos foram reveladas (Dt.29:29), mas as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, e não nos "compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade"(At.1:7).



CAPÍTULO I

ESCATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS



A doutrina ortodoxa da Igreja, embora com nuances de variações, sempre dominou sobre as demais tendências teológicas. Em todos os séculos sempre houveram segmentos religiosos inclinados a uma corrente mais liberal. Mas sempre a ortodoxia dominou sobre esses movimentos que geralmente eram mais externos do que internos.

No século XIX, entretanto, o liberalismo teológico invadiu o interior da Igreja, ressurgindo com uma força mais expressiva, atingindo as bases, fazendo com que surgissem novas abordagens teológicas. A ortodoxia sofreu todo tipo de ataques, vindo de todas as partes, da ciência natural às ciências humanas. No campo da filosofia, por exemplo, podemos mencionar Schleiermacher que "propôs um cristianismo como sendo meramente uma questão de sentimentos,"1 negando a questão ética.

Foi nesse tempo de distúrbios teológicos, somado às novidades na área científica, como a teoria das espécies de Darwin, que fez com que a Igreja adotasse novos rumos, a fim de responder aos desafios da época. Foi nesse período que surgiram a Escatologia Consistente de Schweitzer e a Escatologia Realizada de Dodd.



1. ESCATOLOGIA CONSISTENTE:

Alguns defendiam que a essência do cristianismo era de caráter ético. O estabelecimento do reino de Deus não se daria de forma cataclística (como a 2ª vinda de Cristo), mas seria introduzido progressivamente através dos esfôrços dos cristãos. Entre os defensores dessa corrente encontramos Albercht Ritschl.2

Johannes Weiss propôs um meio termo "juntando um conceito verdadeiramente escatológico ou futurista com a idéia do reino como uma realidade ética presente".3

Weiss defendia que Jesus era totalmente escatológico, apocalíptico e futurista.

Mas o pensador de maior expressão dessa tendência teológica foi Albert Schweitzer (1875-1965), porque Schweitzer ampliou a proposta de Weiss, aplicando a sua teologia consistente à todo o Novo Testamento, e não somente aos ensinos de Jesus.

"Segundo a Escatologia Consistente de Scheweitzer, Jesus, crendo ser o Messias de Israel, descobriu que a consumação não chegou quando Ele a esperava (cf. Mt.10:23) e aceitou de bom grado a morte, a fim de que a sua parusia4 com o Filho do Homem pudesse ser forçosamente realizada. Visto que a roda da história não atenderia ao toque de sua mão, girando para completar sua última volta, Ele se lançou sobre ela e foi quebrado por ela, apenas para dominar a história decisivamente por meio do seu fracasso, mais do que poderia ter feito se tivesse realizado sua ambição mal interpretada. A mensagem dele, conforme sustentava Schweitzer, era totalmente escatológica no sentido exemplificado pelo apocalipcismo contemporâneo mais grosseiro. Seus ensinos éticos eram planejados para o período entre o início do seu ministério e a sua manifestação em glória. Mais tarde, quando se percebeu que a morte dele destruíra as condições escatológicas, ao invés de introduzí-las, a proclamação do reino foi substituída pelo ensino da igreja".5

Podemos concluir, por outras palavras, que a Escatologia Consistente defende a idéia de que Jesus não consumou suas predições escatológicas. Nenhum dos fatos "previstos" por Jesus se cumpriram, mas os fatos foram forjados e adaptados às circunstâncias históricas. Jesus previa o óbvio, planejando sistematicamente suas ações, mas nem sempre o óbvio acontecia, portanto Jesus teve que adaptar suas previsões escatológicas. Por isso essa escatologia recebeu o nome de consistente, porque devia ser consistente (de acordo) com os fatos.



2. ESCATOLOGIA REALIZADA:

Enquanto a Escatologia Consistente considerava que os eventos antecipados por Jesus nunca ocorreram, a Escatologia Realizada, ao contrário, afirmava que os eventos já haviam ocorrido, já tinham sido realizados.

O defensor dessa tendência foi Charles H. Dodd (1884-1973). Para Dodd "a nova era já está aqui; Deus estabeleceu o reino. O conceito mitológico do dia do Senhor foi transferido a um evento histórico específico que já ocorreu, ou, na realidade, a uma série de tais eventos - o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. A escatologia foi cumprida ou 'realizada'. Aquilo que era futuro nos tempos das profecias do Antigo Testamento tornou-se presente. Ao invés de procurar duas vindas de Cristo, devemos entender que há apenas uma; devemos interpretar estas 'predições' à luz das suas declarações de que o Reino de Deus está aqui - está próximo. Jesus não estava falando de como seria, mas de como era".6

Há quatro maneiras de interpretar a escatologia bíblica: "A interpretação idealista (ou simbólica) tira o elemento temporal da apocalíptica. Os símbolos ou eventos que descreve não ocorrerão em qualquer ponto específico na história, mas, sim, representam e apresentam 'verdades eternas', verdades acerca da natureza da realidade ou da existência humana que ou estão continuamente presentes ou recorrem continuamente. Não perguntamos delas: 'Quando?' mas, sim, 'O quê?' O futurista faz os elementos proféticos e apocalípticos nas Escrituras referirem-se primeiramente a um 'tempo do fim' quando todos os eventos virão a acontecer. A maior parte dele ainda é futuro para nós, como era para aqueles que viviam nos tempos bíblicos. O historicista considera que a apocalíptica pertence a eventos que ainda eram futuros na ocasião em que foram descritos (o período bíblico), mas que já ocorreram e continuam a ocorrer dentro da vida histórica da igreja. A abordagem preterista considera que o cumprimento da apocalíptica ocorreu mais ou menos contemporaneamente com o registro bíblico dela. Destarte, os 'últimos tempos' já teriam acontecido quando o escritor bíblico os descreveu".7

Com esses conceitos, agora podemos melhor definir a Escatologia Realizada. Fica claro perceber que a Escatologia Realizada adota uma abordagem preterista na sua interpretação.

J. A. T. Robinson, que foi aluno de Dodd, "interpreta a 'parusia' de Cristo não como um evento literal do futuro, mas como uma apresentação simbólica ou mitológica daquilo que acontece sempre que Cristo vem com amor e poder, demonstrando os sinais da sua presença e as marcas da sua cruz. (...) Robinson nega que Jesus usasse linguagem que subentendesse a sua volta do céu para a terra. As expressões dele que assim foram entendidas apontam para os temas paralelos da vindicação e da visitação - notavelmente sua resposta à pergunta do sumo sacerdote no seu julgamento (Mc.14:62), onde a frase adicional 'desde agora' (Lc.22:69; Mt.26:64) é entendida como parte autêntica da resposta. O Filho do Homem, condenado pelos juízes humanos, será vindicado no tribunal da justiça divina; sua visitação consequente ao seu povo em julgamento e redenção acontecerá 'desde agora' tão seguramente como a sua vindicação.

Ao invés de falar na Escatologia Realizada, Robinson (seguindo Georges Florovski) fala de uma 'Escatologia Inaugurada' - uma escatologia inaugurada pela morte e ressurreição de Jesus, que lançaram e iniciaram uma nova fase do reino em que 'desde agora' o plano divino de redenção atingiria o seu cumprimento. Ao ministério de Jesus antes de sua paixão, Robinson aplica o termo 'Escatologia Proléptica', porque naquele ministério os sinais da era do porvir tornaram-se previamente visíveis".8



CAPÍTULO II

AMILENISMO AGOSTINIANO



Há dois tipos de amilenismo: (1) O Amilenismo Clássico que considera o Reino de Deus como sendo o domínio de Deus sobre os santos que estão nos céus, fazendo do Reino de Deus um reino celestial - o Reino dos Céus. (2) O Amilenismo Agostiniano, que também é o ponto de vista defendido pela Igreja Católica Romana, considera o cumprimento de todas as promessas do Antigo Testamento com respeito ao Reino, como sendo o reinado de Cristo do trono do Pai sobre a Igreja, que está na terra. Esses dois pontos de vista são considerados ortodoxos, pois ainda defendem uma interpretação literal das doutrinas da ressurreição, do juízo, do castigo eterno, e outros temas relativos. O Amilenismo Modernista, no entanto, nega as doutrinas da ressurreição, do juízo, da segunda vinda, do castigo eterno, e outros assuntos relativos. O amilenismo romano produziu o sistema de purgatório, o limbo, e outras doutrinas não bíblicas. Estudaremos apenas o amilenismo ortodoxo.



1. DESCRIÇÃO E ORIGEM:

O Amilenismo Agostiniano ensina que não haverá um milênio de paz e justiça na terra antes do fim do mundo. Os amilenistas crêem que haverá um crescimento contínuo de bem e mal no mundo que culminará na Segunda Vinda de Cristo quando os mortos serão ressuscitados e se processará o último julgamento. Os amilenistas crêem que o Reino de Deus está presente agora no mundo, enquanto o Cristo vitorioso governa seu povo através de sua Palavra e Espírito. Este conceito de amilenismo recebe o nome agostiniano porque foi defendido por Agostinho de Hipona (354-430 d.C.). Inicialmente Agostinho era pré-milenista, mas abandonou esta posição "em vista do extremismo e carnalidade imoderada daqueles que sustentaram o pré-milenismo em sua época." Agostinho foi também influenciado por Ticônio e pelo método de interpretação alegórica de Orígenes.

Durante os primeiros três séculos a interpretação pré-milenista dominou sobre a Igreja Primitiva, mas a partir do século IV o amilenismo ganhou força, principalmente porque a Igreja Cristã recebeu uma posição favorável do Imperador Constantino, que deu fim a perseguição da Igreja. A "conversão" de Constantino e o reconhecimento político do cristianismo, foi interpretado como o princípio do reino milenial sobre a terra. No Concílio de Éfeso, em 431, o pré-milenismo foi condenado como superstição. Embora o amilenismo tenha dominado na história da Igreja por treze séculos (do século IV a XVII), especialmente porque tinha o respaldo dos Reformadores, o pré-milenismo continuou a existir e a ser defendido por certos grupos de crentes. Durante o século XIX o pré-milenismo atraiu novamente a atenção. Este interesse foi nutrido pelo violento transtorno das instituições políticas e sociais européias na época da Revolução Francesa.

O Amilenismo Agostiniano angariou expressão no seio da Igreja, dominando por treze séculos. Ainda hoje o Amilenismo Agostiniano encontra adéptos em todas as denominações religiosas. O Dr. Pentecost alista sete razões porque o Amilenismo Agostiniano é tão popularmente aceito: "(1) Es un sistema inclusivo, que puede abarcar todos los estratos del pensamiento teológico: protestante modernista, protetante ortodoxo y católico romano... (2) Con excepción del premilenarismo, es la teoría relativa al milenio más antigua; y por lo tanto, tiene la pátina o el barniz de la antigüedad sobre ella. (3) Tiene el sello de la ortodoxia, por cuanto fue el sistema adoptado por los reformadores y llegó a ser el fundamento de muchas declaraciones de fe. (4) Se conforma con el eclesiasticismo moderno, que hace hincanpié en la iglesia visible que es, para el amilenarismo, el centro de todo el programa de Dios. (5) Presenta un sencillo sistema escatológico, con una sola resurrección, un juicio, y muy poco programa profético futuro. (6) Se conforma fácilmente con las presuposiciones de la llamada 'teología del pacto'. (7) Atrae a muchos por ser una interpretación 'espiritual' de la Escritura, en vez de ser una interpretación literal, la cual sería un 'concepto carnal' del milenio." ((1) É um sistema inclusivo, que pode abraçar todos as esferas de pensamento teológico: protestante modernista, protestante ortodoxo e católico romano... (2) Com excessão do pré-milenismo, é a teoria relativa ao milênio mais antiga; e portanto, tem a proteção ou a cobertura da antiguidade sobre ela. (3) Tem o selo da ortodoxia, porquanto foi o sistema adotado pelos reformadores e chegou a ser o fundamento de muitas declarações de fé. (4) Se conforma com o eclesiasticismo moderno, que tem acampado na igreja visivel que é, para o amilenismo, o centro de todo o programa de Deus. (5) Apresenta um simples sistema escatológico, com uma só ressurreição, um juízo, e muito pouco programa profético futuro. (6) Se conforma facilmente com as presuposições da chamada "teologia do pacto". (7) Atrai a muitos por ser uma interpretação "espiritual" da Escritura, em vez de ser uma interpretação literal, a qual seria um "conceito carnal" do milênio. - tradução do autor).



2. APOIO DO NOVO TESTAMENTO:

Notamos nesta definição que o termo amilenismo é infeliz, pois sugere que os amilenistas não crêem em qualquer tipo de milênio. É verdade que os amilenistas agostinianos rejeitam a idéia de um reino terreno literal de mil anos que se seguirá ao retorno de Cristo, mas também é verdade que eles crêem que o milênio de Apocalipse 20 não é exclusivamente futuro, mas está em processo de realização hoje, não literalmente, mas de forma espiritual. Cristo reina hoje na terra, através da Igreja, pois os amilenistas crêem que o reino de Deus está no seio da Igreja: "...não vem o reino de Deus com visível aparência... porque o reino de Deus está dentro em vós."(Lc.17:20,21). Os amilenistas crêem que os crentes já reinam com Cristo no presente, pois Ele "nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai..."(Ap.1:6). A Igreja de Cristo é "sacerdócio real"(IPe.2:9), e nessa qualidade reina, expandindo o Reino de Deus no mundo, através de proclamação "das virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." Para os Amilenistas Agostinianos o Reino de Deus prometido ao povo de Israel, foi transferido para a igreja (Mt.42,43), porque Israel rejeitou o seu Messias. Por causa disso a Igreja agora é o novo "Israel de Deus."(Gl.6:16).

Os amilenistas crêem na expansão do evangelho, porque acreditam que Ap.20:3 já se cumpriu. Para eles Satanás está preso agora. Figueredo citando Agostinho diz que "em sua exegese concluiu que Cristo o prendeu na sua 1ª vinda - Ele 'manietou o valente' (Mt.12:26-29) - desfez as obras dele (IJo.3:8), aniquilou-o na cruz (Hb.2:14) e triunfou dele na cruz (Cl.2:15). Expulsou e julgou o príncipe deste mundo (Jo.12:31;16:11). Em Lucas 10:17,18 ele é 'lançado à terra' quando os discípulos pregavam."

Para explicar a ação de Satanás na presente era, Figueredo explica que a palavra preso usado em Ap.20:3 não significa inativo, mas apenas limitado. "Sua prisão, cremos, é relacionada com o impedimento de sua ação contra a Igreja (Mt.18:16-18); ele não pode impedir o avanço da Igreja e do Evangelho."

Figueredo prossegue dizendo que esta limitação de Satanás terá fim, quando ele for solto novamente, fato que será concomitante com a grande tribulação (Mt.24:29,30) e com a apostasia (IITs.2:8). Depois o Senhor descerá do céu e destruirá o Anticristo. "Então se seguirão o novo céu e a nova terra, onde os salvos reinarão, não apenas por mil anos, mas para sempre."

O Dr. Russel Shedd informa que Agostinho interpretou a prisão de Satanás à maneira da Escatologia Realizada de Dodd. Shedd diz que "para Agostinho, Marcos 3:27, continha a chave da compreensão certa do milênio... explicou este verso assim: ninguém poderá entrar na casa do poderoso e tomar os seus bens sem primeiramente amarrá-lo. O homem forte era Satanás. Seus bens, são os cristãos (antes da conversão) que estavam sob o seu domínio. Cristo o dominou, amarrando-o e segurando-o durante todo o período entre a primeira e a segunda vinda. No fim desta época Satanás será posto em liberdade para testar a Igreja. Em seguida será absolutamente dominado, iniciando a era eterna."

O Amilenismo Agostiniano, portanto, prevê o completo domínio do bem sobre o mal, através da pregação do evangelho. A medida que o Reino de Deus está sendo expandido na terra, através da Igreja, a situação do mundo vai melhorando.



3. AS DUAS RESSURREIÇÕES:

A interpretação que se dá as duas ressurreições mencionadas em Apocalipse 20:4-6, direciona para uma das posições escatológicas existentes. Aqueles que interpretam as duas ressurreições como sendo ambas corporais, ocorridas interpoladamente entre um período de mil anos, inclinam-se para o pré-milenismo. Os que defendem ser a primeira ressurreição, uma ressurreição espiritual, e a segunda uma ressurreição corporal, adotam o amilenismo ou o pós-milenismo.

Os amilenistas, tanto quanto os pós-milenistas, alegam que as pessoas mencionadas em Ap.20:4 que "viveram e reinaram com Cristo durante mil anos." passaram por uma ressurreição espiritual, ocorrida no novo nascimento, e agora reinam espiritualmente com Cristo.

Para fundamentar esta interpretação apelam para a exegese do texto. Afirmam que o verbo grego ezhsan (ezêsan = viveram) aplica-se tanto à uma ressurreição espiritual, da alma, como à uma ressurreição literal, do corpo. Aqui em Apocalipse 20 o "viveram" do versículo 4 faz referência à uma ressurreição espiritual, enquanto que o "viveram" do versículo 5 se refere a uma única ressurreição corporal, tando dos salvos quanto dos perdidos.

Para dar amparo à interpretação espiritual, citam outras passagens do Novo Testamento onde o mesmo verbo grego é utilizado com esse sentido. Em João 5:21 é usado o verbo grego zwopoiew (zôopoiéô = fazer viver, dar vida ) com sentido espiritual. Este mesmo verbo é usado em ICo.15:22,36, 45; IICo.3:6; IPe.3:18; Rm.4:17. Efésios 2:1-6 também dá apoio a uma ressurreição espiritual. Mas a passagem de maior expressão, mencionada pelos alegoristas, para comprovar a ocorrência de uma ressurreição espiritual e outra física no mesmo contexto, encontra-se em João 5:25-29: "Em verdade, em verdade vos digo, que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão (zesousin). (...) Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida: e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo."

O Dr. Ladd diz que "aqui há primeiramente uma ressurreição espiritual, seguida por uma ressurreição física escatológica. Intérpretes amilenistas argumentam que Apocalipse 20 deveria ser interpretado de forma análoga a João 5."

Para o grupo dos que vivem, a hora já chegou. Isto deixa claro que a referência é aos que estão espiritualmente mortos e entram na vida ouvindo a voz do Filho de Deus. O outro grupo (todos), são os que se acham nos túmulos, são tanto aqueles que estão espiritualmente mortos, como aqueles que vivem e já tiveram parte na primeira ressurreição. Ambos serão trazidos à vida, simultaneamente, uns para a ressurreição da vida e outros para a ressurreição do juízo. "Desse modo fica claro que o texto está falando de dois tipos de 'viver': uma ressurreição espiritual no presente e uma ressurreição física no futuro."



4. PROFECIAS DO ANTIGO TESTAMENTO:

Um dos principais argumentos dos amilenistas para a interpretação das profecias do Antigo Testamento acerca dos últimos tempos é que as profecias do Antigo Testamento acerca da primeira vinda de Jesus cumpriram-se espiritualmente.

A hermenêutica adotada pelos amilenistas, para as profecias, é o método alegórico de interpretação. Para os amilenistas o conteúdo histórico da Bíblia deve ser entendido literalmente; o material doutrinário também deve ser interpretado desta maneira; a informação moral e espiritual, do mesmo modo, segue este padrão; entretanto, o material profético deve ser interpretado alegóricamente.

Os defensores do amilenismo argumentam que há diversas profecias, no Antigo Testamento, acerca da primeira vinda de Jesus, que se cumpriram espiritualmente.

Como exemplo podemos citar uma profecia de Oséias onde lemos: "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho."(Os.11:1). Esta afirmação histórica que Deus chamou Israel do Egito no Êxodo foi aplicada espiritualmente, no Novo Testamento, à Jesus Cristo, em Mateus 2:15.

Outro exemplo citado pelos exegetas amilenistas é a profecia de Isaías 53:5,6. Em seu contexto, no Antigo Testamento, esta passagem não é uma profecia do Messias, mas sim um servo anônimo, pois o servo sofredor nunca é chamado de Messias. Muitas passagens identificam o servo sofredor com o próprio povo de Israel (Is.45:3;49:3,5;52:13). Entretanto os escritores do Novo Testamento aplicaram o texto de Is.53:5,6 à Jesus Cristo (Mt.8:17; At.8:30-35). Portanto à luz do Novo Testamento o servo sofredor é ao mesmo tempo Israel e o seu Messias. Nota-se o princípio da interpretação espiritual aplicável ao texto.

Vemos este mesmo princípio aplicado à Igreja (Os.1:9,10;2:23 em Rm.9:25,26; Jr.31:33,34 em Hb.8:8-12), como também em relação a João Batista (Ml.3:1;4:5 em Mt.11:13,14;17:11,12). Assim, dentro da perspectiva amilenista "o que une o Antigo e o Novo Testamentos é a unidade do pacto da graça.Os amilenistas não crêem que a história deve ser dividida em uma série de dispensações distintas e discrepantes, mas veêm um único pacto da graça que percorre toda a história. Este pacto da graça ainda está em efeito hoje, e culminará na convivência eterna de Deus e seu povo redimido na nova terra". O Dr. J. Dwight Pentecost, em sua obra Eventos do Porvir explica as implicações da teologia do pacto: "...se considera todo el programa de Dios como un programa redentor, de manera que todas las edades son variaciones en la revelación progressiva del pacto de la redención. En lo referente a la escatología, considera que todos los santos de todas as edades son miembros de la Iglesia. Esto perde de vista todas las distinciones que hay entre el programa que Dios tiene para Israel y el que tiene para la Iglesia, y requiere la negación de la enseñanza de la Escritura de que la Iglesia es un misterio, no revelado hasta la edade presente". (...considera todo o programa de Deus como um programa redentor, de maneira que todas as eras são variações na revelação progressiva do pacto da redenção. No que se refere a escatologia, considera que todos os santos de todas as eras são membros da Igreja. Isto perde de vista todas as distinções que há entre o programa que Deus tem para Israel e que tem para a Igreja, e requer a negação do ensino da Escritura de que a Igreja é um mistério, não revelado até a era presente. - tradução do autor).

Vejamos ainda mais dois exemplos de passagens proféticas do Antigo Testamento, que são interpretadas como sendo a descrição do reino milenial. O amilenista Anthony A. Hoekema dá a sua interpretação.

A primeira está em Isaías 11:6-9, onde lemos que "o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito..." Hoekema argumenta que "no fim dos tempos haverá uma nova terra (veja, por exemplo, Is.65:17;66:22; Ap.21:1). Por que não podemos entender os detalhes que encontramos nestes versos como descrições da vida na nova terra? (...) Por que temos de pensar nestas palavras como se tivessem aplicação apenas a um período de mil anos precedendo a nova terra?"

A outra passagem que Hoekema faz referência é Isaías 65:17-25. Ele argumenta que "o verso 18 chama o leitor a exultar 'perpetuamente' - não apenas por mil anos - nos novos céus e nova terra que acabaram de ser descritos. Isaías não está falando aqui de uma novidade para durar apenas mil anos, mas uma novidade eterna!"



CAPÍTULO III

AMILENISMO CLÁSSICO





1. DESCRIÇÃO:

Contrariando o amilenismo agostiniano, o amilenismo clássico não defende um futuro tão otimista para a humanidade. Para eles a presente era vai piorando cada vez mais até a Segunda Vinda de Cristo, o qual virá para dar fim a apostasia. Isto acontece porque este tipo de amilenismo ensina que o milênio mencionado em Apocalipse 20 é distinto da era da Igreja, mesmo que preceda ao Segundo Advento. Esta posição parece ter surgido, como uma tendência alternativa, em substituição ao Amilenismo Agostiniano, para explicar a realidade de que o mundo não vai melhorar, mesmo diante da pregação do evangelho. Pelo contrário, perpetua-se a incredulidade, o pecado e a rejeição de Cristo.

Desse modo os amilenistas clássicos asseveram que o milênio não é tanto "un período de tiempo, sino de un estado de bienaventuranza de los santos en el cielo."1 (um período de tempo, mas sim de um estado de bem-aventurança dos santos nos céus. - tradução do autor). Pentecost citando mais uma vez o pré-milenista John F. Walvoord, que por sua vez cita o amilenista B. B. Warfield, escreve: "Warfield, com la reconecida ayuda de Kliefoth, define el milenio con estas palabras: 'La visión, en una palabra, es una visión de la paz de aquellos que han muerto en el Señor; y su mensaje para nosostros está incorporado en las palabras de Apocalipsis 14:13: Bienaventurados de aquí en adelante los que mueren en el Señor - pasaje del cual la era presente es en verdad sólo una aplicación. El cuandro que se nos presenta aquí es, en fin, el cuadro del estado intermedio de los santos de Dios reunidos en el cielo lejos del ruido confuso y de las vestiduras bañadas en sangre que simbolizan la guerra sobre la tierra, para que ellos puedan esperar con seguridad el fin."2 (Warfiel, com a reconhecida ajuda de Kliefoth, define o milênio com estas palavras: "A visão, em poucas palavras, é uma visão da paz daqueles que estão mortos no Senhor, e sua mensagem para nós está incorporada nas palavras de Apocalipse 14:13: Bem-aventurados de agora em diante os que morrem no Senhor - passagem da qual a era presente é em verdade somente uma aplicação. O quadro que se nos apresenta aqui é, enfim, o quadro do estado intermediário dos santos de Deus reunidos no céu, longe do ruído confuso e das vestes banhadas em sangue que simbolizam a guerra sobre a terra, para que eles possam aguardar com segurança o fim. - tradução do autor).

Para os amilenistas clássicos o Reino de Deus é o Reino dos Céus3 , e este foi inaugurado na 1ª vinda de Jesus: "Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós."(Lc.11:20). Outro versículo usado para defender o amilenismo encontra-se naquela passagem quando Jesus enviou seus discípulos para pregarem o Reino de Deus aos seus compatriotas judeus: "...anunciai-lhes: a vós outros está próximo o reino de Deus."(Lc.10:9). Desse modo, o reino prometido a Israel foi transferido para a Igreja (Mt.21:43).

Cristo reina nos céus agora. Enquanto Ele reina, o evangelho será pregado na terra, até que seja divulgado a todas as nações (Mt.24:14). O evangelho, porém, será rejeitado, pois os homens "não suportarão a sã doutrina"(IITm.4:3), a iniquidade se multiplicará e os crentes se esfriarão: "E, por multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos."(Mt.24:12). Nos últimos tempos "sobrevirão tempos difíceis..."(IITm.3:1), e por isso, surgirão doutrinas de demônios, para as quais "alguns apostatarão da fé"(ITm.4:1). Nesse estado caótico Jesus voltará: "...quando vier o Filho do Homem, achará porventura fé na terra?"(Lc.18:8). Em sua 2ª vinda julgará os povos, separará o trigo do joio, e criará os novos céus e a nova terra. É nesta nova terra que o reino dos céus será implantado.



2. INTERPRETAÇÃO DE APOCALIPSE:

O sistema de interpretação do livro de Apocalipse é o mesmo adotado pelo pós-milenismo, conhecido como paralelismo progressivo, que foi defendido por William Hendriksen, em seu livro: "More Than Conquerors" ("Mais que vencedores").4 Este método de interpretação divide o livro de apocalipse em seções, geralmente sete, "cada uma das quais recapitula os eventos do mesmo período ao invés de descrever os eventos de períodos sucessivos. Cada uma delas trata da mesma era - o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo - retomando temas anteriores, elaborando-os e desenvolvendo-os ainda mais. Apocalipse 20, portanto, não fala de eventos muitos removidos para o futuro, e o significado dos mil anos deve ser achado nalgum fato passado e/ou presente."5

Hoekema utilizando-se do paralelismo progressivo interpreta apocalipse como segue: "A primeira destas seções está nos capítulos 1 a 3. (...) Conforme lemos estas cartas (dirigidas às sete igrejas) somos impressionados por duas coisas. Primeiramente, há referência a eventos, pessoas e lugares da época em que o livro de Apocalipse foi escrito. Em segundo lugar, os princípios, recomendações e avisos contidos nestas cartas valem para a igreja de todos os tempos.

"A segunda destas seções é a visão dos sete selos que se encontra nos capítulos 4 a 7. (...) Nesta visão vemos a igreja sofrendo provas e perseguições sobre o pano de fundo da vitória de Cristo.

"A terceira seção, nos capítulos 8 a 11, descreve as sete trombetas de julgamento. Nessa visão vemos a igreja vingada, protegida e vitoriosa.

"A quarta seção, capítulos 12 a 14, começa com a visão da mulher dando à luz um filho enquanto o dragão espera para devorá-lo logo que ele nasça - uma referência óbvia ao nascimento de Cristo.

"A quinta seção encontra-se nos capítulos 15 e 16. Descreve as sete taças da ira, representando desta forma de maneira bem vívida a visitação final da ira de Deus sobre os que permanecem impenitentes.

"A sexta seção, capítulos 17 a 19, descreve a queda da Babilônia e das bestas. Babilônia representa a cidade do mundo - as forças do secularismo e impiedade que se opõem ao reino de Deus...

"A sétima seção, narra o fim do dragão... descreve o juízo, o triunfo final de Cristo e sua igreja e o universo restaurado, chamado aqui de os novos céus e nova terra.

"Observe que apesar destas seções serem paralelas entre si, revelam também um certo grau de progressão escatológica. A última seção, por exemplo, leva-nos mais além para o futuro que as outras. Apesar do juizo final já ter sido anunciado em 1:7 e brevemente descrito em 6:12-17, não é apresentado detalhadamente senão quando chegamos a 20:11-15. Apesar do gozo final dos redimidos já ter sido insinuado em 7:15-17, não encontramos uma descrição detalhada e elaborada da bênção da vida na nova terra senão quando chegamos ao capítulo 21 (21:1-22:5). Por esta razão, este método de interpretação é chamado paralelismo progressivo."6





CAPÍTULO IV - PÓS-MILENISMO





1. DESCRIÇÃO:

O pós-milenismo tem sido frequentemente difícil de distinguir do amilenismo agostiniano. Ambos tem muitos pontos em comum. Tal qual os amilenistas eles acreditam que (1) O reino de Deus é uma realidade presente; está aqui de modo terreste, no coração dos homens. (2) O pós-milenista espera uma conversão de todas as nações antes que Cristo retorne à terra. (3) O milênio é um período de paz na terra, a medida que mais pessoas se submetem ao evangelho, pois Satanás está preso. Erickson afirma que "este é um conceito verdadeiramente revolucionário, porque dentro da história registrada, a paz em escala mundial tem prevalecido, em média, somente cerca de uma vez cada quinze anos!"1 (4) Haverá um crescimento paulatino do Reino. (5) No fim do milênio haverá um período de apostasia. (6) A 2ª vinda de Jesus inaugurará a era final e o estado final tanto para crentes como para incrédulos. (7) Os mil anos de Apocalipse são simbólicos. O pós milenista acredita num reino terrestre de Cristo, mas com Cristo ausente ao invés de presente. (8) As profecias são menos literais e mais predominantemente simbólicas.



2. ORIGEM:

O pós-milenismo alcançou maior expressão a partir do século XVIII, com o advento do iluminismo. Históricamente o pós-milenismo dominou nos últimos cem anos. Atualmente esta posição não possui muita expressão no meio evangélico. Segundo o Dr. Pentecost, "el postmilenarismo ya no es un problema en la teología. La Segunda Guerra Mundial le produjo la muerte a este sistema. Su colapso puede atribuirse a (1) su inherente debilidad, ya que, basado en el principio de espiritualizar la interpretación, no había en él coherencia alguna; (2) la tendencia hacia el mordenismo, al cual el postmilenarismo no podía enfrentarse, debido a ese mismo principio de interpretación; (3) su fracaso en ajustarse a los hechos de la histori; (4) la nueva tendencia hacia el realismo de la teología y en la filosofía, que se ve en la neo-ortodoxia, la cual admite que el hombre es pecador, y no puede producir la nueva era prevista por el postmilenarismo; y (5) una nueva tendencia hacia el amilenarismo, procedente del regreso a la teología de la Reforma, como base de la doctrina. El postmilenarismo no encuentra defensores ni partidarios en las presentes discusiones del milenio dentro del mundo teológico."2 ( o pós-milenismo já não é um problema para a teologia. a Segunda Guerra Mundial produziu a morte deste sistema. Seu colapso pode atribuir-se a (1) sua inerente debilidade, já que, baseado no princípio e espiritualizar a interpretação, não oferece nenhuma coerência; (2) a tendência frente ao modernismo, ao qual o pós-milenismo não podia enfrentar, devido a esse mesmo princípio de interpretação; (3) seu fracasso em ajustar-se aos fatos da história; (4) a nova tendência frente ao realismo da teologia e da filosofia, que se ve na neo-ortodoxia, a qual admite que o homem é pecador, e não pode produzir a nova era prevista pelo pós-milenismo; e (5) uma nova tendência frente ao amilenismo, procedente do regresso à teologia da Reforma, como base da doutrina. O pós-milenismo não encontra defensores nem partidários nas presentes discussões do milênio dentro do mundo teológico. - tradução do autor).



3. APOIO DO NOVO TESTAMENTO:

Basicamente, os mesmos versículos bíblicos do Novo Testamento, usados pelos amilenistas, são usados para defender a posição pós-milenista. Segundo os conceitos pós-milenistas o mundo vai melhorar com a pregação do evangelho. A pregação do evangelho será eficaz, pois esta não é uma realização humana, realizada por meio de grande perícia ou metodologia evangelística, mas sim uma ação sobrenatural do Espírito Santo de Deus. Desse modo "as portas do inferno não prevalecerão"(Mt.16:18), e a Igreja será vitoriosa. Os pós-milenistas crêem que haverá um reavivamento em escala mundial, antes da volta de Cristo à terra. O Reino milenial está sendo introduzido paulatinamente na era presente, confundindo a era da Igreja com a era do milênio(Mt.17:28). Por enquanto ainda existem problemas sociais, econômicos, educacionais e políticos, mas quando a era milenar absorver a era da Igreja, todos estes problemas serão eliminados. Somente no fim, quando Satanás será solto, e, consequentemente com a vinda do Anticristo, é que haverá um esfriamento dando lugar a apostasia.

O Dr. Loraine Boetttner defende o pós-milenismo da seguinte maneira: "Pós-milenismo é aquela concepção das últimas coisas que sustenta que o reino de Deus está sendo extendido agora no mundo pela pregação do evangelho e a obra salvadora do Espírito Santo no coração dos indivíduos, que o mundo irá finalmente ser cristianizado e que a volta de Cristo ocorrerá no final de um longo período de retidão e paz comumente chamado de milênio. Deve se acrescentar que pelos princípios pós-milenistas a Segunda Vinda de Cristo será seguida imediatamente pela ressurreição geral, julgamento geral, e a introdução da plenitude do céu e do inferno.

"O milênio que os pós-milenistas aguardam é, desta forma, uma era áurea de prosperidade espiritual dentro da atual dispensação, isto é, na Era da Igreja. Isto vai ser provocado por forças que já estão em atividade no mundo. Ele vai durar por um período indefinidamente longo de tempo, talvez muito mais que mil anos literais. O caráter transformado dos indivíduos se refletirá numa vida social, econômica, política e cultural melhor para a humanidade. O mundo todo gozará um estado de retidão que até agora só foi visto em grupos relativamente pequenos e isolados: por exemplo: alguns círculos familiares, e alguns grupos de igrejas locais e organizações semelhantes."3

"Hoje o mundo como um todo está em um plano muito mais elevado. Os princípios cristãos são os padrões aceitos em muitas nações, apesar de não serem praticados consistentemente. A escravidão e poligamia praticamente desapareceram. A situação das mulheres e crianças melhorou enormemente. As condições sociais e econômicas em quase todas as nações alcançaram um outro nível. Um espírito de cooperação está se manifestando entre as nações muito mais do que jamais ocorreu. Incidentes internacionais que apenas há alguns anos atrás teriam resultado em guerras são agora normalmente resolvidos por arbitragem."4





CAPÍTULO V - PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO



1. DESCRIÇÃO:

O pré-milenismo histórico afirma que após a 2ª Vinda de Cristo, ele reinará literalmente por mil anos sobre a terra, antes da consumação final do propósito redentivo de Deus nos novos céus e nova terra. Segundo o pré-milenismo histórico a situação do mundo piora cada vez mais até a volta de Cristo, quando Jesus implantará o seu reino, o Reino de Deus, um reino tipicamente eclesiástico, através do qual reinarão todos os salvos de todas as eras. Neste reino não haverá distinção entre Israel e Igreja, mas Cristo reinará sobre a Igreja Universal, composta tanto de judeus como de gentios.

Para o pré-milenista histórico as profecias do Antigo Testamento não são tão predominantemente literais, e por isso algumas profecias relacionadas a Israel, são aplicadas à Igreja neo-testamentária. Desse modo crêem os pré-milenistas históricos que certas profecias estão se cumprindo hoje na história da Igreja, porque para eles, Israel é a Igreja do Antigo Testamento, e a Igreja do Novo Testamento é o novo Israel de Deus.(Mt.21:43; IPe.2:9; Ap.1:6).

Quem defende esta corrente é o Dr. George Eldon Ladd. Ele afirma que "Apocalipse 20:1-6 retrata a Segunda Vinda de Cristo como vencedor vindo destruir seus inimigos: o Anticristo, Satanás e a Morte. Apocalipse 19:17-21 retrata então a destruição do poder malígno por trás do Anticristo - 'o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás"(Ap.20:2). Isto ocorre em dois estágios.

"Primeiramente, Satanás é preso e encarcerado no abismo (Ap.20:1) por mil anos "para que não mais enganasse as nações"(Ap.20:3) como havia feito através do Anticristo. Neste ponto ocorre a 'primeira ressurreição'(Ap.20:5) de santos que participam do reinado de Cristo sobre a terra pelos mil anos. Depois disto Satanás é solto de seus grilhões e, apesar do fato de Cristo haver reinado sobre a terra por mil anos, acha ainda os corações dos homens não-regenerados prontos a se rebelar contra Deus. Segue-se a guerra escatológica final e o diabo é lançado no lago de fogo e enxofre, ocorre então a segunda ressurreição, daqueles que não haviam sido ressurretos no milênio. Eles comparecem ante o trono de julgamento de Deus para serem julgados conforme as suas obras. 'Se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo' (Ap.20:15). Então a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo.

"Assim Cristo alcança sua vitória sobre seus três inimigos: o Anticristo, Satanás e a Morte.1 Só então, subjugados todos os poderes hostís, o cenário está preparado para o estado eterno - a vinda dos novos céus e nova terra (Ap.21:1-4). Esta é a maneira mais natural de se entender Apocalipse 20."2



2. INTERPRETAÇÃO DE GÁLATAS 6:16

Para os pré-milenistas históricos a Igreja é o Israel de Deus, mencionado por Paulo em Gl.6:16. Não há nenhuma distinção entre Israel e Igreja hoje, e do mesmo modo não haverá no milênio. Para chegar a esta conclusão, fazem uso do mesmo princípio de interpretação utilizado pelos amilenistas, em relação as profecias do Antigo Testamento.

Ladd afirma que "uma ilustração extremamente vívida deste princípio encontra-se em Romanos 9, onde Paulo está falando de 'nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios'(Rm.9:24). Em outras palavras, Paulo está falando da igreja em Roma, que contava com alguns judeus, mas era em sua maioria gentia. Para provar que era o propósito de Deus chamar tal povo à existência, Paulo cita duas passagens de Oséias. 'Assim como também diz em Oséias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e, amada, à que não era amada; e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus Vivo.'(Rm.9:25,26) Em Oséias, ambas as passagens referem-se ao Israel literal, nacional. Por causa de sua rebeldia, Israel não é mais o povo de Deus. 'Disse o Senhor a Oséias: Põe-lhe o nome de não-meu-povo, porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus.'(Os.1:9). Israel foi rejeitado pelo Senhor por sua descrença. Mas Oséias ainda vê um dia de arrependimento no futuro, quando um povo desobediente se tornará obediente. Ele vê um grande remanescente, como a areia do mar. 'E no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus Vivo'(Os.1:10). Isso se refere a uma futura conversão dos judeus. O mesmo pode ser dito da segunda profecia: 'Compadecer-me-ei da desfavorecida; a não-meu-povo direi: Tu és o meu povo; e ele dirá: Tu és o meu Deus!'(Os.2:23). Novamente o que se vê é uma salvação futura do Israel literal quando o povo, rejeitado por Deus, novamente se tornará povo de Deus.

"Paulo toma deliberadamente estas duas profecias acerca da salvação futura de Israel e as aplica à Igreja. A Igreja, formada de judeus e gentios, tornou-se o povo de Deus. As profecias de Oséias se cumprem na igreja cristã. Se esta é uma 'hermenêutica espiritualizante', que seja. É claramente isto que o Novo Testamento faz às profecias do Antigo Testamento.

"A idéia da Igreja como Israel espiritual aparece em outras passagens. Abraão é chamado 'o pai de todos os que crêem'(Rm.4:11); é 'o pai de todos nós que somos da fé que teve Abraão'(Rm.4:16); são ós da fé' que são 'filhos de Abraão'(Cl.3:7); é. se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo a promessa'(Cl.3:29). Se Abraão é o pai de um povo espiritual, e se todos os crentes são filhos de Abraão, seus descendentes, segue-se então que são Israel espiritualmente falando.

"É isto que leva Paulo a dizer: 'Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra (Rm.2:28,29)".3

Ladd continua a sua argumentação dizendo que outra profecia dada a Israel foi aplicada à Igreja. Segundo Ladd o profeta Jeremias antevê um dia quando Deus fará uma nova aliança com o Israel rebelde (Jr.31:33,34). Para Ladd o livro de Hebreus aplicou esta profecia à nova aliança feita no sangue de Cristo (Hb.8:8-12).

Loraine Boettner, fazendo apologia do pós-milenismo, interpreta o Israel de Deus como sendo a Igreja neo-testamentária. Ele diz que "Cristo derrubou 'a parede de separação que estava no meio, a inimizade entre judeus e gentios, para que 'reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz"(Ef.2:14-16)." Para Boettner o ensino de Paulo é que "em assuntos de fé, o relacionamento espiritual tem precedência sobre o físico e que todos os crentes são filhos de Abraão. E vice-versa... a velha distinção entre judeu e gentios foi aniquilada. Na igreja não há promessas ou privilégios dados a qualquer grupo ou nacionalidade que não se apliquem também igualmente a todos os outros."

Boettner prossegue dizendo que quando Cristo veio e foi rejeitado pela nação de Israel, "Ele depôs os líderes do judaísmo apóstata, fariseus e anciãos, e indicou um novo conjunto de oficiais, os apóstolos, através dos quais estabeleceria a sua igreja. Aos líderes do judaísmo ele disse: 'O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo a igreja que lhe produza os respectivos frutos.'(Mt.23:43). De conformidade com isto todo o sistema religioso do judaísmo foi abolido, terminou. E em seu lugar, a Nova Aliança tornou-se o instrumento oficial e autorizado para Deus lidar com seu povo, a igreja."4



CAPÍTULO VI - PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA





1. ORIGEM:

O pré-milenismo tem suas origens na Igreja Primitiva. Durante os séculos I a III o pré-milenismo era a interpretação da Igreja Primitiva. O pré-milenismo contava também com o apoio da autoridade patrística, pois muitos pais da Igreja defenderam o pré-milenismo: Papias, Irineu(170), Justino Mártir(150), Tertuliano, Hipólito, Metódio, Comodiano e Lactâncio.

A Igreja Primitiva acreditava que os mil anos de Apocalipse seria introduzido de modo escatológico e futurista. Este reino era retratado de modo bastante vívido, o que deu origem ao quiliasmo1, uma doutrina intensamente imaginativa sobre o milênio. "O quiliasmo foi bastante popular durante o período de perseguição da Igreja, quando parecia improvável que a igreja fosse bem sucedida no seu esfôrço de ganhar o mundo para Cristo mediante a pregação do evangelho. Se a igreja deveria ser vitoriosa, teria que ocorrer alguma reviravolta dramática, cataclísmica e sobrenatural do curso dos eventos".2

A esperança da volta de Cristo para o estabelecimento do seu reino, deu aos cristãos dos primeiros séculos força suficiente para resistirem as perseguições. Apesar disso, muitos estavam esmorecendo, por isso Deus deu à João as revelações do apocalipse, para que lhes servisse de conforto e esperança. Que esperança teriam se as profecias apocalípticas fossem entendidas apenas espiritualmente, excluindo o fato de que Cristo voltaria para por fim as perseguições? Interpretando Apocalipse de forma literal, não teriam os cristãos incorrido em êrro, e Deus não estaria dando esperanças falsas? É evidente que o milênio foi corretamente interpretado pelos cristãos primitivos, e com tal esperança fizeram resistência ao Império. Tal resistência fez com que o cristianismo fosse finalmente aceito por Constantivo no século IV. A suposta conversão de Constantino e o término das perseguições fizeram os cristãos reverem seus conceitos sobre o milênio. É claro que muitos cristãos se mantiveram fiéis à interpretação literal do milênio, recusando a interpretação da Igreja oficial baseada no método alegórico de Orígenes.

Somente após a reforma o pré-milenismo voltou a ganhar força, isto porque os reformadores voltaram a enfatizar o método literal de interpretação das Escrituras, embora eles próprios tenham recusado a crença em um milênio literal. Entretanto o pré-milenismo nunca deixou de existir. Em toda a história da Igreja cristã sempre houveram homens que defenderam com suas vidas essa doutrina.

Recentemente o pré-milenismo tem recebido a atenção de homens de reconhecido saber teológico, autoridades bíblicas e comentaristas de renome. Homens como o calvinista Johann Heinrich Alsted (1588-1638), o anglicano Joseph Mede (1586-1638), J. H. Bengel, Issac Newton, Joseph Priestley, Edward Irving(1782-1834), J.N. Darby(1800-1882)3,W. E. Blackstone, James Hall Brooks, G. Campbell Morgan, H. A. Ironside, Henry Moorhouse, D. L. Moody (1837-1899), A. C. Gaebelein, C. I. Scofiel, C. H. Mackintosh, William Kelly, F. W. Grant e muitos outros.



2.DESCRIÇÃO:

A volta de Cristo está dividida em duas fases, sendo a 1ª de forma secreta - o arrebatamento da Igreja - e a segunda de forma visível "porque todo olho o verá"(Ap.1:7). Na 1ª vinda Jesus também veio em duas fases: na primeira Ele veio de forma visível para o seu povo Israel (Jo.1:11); na segunda Ele veio de forma secreta para a Igreja, através do Espírito Consolador (Jo.14:18-23). Na 2ª vinda ocorre uma inversão, pois primeiro o Senhor se manifestará secretamente apenas para a Igreja (na 1ª fase), e depois se manifestará visivelmente à Israel (Is.52:8; Mt.23:39; 24:27,30; Zc.12:10; At.1:11; Zc.14:4,9).

Desse modo os pré-milenistas crêem que a volta de Cristo (2ª fase) será precedida de certos sinais, como a pregação do evangelho à todas as nações (Mt.24:14; Ap.7:4; 14:1; 11:3; 14:6; Is.66:19; Veja Cl.1:6; 1:23; ITs.1:8) no período entre a 1ª e a 2ª fase da 2ª vinda, o qual a Bíblia chama de tribulação (Mt.24:21). Também haverá apostasia, guerras (Zc.14:13; Ap.6:3,4), fome (Ap.6:5), terremotos (Mt.24:29; At.2:19,20) e a manifestação do Anticristo (Mt.24:24; Ap.13:1-10) e do Falso Profeta (Ap.13:11-18), os quais juntamente com Satanás (o Dragão - Ap.12:9), formarão a "trindade satânica" (Ap.16:13), que enganarão as nações (Ap.13:13,14; IITs.2:9,10). Somente depois da manifestação do Anticristo, o "Homem da Iniquidade"(IITs.2:3) é que Jesus voltará, juntamente com os seus santos (Zc.14:5; Jd.14) para estabelecer o seu reino(Ap.11:15-18; Zc.14:9; Mt.25:34; 26:29). Durante a tribulação o evangelho será anunciado, mas a salvação será concedida com muitas tribulações, pois os santos que estiverem na terra serão perseguidos (Mt.24:13,22; Ap.13:7-10).

A volta de Cristo será seguida de um período de paz e justiça antes do fim do mundo. Jesus reinará na terra(Jr.23:5; Zc.14:9) pessoalmente como Rei dos reis (Ap.19:16; Sf.3:15; Zc.14:16). Ele estabelecerá um reino judaico, no qual Davi será Co-regente (Mq.5:2; Is.24:21-23; veja Ap.12:7; Ez.37:24-28; compare 20:33-35 com Ap.12:6,13,14). Neste tempo o tabernáculo de Davi será restaurado (At.15:16; Zc.6:13), e o próprio Jesus será ao mesmo tempo Rei, Sacerdote e Profeta (Mq.5:2; Zc.6:13).

Este reino não será estabelecido pela conversão de indivíduos durante um longo período de tempo, mas virá subitamente e com irresistível poder (IITs.1:7,8; Is.66:15,16). Os judeus que ficarem vivos, o Israel remanescente (Rm.11:5,26; Mq.5:7,8; Mq.2:12,13 Sf.3:13; Zc.13:1,8,9) se converterão e se tornarão sacerdotes do reino (Ex.19:6; Mq.4:1,2; Ob.21). A natureza participará das bençãos mileniais produzindo abundantemente (Is.30:23-26; 66:25). Este reino durará mil anos, e durante este tempo Satanás será aprisionado. Os salvos serão ressuscitados para reinarem com Cristo (Ap.20:1-4,6). Depois dos mil anos os mortos não crentes serão ressuscitados(a 2ª ressurreição) para serem julgados e condenados (Ap.20:5).

Este tipo de milenismo é chamado de dispensacionalista porque considera a era do milênio como sendo a última dispensação4 criada por Deus, e faz nítida distinção entre Israel e Igreja. Atualmente vivemos na Dispensação da Graça ou a Era da Igreja. No milênio teremos a Dispensação do Reino ou a Era do Milênio.



3. AS DUAS RESSURREIÇÕES:

O pré-milenismo defende que haverá duas ressurreições em etapas diferentes. A 1ª ressurreição ocorrerá antes do milênio, e esta tem várias fases; a 2ª acontecerá depois do milênio, e será apenas para os perdidos. Essa maneira de interpretar exige que o verbo grego ezhsan (ezêsan = viveram) usado em Ap.20:4,5 seja entendido no sentido literal. Interpretar o primeiro "viveram"(v.4) como sendo espiritual (novo nascimento), e o segundo "viveram"(v.5) como sendo literal (ressurreição corporal) é algo que foge à boa hermenêutica.

Ladd também refuta a interpretação espiritual, citando as palavras de Henry Alford: "Se, numa passagem onde duas ressurreições são mencionadas, onde algumas psychai ezêsan primeiro, e o resto dos nekroi ezêsan só no final de um período específico depois dos primeiros, se uma passagem como essa a primeira ressurreição pode ser entendida como uma ressurreição espiritual com Cristo, enquanto que a segunda significa ressurreição literal, dos sepulcros, então acabou-se toda a significação da linguagem, e a Escritura é anulada como testemunho definitivo sobre qualquer coisa".5

A interpretação literal deve ser adotada para as duas ocorrências do verbo. O grego ezhsan (ezêsan = viveram), pode de fato ser interpretado no sentido espiritual, como em Jo.5:25 e Ef.2:1-6, mas também é usado nas Escrituras com o sentido literal. Em Ap.2:8 e 13:14 o mesmo verbo é empregado para se referir à ressurreição corporal de Cristo e da besta. Portanto Ap.20:4,5 não deve ser interpretada de forma análoga a Jo.5:25, de modo nenhum.

Há ainda outras referências bíblicas que tratam da ressurreição, que, examinadas acuradamente, hão de demonstrar a existências de duas ressurreições literais. O Dr. Pentecost, em seu livro Eventos do Porvir argumenta a este respeito com incrível habilidade. Vejamos o que ele tem a dizer sobre o assunto:



3.1 A Ressurreição para a Vida:

"A ressurreição para a vida. Há um número de passagens que ensinam esta parte distintiva do programa da ressurreição.

"'...e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos'(Lc.14:14).

"'Para o conhecer e o poder da sua ressurreição e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para de algum modo alcançar a ressurreição dentre os mortos' (literalmente: a ressurreição, a dentre os mortos) (Fp.3:10,11).

"'Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição'(Hb.11:35).

"'Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele os mil anos'(Ap.20:6).

"Estas referências mostram que há uma parte do programa da ressurreição que se chama 'a ressurreição dos justos', 'a ressurreição de entre os mortos', 'uma ressurreição superior', 'a ressurreição da vida', e a 'primeira ressurreição'. Estas frases sugerem uma separação; uma ressurreição de uma parte daqueles que estão mortos, ressurreição que deixa alguns mortos... Blackstone disse:

'Agora, se Cristo vem ressuscitar os justos mil anos antes que os ímpios, seria natural e imperativo, chamar a primeira ressurreição uma ressurreição de, ou dentre os mortos, visto que o resto dos mortos ficaram para trás... isto é exatamente o que cuidadosamente se faz na Palavra... Consiste no uso que se faz, no texto grego, das palavras... (ek nekron)'.

"'A ressurreição ...nekron (...dos mortos), se aplica a ambas as classes, porque todos serão ressuscitados. Mas a ressurreição ...ek nekron (...de entre os mortos), nenhuma vez se aplica aos ímpios. Esta última expressão se usa 49 vezes, a saber: 34 vezes para expressar a ressurreição de Cristo, de quem sabemos que foi ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes para expressar a suposta ressurreição de João, que, como cria Heródes, foi assim ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes para expressar a ressurreição de Lázaro, que também foi ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes se usa figuradamente, para expressar vida espiritual dentre os mortos por causa do pecado (Rm.6:13; 11:15; Ef.5:14). Se usa em Lc.16:31 'ainda que ressuscite alguém dentre os mortos'; e em Hb.11:19, a fé de Abraão em que Deus podia ressuscitar a Isaque 'dentre os mortos'.

"'E as restantes 4 vezes se usa para expressar uma ressurreição futura dentre os mortos, a saber, Mc.12:25 '...quando ressuscitarem de entre os mortos...'', Lc.20:35,36 '...a ressurreição dentre os mortos...', At.4:1,2 '...a ressurreição dentre os mortos...'

"'E em Fl.3:11 ... a tradução literal é a ressurreição para fora de entre os mortos, construção peculiar da linguagem que inclui a idéia de que esta é uma ressurreição de entre os mortos.

"'Estas passagens claramente mostram que está por efetuar-se uma ressurreição de entre os mortos; isto é, que parte dos mortos serão ressuscitados, antes que todos sejam ressuscitados. Olshausen declara que a 'a expressão seria inexplicável se não se derivasse da idéia de que de entre a massa dos mortos alguns se ressuscitarão primeiro'.6

"Esta ressurreição, geralmente chamada a primeira ressurreição, também pode ser chamada a ressurreição da vida... (Jo.5:29)".7



3.2 A Ressurreição para a Condenação:

"A ressurreição para condenação. A Escritura prediz outra parte do programa de ressurreição que trata com os perdidos. É a segunda ressurreição, ou a ressurreição da condenação.

"'...e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juizo'(Jo.5:29).

"'Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos...'(Ap.20:5).

"'Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono... Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia...'(Ap.20:11,12,13).

"Porquanto a primeira ressurreição se efetua antes que comece o reinado de mil anos (Ap.20:5), 'os mortos' a que se refere Ap.20:11,12 só podem ser aqueles que ficaram para trás na ressurreição de entre os mortos e são aqueles que serão ressuscitados para a condenação. A segunda ressurreição, melhor definida como a ressurreição da condenação, inclui a todos os que serão ressuscitados para a condenação eterna. Não é a cronologia o que determina quem está incluído na segunda ressurreição, mas sim o destino dos ressuscitados".8



3.3 O Tempo das Ressurreições:

"Há várias passagens que geralmente se usam para ensinar a falsa doutrina de uma ressurreição geral. A primeira destas está em Dn.12:2,3, onde o profeta escreve:

"Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno. Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas sempre e eternamente.

"Nenhuma distinção quanto ao tempo parece haver aqui e, portanto, se conclui que se ensina uma ressurreição geral. Tregelles habilmente comenta sobre esta passagem:

"'Eu não duvido que a tradução correta deste versículo é... E muitos dentre os que dormem no pó da terra ressuscitarão, estes ressuscitarão para a vida eterna, mas os outros (o resto dos que dormem, aqueles que não ressuscitam neste tempo) para vergonha e horror eterno. A palavra que na Versão Autorizada em Ingles traduz duas vezes alguns, nunca se repete em nenhuma outra passagem da Bíblia Hebraica, no sentido de tornar distributivamente qualquer classe geral que haja sido previamente mencionada; isto é suficiente, eu creio, como garantia para que apliquemos a primeira vez a todos os que ressuscitam, e a segunda, a massa dos que dormem, àqueles que não ressuscitam neste tempo. É claro que não é uma ressurreição geral, mas sim muitos dentre; e só tomando as palavras neste sentido, obteremos alguma informação acerca do que sucederá aos que continuam dormindo no pó da terra'.

"Esta passagem tem sido entendida pelos comentaristas judaicos no sentido que se há mencionado. Claro que estes homens, que têem o véu em seus corações, não são guia algum quanto ao uso do Antigo Testamento, mas são uma ajuda quanto ao valor gramatical e lexicográfigo de orações e palavras. Dois dos rabinos que comentaram sobre este profeta foram Saadiah Haggaon (no século X de nossa era), e Aben Ezra (no século XII); este último foi um escritor de habilidades peculiares e precisão mental. Ele explica este versículo da seguinte maneira:

"'...sua interpretação é: aqueles que ressuscitam serão para a vida eterna, e aqueles que não ressuscitam serão para vergonha e horror eterno...'9

"Deve-se concluir que o profeta está afirmando o fato da ressurreição e a universalidade da ressurreição, sem afirmar o tempo específico no qual terão lugar as partes da ressurreição.

"Uma segunda passagem frequentemente usada para sustentar a idéia de uma ressurreição geral é Jo.5:28,29. O Senhor disse:

"Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juizo.

"Se afirma que o uso que fez o Senhor da palavra 'hora' requer uma ressurreição geral tanto dos salvos como dos não salvos. Sem dúvida, esta palavra não implica necessariamente tal programa geral de ressurreição. Harrison escreve:

"'Deve-se admitir, sem dúvida, que a linguagem não demanda coincidência nas ressurreições. O uso da palavra (hora) em Jo.5:25 permite sua extensão a um largo período. O mesmo é verdade em Jo.4:21,23. Jesus está falando no estilo dos profetas do Antigo Testamento, que agrupavam, sem diferenciação de tempo, os eventos que eles vislumbravam no distante horizonte da história. O mesmo método se encontra nos discursos escatológicos de Jesus, nos Evangelhos Sinópticos, onde a predição da queda de Jerusalém com suas consequências, dificilmente pode desarrolar-se da descrição do mui distante evento que está relacionado com a Grande Tribulação. Algo paralelo, ainda que em uma categoria diferente, é a maneira inclusiva em que Jesus fala da vivificação espiritual e física em uma só declaração. Um exemplo é Jo.5:21'.10

"O Senhor, nesta passagem, está ensinando a universalidade do programa da ressurreição e as distinções dentro deste programa, mas não está ensinando o tempo no qual as várias ressurreições terão lugar. Achar que esta passagem assim não ensina é perverter sua intenção original.

"Em Apocalipse 20:4-6 se declara mui bem que as duas partes do programa da ressurreição estão separadas por um intervalo de mil anos. (...) Se observa que a primeira parte deste versículo 5, mas os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos, é uma declaração entre parêntesis, que explica o que sucede aos que são deixados nos domínios da morte quando se cumpre a primeira ressurreição na segunda vinda de Cristo. Esta passagem ensina que transcorrerão mil anos entre a primeira ressurreição, a ressurreição da vida, e a ressurreição do resto dos mortos, a qual, segundo Apocalipse 20:11-13, é a ressurreição da condenação. A única maneira de se olvidar do evidente ensino desta passagem, é espiritualizando-a, de modo que a passagem não fale de ressurreição física, mas sim da bem-aventurança das almas que estão na presença do Senhor. Acerca desta interpretação, escreve Alford:

"'...não posso consentir que se tergiversem a estas palavras seu claro sentido e lugar cronológico na profecia, devido a qualquer considerações de dificuldade, ou qualquer risco de abusos que a doutrina do milênio pode trazer consigo. Os que viveram próximo dos apóstolos, e toda a Igreja, durante trezentos anos, a entenderam em seu claro sentido literal... Se a primeira ressurreição é espiritual, então a segunda também é, na qual eu suponho que ninguém será tão tolo para sustent e muitos dos melhores expositores modernos, eu em verdade sustento e recebe como um artigo de fé e esperança.11

"Deve-se concluir que, ainda que não há nenhuma revelação clara no Antigo Testamento com respeito a relação de tempo das duas partes do programa de ressurreição, o Novo declara que a ressurreição da vida e a ressurreição do juizo estão separadas por um lapso de mil anos."12



3.4 O Programa da Ressurreição:

"O apóstolo Paulo nos dá uma amostra dos eventos do programa da ressurreição em I Co. 15:

"'Porque assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo o principado, bem como toda potestade e poder.'(ICo.15:22-24).

"Que há uma divisão no programa da ressurreição se sugere na frase, 'cada um, porém, por sua própria ordem (v.23). A palavra ordem (tagma = tagma), de acordo com Robertson e Plummer 'é uma metáfora militar: companhia, tropa, patrulha ou bando. Devemos pensar em cada corps ou corpo de tropa que vem em sua própria posição e devida ordem...'13 As partes da ressurreição são como os batalhões em marcha em um desfile de triunfo bem organizado...'

"Nesta ordem de sucessões do desfile da ressurreição, Cristo é reconhecido como o líder da batalha ou 'primícias' da colheita, que promete uma grande abundância de frutos semelhantes que seguirão no tempo designado da colheita. Esta fase do programa da ressurreição se cumpriu no tempo da ressurreição de Cristo, e marca o começo de todo este programa da ressurreição.

"Um segundo grupo se introduz com a palavra 'logo'. Esta palavra (epeita = epeita) significa um lapso de tempo de duração não designada. Edwards comenta: 'Ele não disse que um evento segue ao outro imediatamente... Há uma amplitude aqui para cobrir o lapso de tempo entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos que são de Cristo na sua vinda'.

"Tem havido diferença de opiniões quanto a quem são os do segundo grupo. alguns tomam a expressão os que são de Cristo (oi tou cristou = hoi tou Christou) e a fazem sinônimo da expressão em Cristo (en to cristo = en to Christo) do versículo 22. Este último seria a expressão técnica que declara a relação dos santos com Cristo nesta era presente. Portanto, se conclui que esta é uma ressurreição da Igreja que se menciona em I Ts.4:16. Este ponto de vista se apóia em referência à palavra vinda (parousia), que com frequência se aplica ao arrebatamento da Igreja. Paulo estaria assim declarando que o segundo grande grupo do desfile da ressurreição seria o daqueles que hão de ressuscitar nesta era presente, no arrebatamento da Igreja. Podem declarar, ademais, os que sustentam este ponto de vista, que Paulo não menciona aqui a ressurreição dos santos da tribulação, nem dos santos do Antigo Testamento. Sem dúvida, porquanto Paulo está dissertando sobre o programa da ressurreição, pareceria estranho que aqueles grupos importantes fossem omitidos. Seria melhor tomar o ponto de vista alternativo da que a expressão os que são de Cristo é uma referência técnica a todos os redimidos, tanto da Igreja, como do período do antigo Testamento, e o período da tribulação, todos os quais serão levantados na vinda de Cristo. A palavra vinda, pois, seria tomada em seu mais amplo sentido, que é aplicado ao segundo advento com todo o seu programa, e não ao arrebatamento somente. Desta maneira Paulo estaria dizendo que o segundo grande grupo seriam os santos de todos os tempos, que serão ressuscitados, porque pertencem a Cristo e que isto se cumpriria no tempo da segunda vinda.

"Há um vigoroso debate entre os expositores quanto ao significado da expressão então virá o fim (v.24). Alguns crêem que a palavra ressurreição deve agregar-se à ela (então virá o fim da ressurreição), de maneira que Paulo está falando do cumprimento do programa da ressurreição, com aressurreição de todos os mortos não salvos ao final dos mil anos. Outros crêem que aqui não há nenhuma referência aos não salvos, mas sim que Paulo ensina que a ressurreição será seguida do fim desta era presente (então virá o fim desta era), como em Mateus 24:6,14; Lucas 21:9. O problema se resolve mediante a interpretação da relação entre os dois usos da palavra 'todos' no versículo 22. São coextensivos ou não?

O primeiro ponto sobre a questão sustêm que o 'todos' que em Adão morrem não são os mesmos 'todos' que em Cristo serão vivificados. Os defensores desta posição interpretam que o versículo ensina que todos os que estão em Adão morrem, a ressurreição que se descreve aqui inclui somente os salvos que estão 'em Cristo', e 'o fim', portanto, deve referir-se ao fim desta era. Harrison resume os argumentos sobre esta posição quando escreve:

"'A interpretação do versículo 22, que geralmente se cita para sustentar esta construção, considera que o segundo (pantes = todos) é coextensivo com o primeiro. O todos é universal em ambos os casos. É precisamente neste ponto onde começam as dificuldades para obstruir este ponto de vista. Como temos observado... a palavra zwopoihqhsontai (zoopoiethesontai ) é um termo demasiado forte, demasiado complexo espiritualmente, para aplicá-lo a todos os homens. O termo natural para uma classe de ressurreição que incluiria a todos seria (eghrestai = egeresthai). As palavras em Cristo não podem ter uma significação menor do que têem as palavras em outras partes. Se refere a mais íntima e potente relação de salvação com Cristo. Os incrédulos não estão classificados como tais. Meyer e Godet estão no caminho errado ao supôr que (em Cristo) tem aqui um sentido diluído que permite sua aplicação a todos os incrédulos. Tal aplicação requereria (dia christou) em vez de (en christo). Uma segunda dificuldade é o fato de que toda a discussão ao largo do capítulo tem em mente somente os crentes. Pelo menos nada se disse definitivamente sobre qualquer outro. Em terceiro lugar, o contexto imediato não é favorável. Paulo concentra a atenção de seus leitores em Cristo como as Primícias dos mortos cristãos. Tanto a palavra (aparch = aparche = primícias) como o verbo (koimaw = koimao = dormir) correspondem só aos crentes. Cristo não é as primícias dos outros, já que necessariamente teriam que ser completamente semelhantes a Ele em sua ressurreição. Logo, também, os mortos não cristãos não dormem. Eles morrem. Uma quarta dificuldade se apresenta no uso não natural e sem precedentes de (telo = télos), que esta construção requer. A palavra significa fim no sentido absoluto de terminação. Ocasionalmente se usa no sentido de propósito ou finalidade. Mas seu uso como o equivalente de um adjetivo (fim da ressurreição)'.

"Este mesmo ponto de vista é o que sustenta Vine, o qual disse:

"'...como Adão é a cabeça da raça natural e, em virtude desta relação natural com ele, a morte é a sorte comum dos homens, assim também pela razão de que Cristo é a Cabeça da raça espiritual, todos os que possuem relação espiritual com Ele serão vivificados. Não há idéia alguma sobre a universalidade da raça humana, em comparação da segunda declaração com a primeira. Que os incrédulos estão em Cristo é algo completamente contrário ao ensino da Escritura... portanto, só os que chegam a ser novas criaturas e possuem vida espiritual, e estão assim em Cristo, em sua experiência de vida presente, estão incluídos no todos da segunda declaração, e serão vivificados'.

"Desta maneira, de acordo com este ponto de vista, Paulo tem em mente duas grandes etapas no programa da ressurreição: a ressurreição de Cristo, e a ressurreição de todos os que são de Cristo, que incluiria os santos da igrjea, os santos da tribulação, e os santos do Antigo Testamento, que serão levantados no tempo da segunda vinda, ressurreição que seria seguida do fim desta era.

"Há, ainda, alguns que, ao interpretar esta passagem, entendem que Paulo está incluindo o fim do programa da ressurreição em seu ensino. Por conseguinte a expressão 'em Cristo', se entenderia como instrumental, por Cristo. Robertson e Plummer dizem:

"'Paulo estava pensando em uma terceira ordem (tagma), aqueles que não são de Cristo, que seriam ressuscitados dos mortos num tempo antes do fim...''.

"Feinberg escreve: 'O contexto nos fala de ressurreição, e se refere a ressurreição final segundo um número de comentaristas. Com estes últimos estamos de acordo. O apóstolo está mostrando que haverá várias etapas definidas na ressurreição dos mortos. Primeiro Cristo, as primícias; segundo os que são de Cristo em sua vinda; terceiro a ressurreição final de todos os incrédulos'.

"Pridham declara a ordem assim: '...o apóstolo está distribuindo a grande obra da ressurreição, como uma manifestação do poder divino, em três atos grandemente definidos e separados: 1. A ressurreição do Senhor Jesus; 2. O despertamento de todos os santos em sua vinda; 3. A desocupação final de todos os sepulcros ao término da administração do Reino do Filho, quando os mortos não incluidos na primeira ressurreição serão ressuscitados, tanto pequenos como grandes, para juízo diante de Deus'.

"Porquanto a palavra fim (télos), em seu uso básico, se refere ao fim de um ato ou de um estado e tem a ver com a terminação de um programa seria preferível entender que Paulo está incluindo a ressurreição final, no desfile dos grupos que aqui se descrevem.

"Deve-se observar uma vez mais que Paulo está prevendo um intervalo de tempo entre a ressurreição dos que são de Cristo e o fim, seja este o fim da era ou o fim do programa da ressurreição. Vine disse: '...a palavra que se traduz então não é (tote = tóte), imediatamente logo, mas sim (eita =eita = depois), que indica ordem cronológica, logo, depois de um intervalo, como por exemplo em Mc.4:17,28 e os versículos 5 e 7 de ICo.15. O intervalo que se indica aqui, no versículo 24, é aquele durante o qual o Senhor reinará em seu Reino Milenário de justiça e paz.''"



4. PROFECIAS DO ANTIGO TESTAMENTO:

O método de interpretação utilizado no pré-milenismo dispensacionalista é o histórico-gramatical. Isto significa que as palavras devem ser entendidas em seu sentido histórico e gramatical; devem ser entendidas literalmente. Se este método é empregado na interpretação de doutrina, história e outras partes da Bíblia, porque às profecias deveriam ser entendidas alegoricamente? O método de interpretação literal simplifica e facilita o entendimento das Escrituras, além de incorporar toda a Bíblia à elaboração de um sistema de teologia.

A literalidade das Escrituras deve ser sustentada como único e mais legível método de interpretação bíblica. Quando a Bíblia usa "pedra" ela quer dizer pedra e não "pau". Se Deus quisesse dizer "pau" teria usado este termo, ou um sinônimo (madeira), mas não o fez porque Deus não é Deus de confusão e, portanto, disse exatamente aquilo que pretendia dizer. Portanto a literalidade deve ser sustentada em todos os textos onde sua aplicação for possível, inclusive às profecias. Deve-se excluir a interpretação literal somente em casos absurdos, como por exemplo João 10:9. É claro que Jesus não é uma porta, com ferrolhos e fechadura, mas sim o Mediador que oferece aos homens o acesso a Deus. Esta passagem, portanto, deve ser entendida alegóricamente ou espiritualmente.

Se o alegorismo for sustentado, cria-se uma amplitude de possíveis interpretações, e a Escritura perde a sua autênticidade. Por exemplo, "pedra" pode ser interpretado de diferentes maneiras, se à ela for aplicado o método alegórico. Pedra pode ser "pau", como pode ser "ferro", e assim por diante.

É claro que não excluimos a existência da interpretação espiritual, mas ressaltamos a predominância da interpretação literal sobre o espiritual.



4.1 Cumprimento Pleno:

Como se explicam aquelas profecias do Antigo Testamento que foram aplicadas com sentido espiritual pelo Novo Testamento? Deve-se proclamar, em alto e bom som, que todas elas, com excessão de uma, tiveram seu cumprimento literal no tempo do Antigo Testamento. É o caso, por exemplo de Isaías 7:14 que predisse o nascimento de uma criança que serviria como sinal para o rei Acaz. Esta profecia cumpriu-se no século VIII antes de Cristo. "Mateus, porém, achando um sentido mais completo e profundo no versículo e também ajudado pelas traduções do grego parthenos ou virgem na LXX (versão grega do A.T.), como também o nome Emmanuel, argumenta que o nascimento de Jesus é o cumprimento daquilo que o profeta havia dito (Mt.1:23)".

Um estudo meticuloso das profecias nos mostrará que não são poucas as ocorrências desse tipo. Este fenômeno da interpretação profética recebe o nome de "sensus plenior (sentido mais completo além do literal), no qual o N.T. vê um cumprimento básico e mais profundo que Deus queria comunicar".

É óbvio que somente aos escritores do N.T., que foram movidos pelo Espírito Santo, foi dada a autoridade de fazer tais "reinterpretações" do texto literal do A.T. O que se verifica hoje, entre os defensores da interpretação alegórica, é um verdadeiro abuso do uso do sensus plenior, quando aplicam profecias do A.T. que dizem respeito ao Israel literal, à Igreja, no sentido espiritual. É o caso, por exemplo de Os.11:1, que históricamente se refere ao povo de Israel no Egito, mas no N.T. foi aplicado a Jesus Cristo (Mt.2:15).

Um outro exemplo de sensus plenior é encontrado em Ml.4:5 referente a vinda de Elias. O Senhor aplicou esta profecia a João Batista (Mt.17:10-13). Entretanto, se considerarmos a literalidade das profecias, então devemos entender que o profeta Elias deverá vir pessoalmente antes do retorno de Jesus. Observe que Jesus afirma isto ao aplicar a profecia de Malaquias a João Batista: "Então Jesus respondeu: De fato Elias virá e restaurará todas as cousas."(Mt.17:11). Esta interpretação parece concordar com Ap.11:3-12 onde são mencionadas as duas testemunhas.

Uma passagem bastante interessante encontra-se em Hebreus 7, onde o autor faz a interpretação do nome Melquisedeque. Podemos notar na passagem em aprêço que ele faz primeiramente a interpretação histórico-gramatical: "...para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo, primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém, ou seja rei de paz."(Hb.7:2). Conforme Gn.14:18, Melquisedeque era rei de Salém, mas este não é o sentido gramatical do nome hebraico, mas sim a interpretação de um fato histórico, que foi aplicado ao sacerdócio de Jesus Cristo. O que ocorre é uma interpretação secundária do nome Melquisede, porque em Cristo "a justiça e a paz se beijaram" (Sl.85:10).

Melquisedeque era um rei, humano e mortal, que viveu nos tempos de Abraão. Contudo sua figura foi aplicada ao Senhor Jesus. De maneira semelhante a Bíblia aplica o nome de Israel - o povo de Deus - ao Messias (Is.49:3). Esta aplicação é teologicamente compreensível. O que está em foco nesta passagem é a grande doutrina da substituição, ensinada pelo N.T., na qual Jesus substituiu o seu povo, e por quem foi sacrificado(Is.53:4,5,11; Jo.11:50-52; Jo.12:23-28). No que se refere a Israel (Jacó, Is.41:8;48:20) ser chamado de servo, e Jesus igualmente em Is.53:11, deve ser notado e ressaltado que no texto de Isaías o Servo de Jeová é chamado de Justo: "o meu servo, o Justo..."(Is.53:11). Outras profecias que tratam de Jesus como Servo, apresentam também uma ou mais de suas qualidades como Messias. É o caso de Is.42:1.

Outra passagem que nos convém comentar, frequentemente usada pelos defensores do alegorismo, é a de Jeremias 31:33,34. Dizem eles que esta profecia dada à Israel foi interpretada pelo autor de Hebreus como se referindo à Nova aliança promulgada com o sangue de Cristo, a favor da Igreja (Hb.8:8-12). Ora, o que ocorre aqui, é o mesmo fenômeno encontrado, por exemplo, em Os.11:1, cuja passagem bíblica se refere tanto a Israel, no passado, como a Cristo em sua época. A profecia de Jeremias se aplica, no presente, à Igreja (Hb.10:14-18), mas, num tempo ainda vindouro, ao povo de Israel (Hb.8:8-12). Nesse tempo, para a nação de Israel, a ordem de Arão será substituida pela ordem de Melquisedeque (Hb.7:11-19; Hb.9:11-15; Is.66:20-23; Mq.4:2).

Turner apresenta as três interpretações para o Novo Pacto:

"O Dr. J. N. Darby, dos 'Irmãos', ensina que a Igreja tem uma relação com o sangue de Jesus Cristo que é a base para toda a ação de graça da parte de Deus. Mas não vê senão um só 'Novo Pacto' na Bíblia: o de Jeremias e o do Novo Testamento também. Considera que o evangelho não é um pacto, mas uma revelação da salvação de Deus. Que não participamos da letra do Novo Pacto porque é com Israel, e será estabelecido no milênio; porém, como ele é alicerçado no sangue de Cristo, podemos em espírito gozar de bençãos semelhantes, pelo mesmo sangue.

"Outra interpretação é a do Dr. C. I. Scofield, na qual ele ensina que o Novo Pacto em Jeremias é com a casa de Israel, e será cumprido através da sua benção no futuro, mas que também tem uma aplicação em referência aos crentes de hoje. É chamado o conceito da aplicação dupla. Como o sangue de Cristo é o sangue do Novo Pacto, e na comunhão participamos do cálice em memória dele(ICo.11:25), crê-se que nós, crentes, beneficiamo-nos do Novo Pacto, como concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef.2:19), e não como membros da cidadania de Israel (Ef.2:12).

"A terceira interpretação é a mais simples, chamada a dos dois pactos, e conhecida por ser proposta pelo Dr. L. S. Chafer. Diz que o Novo Pacto de Jeremias 31 é com a casa de Israel, e será estabelecido no porvir. Há também um outro Pacto Novo em o Novo Testamento, que foi celebrado com a Igreja, e se está cumprindo todos os dias. Este conceito demanda uma divisão de todas as passagens neo-testamentárias entre aquelas que se referem ao pacto com Israel, isto é, o de Jeremias, e aquelas que fazem menção ao evangelho e à Igreja. Geralmente classificam-se como segue: Mt.28:26; Mc.14:24; Lc.22:20; ICo.11:25; IICo.3:6; Hb.8:6; Hb.9:15; Hb.10:29 e Hb.13:30 falam do Novo Pacto com a Igreja. Rm.11:26,27; Hb.8:7-13 e Hb.10:16 referem-se ao Novo Pacto com Israel; enquanto que Hebreus 12:24 simplesmente diz que Jesus é o Mediador do novo pacto por meio do seu sangue, que é mais eficaz do que o de Abel, sem designar qual pacto. é razoável considerar que ambos os pactos são mencionados, sendo que os dois dependem do sacrifício expiatório de Jesus Cristo."



4.2 Cumprimento Parentético:

O cumprimento parentético é outro fenômeno que devemos sempre considerar na interpretação das profecias. Algumas profecias agrupam num só conjunto diversas previsões, sendo algumas contemporâneas ao tempo do profeta que as proclamou, ou próximas ao seu tempo, e outras para o tempo futuro. Verifica-se, nesse caso, um lapso de tempo, um parêntesis, entre o cumprimento de uma previsão e outra. A este tipo de cumprimento é dado o nome de parentético.

Encontramos um exemplo de cumprimento parentético em Isaias 61:1,2. No versículo 1 até a primeira parte do versículo 2, até onde lemos "o ano aceitável do Senhor", encontramos uma previsão da 1ª vinda de Jesus, sendo que o restante do versículo, só terá cumprimento por ocasião da 2ª vinda de Jesus. Quando o Senhor leu este trecho na sinagoga de Nazaré, Ele o fez com muita habildade (Lc.4:18,19). Note que Jesus não prosseguiu na leitura do profeta. Ele leu apenas até onde sabia que a profecia iria se cumprir. Depois Ele fechou o livro (Lc.4:20). O restante da profecia de Isaías: "o dia da vingança do nosso Deus"(Is.6l:2b), e a restauração de Sião (Is.6l:3-7), ficaram para o futuro. Aqui temos um caso típico de cumprimento parentético, pois há um parêntesis de tempo mui longo entre o cumprimento da primeira porção da profecia e o da segunda.

Um outro exemplo de cumprimento parentético é encontrado em Joel 2:28-32. O apóstolo Pedro aplicou esta profecia à descida do Espírito Santo, no dia de pentecoste (At.2:16-21). Ao ler o livro de Atos, todos concordam que já estamos vivendo os últimos dias. Porém ninguém é tolo o suficiente par afirmar que a parte desta profecia, onde diz que o sol se converterá em trevas e a lua em sangue, já se cumpriu. Tal previsão está para o futuro (At.2:19-21; Mt.24:29; Ap.6:12).

Uma profecia de grande importância para demonstrar de vez esse ponto de vista, é a profecia das Setenta Semanas de Daniel. Esta profecia será estudada, detalhadamente, em nosso próximo capítulo.



CAPÍTULO VII - AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL



1. AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL:

Quando Daniel recebeu a profecia das 70 Semanas (Dn.9:20-27) seu povo estava cativo na Babilônia. Nabucodonosor tinha desolado totalmente a Cidade de Jerusalém (IICr.36:17-21). Segundo as profecias essa desolação deveria durar setenta anos (IICr.36:21; Jr.25:11; Dn.9:1,2). Conforme determinava a lei de Moisés (Lv.25:2-7) a terra deveria gozar de um sábado, um descanso, a cada sete anos. Era um período especial de instrução sobre a lei de Deus (Dt.31:10-13). Por desobediência a este preceito da lei, sobreveio à Israel o castigo divino, 70 anos de cativeiro babilônico, período que corresponde aos anos nos quais o povo judaico deixou de observar o ano sabático (IICr.36:21).

O profeta Daniel, percebeu pelo estudo dos livros que os 70 anos estava chegando ao fim (Dn.9:2). O Dr. Ryrie diz que os 70 anos, que teve início em 605 a.C., teve seu fim em 535 A.C.1 Mas Daniel tinha em mente os 70 anos do cativeiro babilônico (Jr. 25:11; Zc.7:5). Ao receber a resposta de sua oração, o anjo Gabriel trouxe-lhe novas revelações sobre as 70 semanas. Disse-lhe o anjo: "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo..."(Dn.9:24). Esta profecia não tem nenhuma relação com os 70 anos do cativeiro babilônico que já se cumpriram. O cativeiro durou 70 anos, esta profecia acrescenta 490 anos de desolação sobre Israel.

A palavra hebraica traduzida por semanas, aqui em Dn.9:24, é shabua que significa sete. Este sete se refere a sete dias ou sete anos, conforme o calendário judaico, o período de uma semana. Portanto a tradução literal deste texto seria: "setenta setes estão determinadas..." Para os judeus uma semana poderia ser "uma semana de dias" (Dn.10:2,3), ou "uma semana de anos"2 . O Dr. Mc'Clain dissertando sobre o período de jejum de Dainel, escreve: "É significativo que aqui o hebraico lê 'três setes de dias'. Se no nono capítulo o escritor quisesse que entendêssemos os 'setenta setes' como de dias, porque não empregou o mesmo modo de expressão adotado no capítulo dez? A resposta é evidente: Daniel só empregou shabua, quando se referia à bem conhecida 'semana de anos', uso costumeiro, que todo judeu entenderia; mas, no capítulo dez, ao falar das 'três semanas' de jejum, ele as especifica como 'semanas de dias' a fim de distinguí-las das 'semanas de anos' no capítulo nove. E se as 'semanas' do capítulo nove fossem compostas de dias, não haveria nenhuma razão de ele ter mudado a forma hebraica no capítulo dez".3

A idéia de 'semana de anos' soa um tanto estranho aos nossos ouvidos, mas é algo com que os judeus estavam bem familiarizados. Lemos em Gênesis que Jacó trabalhou 7 anos por Lia e, depois, mais sete anos por Raquel (Gn.29:21-30). Note que neste texto Labão fala dos sete anos de trabalho de Jacó como sendo semanas: "Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás."(Gn.29:27). Outro texto bíblico onde aparece a expressão 'semanas de anos' encontra-se em Levítico: "Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos; de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos."(Lv.25:8). Há ainda uma outra profecia, que nada tem a ver com as setenta semanas, mas serve também para esclarecer esta questão. Trata-se da profecia do exílio proclamada pelo profeta Ezequiel: "Porque eu te dei os anos da sua iniquidade, segundo o número dos dias... Quarenta dias te dei, cada dia por um ano..."(Ez.4:5,7). Notamos aqui que cada dia representa um ano. Se uma semana tem sete dias, então uma semana de anos tem sete anos. Portanto a profecia de Daniel fala de um período de 490 anos (setenta setes, ou seja 70 x 7 = 490).

Essas passagens demonstram claramente que as 70 Semanas de Daniel são semanas de anos. Mas se são semanas de anos, qual será a duração de cada ano? Há evidência suficiente na Bíblia que demonstra que o ano judaico é equivalente a um período de 360 dias, ou doze meses de 30 dias. Mais uma vez citaremos os argumentos apresentados pelo Dr. Mac'Clain:

"O primeiro argumento é histórico. Conforme a narrativa de Gênesis, o dilúvio começou no décimo-sétimo dia do mês segundo (7:11), e terminou no décimo-sétimo dia do mês sétimo (8:4). Isto é precisamente um período de cinco meses e felizmente a duração do mesmo período é dada em dias - 'cento e cinquenta dias' (7:24; 8:3). Assim o primeiro mês conhecido na história bíblica era de 30 dias, e doze meses nos dariam uma ano de 360 dias.

"O segundo argumento é profético e absolutamente conclusivo, porque se baseia numa medida incluída na própria profecia das setenta semanas sob discussão. Dn.9:27 menciona um período de perseguição aos judeus pelo príncipe vindouro que fará uma aliança com eles. Desde que esta perseguição começa 'no meio' da septuagésima semana e continua até o fim da semana, o período é obviamente de três anos e meio. Dn.7:24-25 fala do mesmo príncipe romano e da mesma perseguição, fixando a duração como 'tempo, tempos e metade dum tempo' no aramaico, três tempos e meio. Ap.12:4-7 fala do mesmo grande regente político e sua perseguição aos santos judaicos, durando 'quarenta e dois meses'. Ap.12:13,14 se refere à mesma perseguição, declarando a duração nos mesmos termos exatos de Dn.7:25 como 'tempo, tempos e metade dum tempo'; e este período é ainda mais definido em Ap.12:6 como 'mil duzentos e sessenta dias'. Assim temos o mesmo período de tempo variadamente apresentado como 3 ½ anos, 42 meses, ou 1.260 dias. De onde se vê claramente que a duração do ano nas setenta semanas da profecia é fixado pelas Escrituras como precisamente 360 dias".4

Esclarecendo ainda sobre a expressão "tempo, tempos e metade dum tempo" que aparece em aramaico em Dn.7:25, o Dr. Mac'Clain argumenta: "O livro de Daniel contém uma parte escrita em aramaico (Dn.2:4 - 7:28). Embora a palavra aramaica traduzida 'tempos' em 7:25 não seja dupla mas plural em forma, sem dúvida o plural aqui tem o significado de duplo... Isto é confirmado pela expressão paralela que ocorre em Dn.12:7, 'um tempo, tempos e metade dum tempo', onde a palavra 'tempos' é dupla na forma hebraica original".5



2. A SEXUAGÉSIMA NONA SEMANA:

Quando lemos a profecia de Daniel devemos observar alguns aspectos interessantes: (1) Toda a profecia trata do povo judaico: "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade..."(v.24). Veja Também Dn.10:14. (2) Dois príncipes são mencionados: o primeiro é o Messias (v.25), o segundo é "um prncipe que há de vir" (v.26). (3) As Setenta Semanas são divididas em três períodos: um período de sete semanas (v.25), outro de sessenta e duas semanas (vv.25,26), e um terceiro período de sete semanas (v.27). O primeiro e o segundo períodos juntos somam sessenta e nove semanas. (4) O início das Setenta Semanas é fixado como "desde a saída da ordem para restaurarar e para edificar Jerusalém" (v.25). (5) Ao fim das sessenta e duas semanas o Messias seria morto6 e Jerusalém destruída (v.26). (6) Após a 69ª semana o outro príncipe que há de vir (o Anticristo) fará uma aliança com a nação de Israel por uma semana. Aqui temos a última das 70 semanas, a septuagésima semana de Daniel (vv.26,27). (7) No meio da sepuagésima semana o príncipe violará a aliança com Israel: "fará cessar o sacrifício..."(v.27). (8) Ao findar as Setentas Semanas haverá um tempo de muitas benção para a nação de Israel (v.24).



2.1) Uma Profecia para Israel:

O texto é bem evidente. A profecia se refere à nação de Israel, o povo de Daniel, e tem relação com a santa cidade, Jerusalém. Os amilenistas e pós-milenistas, que recusam a idéia de uma grande tribulação para o povo de Israel, refutam esta interpretação dizendo que a septuagésima semana se cumpriu nos dias anteriores à destruição de Jerusalém ocorrida no ano 70 de nossa era, ou então interpretam-na espiritualmente, dizendo que ela se cumpriu na 1ª vinda de Jesus. Mas, conforme declara a profecia, as 70 semanas foram dadas: "...para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o santo dos santos."(v.24). Todas estas benção tem relação com Israel sobre quem vieram as 70 semanas. É claro que nenhuma delas se cumpriram ainda. Quando o Príncipe mencionado no verso 24, o Messias, veio à Israel, Ele foi rejeitado (Jo.1:11; Lc.19:14), e Israel tornou-se ainda mais o alvo dos castigos divinos. A iniquidade de Israel não foi expiada, pois somente o será quando esta nação reconhecer que o Jesus que eles rejeitaram é o Messias prometido. e isso só acontecerá no futuro, quando Jesus voltar (Zc.12:10; Mt.24:30; Os.5:15; Rm.11:25-27; At.2:36; 4:10; Lc.19:15). Portanto cremos que a última semana (a septuagéssima) ainda não se cumpriu. Isto estabelece um intervalo de tempo entre a 69ª e a 70ª semana de Daniel.







2.2) O Cumprimento da 69ª Semana:

Todos igualmente concordam que as sessenta e nove semanas de Daniel já se cumpriram sobre Israel. As 70 semanas tiveram seu início em 14 de março de 445 a.C., que foi a data que o rei Artaxerxes deu a ordem "para restaurar e edificar Jerusalém". Neemias registra o dia no qual essa ordem foi dada: "No mês de Nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes..."(Ne.2:1). Segundo a Enciclopédia Britânica o rei Artaxerxes subiu ao trono em 465 a.C. Desse modo seu vigésimo ano é 445 a.C. Para encontrar o final das sessenta e nove semanas, temos que reduzí-las a dias. Desde que há 69 semanas de 7 anos cada uma, e cada ano tem 360 dias, a equação à qual chegamos é 69 x 7 x 360 = 173.880 dias. Começando com 14 de março (mês de nisã) de 445 a.C., este total nos leva até 6 de abril de 32 a.D., a data em que Jesus entrou em Jerusalém. Este dia é aquele profetizado no Salmo 118:24-26, que apontava para a entrada triunfal de Jesus, quando os judeus clamavam "Bendito é o rei que vem em nome do Senhor"(Lc.19:38; Sl.118:26). Porque Eles rejeitaram o seu Rei (Lc.19:42), as benção do reino Messiânico que deveria trazer a paz, ficou adiada para o futuro (Is.9:6,7; Zc.9:9,10).

Para provar que os 173.880 dias são equivalentes ao período de 14 de março de 445 a.C. até 6 de abril de 32 a.D., é necessário fazer o cálculo pelo nosso próprio calendário:

445 a.C. até 32 a.D. = 476 anos

476 anos x 365 dias = 173.740 dias

173.740 + 116 dias (aumento de anos bissextos) = 173.856

173.856 + 24 dias (período de 14 de março de 445 a.C. até 6 de abril de 32 A.D.) = 173.880.

Este período de tempo do nosso calendário (476 anos = 173.880 dias) equivale aos 483 anos das 70 Semanas (7 + 62 = 69 e 69 x 7 = 483 anos). A profecia menciona 70 semanas, isto é 490 anos, mas somente 483 anos foram cumpridos. Resta ainda 7 anos (490 - 483 = 7), e este período restante é a septuagésima semana de Daniel, que se cumprirá na Grande Tribulação. Se esta última semana ainda não se cumpriu, então é porque há um intervalo entre a 69ª e a 70ª semanas. Desse modo a interpretação da profecia não é contínua, mas fica estabelecido o fenômeno do cumprimento parentético.



3. O INTERVALO ENTRE A 69ª E A 70ª SEMANA DE DANIEL:

Dois eventos deveriam acontecer após a 69ª semana: a morte do Messias e a destruição de Jerusalém. O segundo evento ocorreu após as sessenta e nove semanas, e não dentro delas: "Depois das sessenta e duas semanas..."(Dn.9:26). A história mostra que a destruição de Jerusalém ocorreu no ano 70 a.D. sob a invasão do general romano Tito. Portanto o segundo evento aconteceu quase 40 anos depois do primeiro, e o primeiro pôs fim a 69ª semana. Aqui há um detalhe interessante que deve ser observado. A profecia coloca a destruição de Jerusalém depois da 69ª semana, bem como a coloca antes da 70ª semana. Com essa evidência, observamos que a septuagésima semana não segue imediatamente à sexuagésima nona. Há pelo menos um intervalo de 38 anos (entre a morte de Cristo em 32 a.D. e a destruição de Jerusalém em 70 a.D.), e se há um intervalo de 38 anos, pode então haver um intervalo ainda maior. O período deste intervalo nós não sabemos quanto tempo durará, mas fica evidente que há esse intervalo de tempo entre as semanas. Até o nosso momento esse intervalo tem durado quase dois mil anos. É o período da dispensação da graça mencionada por Paulo (Ef.3:2,3), ou a dispensação do mistério (Ef.3:9; Rm.16:25; Cl.2:2; 4:2), ou período dos gentios (Ef.3:5,6; Rm.11:25; Lc.21:24; Ap.11:2). Terminando esse tempo, Deus voltará a tratar com Israel, na última das setentas semanas.



4. A SEPTUAGÉSIMA SEMANA:

Sem dúvida nenhuma a septuagésima semana é o período da Grande Tribulação (Mt.24:21), que há de vir sobre o mundo (Ap.3;10) e sobre Israel, para que se cumpra o restante da profecia de Daniel (Dt.4:26-31; Is.13:6-13; 17:4-11; Jr.30:4-9; Ez.20:33-38; Dn.12:1-4; Jl.3;9-11).

É nesse período que o povo de Israel será, através do sofrimento, purificado dos seus pecados. Então cumprir-se-á a profecia de Daniel: "...para fazer cessar a transgressão, para dar um fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o santo dos santos."(Dn.9:24). É nesse período que Israel sofrerá "dores de parto"7 (Is.66:8), a fim de que o remanescente fiel seja gerado. Alguns intérpretes relacionam isso à Miquéias 5:2,3 e Ap.12:4,5. A nação de Israel será perseguida, mas Deus lhe preparará um caminho de fuga (Zc.14:4,5 Ez.20:35; Ap.12:6). Esta perseguição terá início na metade da septuagésima semana. A profecia de Daniel diz que "o príncipe que há de vir"(Dn.9:27) fará uma aliança com Israel, mas no meio da semana romperá com esta aliança. Portanto para entendermos a tribulação devemos dividí-la em duas partes, como a própria Bíblia o faz.

O período completo da tribulação é de sete anos, divididos em 3 ½ cada parte. Isto fica bem claro nas profecias. O profeta Daniel menciona este período: "um tempo, dois tempos e metade de um tempo"(Dn.7:25). Literalmente temos a seguinte expressão: "um ano, dois anos e metade de um ano", o que equivale a três anos e meio. Esta mesma expressão também é usada em Apocalipse para se referir ao tempo da perseguição de Israel: "...e foram dadas à mulher (Israel) as duas asas da grande águia, para que voasse até o deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente."(Ap.12;14). Este mesmo período é identificado ainda como sendo 42 mêses(Ap.13:5) ou 1.260 dias (Ap.12:6). Este período é a segunda metade da tribulação, quando o Anticristo (o príncipe romano)8 se assentará sobre o trono do Messias "estabelecendo a abominação desoladora"(Dn.12:31; Mt.24:15; IITs.2:3,4).

Deve-se notar que a profecia é clara em afirmar que antes da septuagésima semana "haverá guerra; desolações são determinadas."(Dn.9:26). Isso deixa claro que a septuagésima semana ainda não se cumpriu, pois até agora Israel continua buscando a paz (Sl.122:6-9; Jr.23:5,6; Lc.19:42). A paz só virá quando Jesus o Principe da Paz retornar com poder e glória (Mt.24:29-31).

Na primeira metade, quando haverá uma paz aparente, o evangelho será pregado à todas as nações (Mt.24:14). As duas testemunhas, provavelmente Moisés e Elias, proclamarão a mensagem da salvação (Ap.11;3). Provavelmente os 144.000 serão evangelistas nesse período (Ap.7:9-14: 14:1).

Há muito mais que poderíamos comentar sobre as 70 Semanas de Daniel, mas as passagens que foram aqui examinadas, cremos, são suficientes para demonstrar a veracidade daquilo que chamamos de cumprimento parentético, ou que Delitzsch chama de "apotelesmática, isto é, vê logo em seguida o próximo grande evento da história, a culminância do fim".9

É digno de nota ressaltar que a profecia de Daniel não menciona a Igreja, mas fala apenas do povo de Israel. Isso ocorre porque a Igreja era um mistério oculto em Deus (Ef.3:2,3; Rm.16:25; Cl.2:2; 4:2), que veio a revelar-se neste período de intervalo entre as 69ª e 70ª semanas de Daniel.

CONCLUSÃO



O presente estudo não tem a pretensão de esgotar o assunto, pois quando se trata de profecias não há ninguém neste mundo com autoridade vinda de Deus, para explicar, sem margens de erros, os acontecimentos futuros. A profecia está selada. É verdade que "O Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas."(Am.3:7; veja também Gn.18:17). Também é verdade que as coisas reveladas "pertencem a nós e a nossos filhos para sempre..."(Dt.29:29b). Porém "...as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus..."(Dt.29:29a), e "Não nos compete conhecer os tempos ou épocas que o Pai reservou para a sua exclusiva autoridade."(At.1:7). Devemos nos lembrar das palavras de Jesus: "...a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai."(Mt.24:36).

Com estas coisas em mente, devemos percorrer o caminho das profecias com muito cuidado e humildade. Porém não devemos nos desanimar, acreditando, como afirmam alguns, que é impossível conhecermos os tempos e épocas profetizadas. É claro que não ousaríamos descrever os detalhes das profecias, pois estes a Deus pertence, mas à nós foi dado o privilégio e também o dever de estudá-las "...para que cumpramos todas as palavras desta lei."(Dt.29:29).

Portanto ao nos dirigirmos às profecias, como crentes, é nosso dever decidir qual sistema hermenêutico vamos adotar; se é amilenismo, pós-milenismo ou pré-milenismo. Entretanto não devemos fazê-lo com arrogância, achando que somos infalíveis. Deus só revela seus segredos àqueles que se humilham perante Ele (I Pe.5:5).

Quando fizermos nossas escolhas não devemos desprezar nossos irmãos em Cristo que adotam sistemas diferentes. Portanto cabe aqui o velho, mas bem apropriado axioma cristão: unidade no essencial, tolerância no secundário, e amor em tudo!

Não devemos contender com nossos irmãos de opiniões diferentes, sobre questões que só a Deus compete decidir. Podemos presumir, mas não somos infalíveis.

É pena que muitos estudiosos não tratam dos pontos polêmicos das Escrituras com este espírito cristão. É o caso, por exemplo, de Cleómines A. de Figueredo, que na ânsia de defender o amilenismo, reportou-se ao pré-milenismo de maneira irônica, fazendo seus defensores parecerem tolos. Só faltou chamá-los de herege. Cleómines escreve: "Este reinado de Cristo na terra, o milênio, fracassado na 1ª tentativa (!), será realizado na terra, como outro reino qualquer, havendo pessoas revoltadas, guerras, conflitos, e o 'Rei' Jesus, com sede em Jerusalém, atendendo telefone (?) dando entrevista por televisão (?), 'tendo audiências marcadas como Presidente' (?) e guerreando com armas, bombas, fuzis (?), mantendo 'a ordem' com os santos (?), mantendo a soberania do Estado de Israel (?)".1

Não devemos tratar dessas coisas neste nível. Elas são sérias demais para usarmos da ironia, seja para defender, seja para refutar. Que o leitor saiba decidir que caminho tomar, mas ao fazê-lo, não caia no mesmo exemplo de muitos daqueles que, com suas apologias, tem mais colaborado para a divisão do corpo de Cristo, do que para a sua edificação.





APÊNDICE I - O ARREBATAMENTO DA IGREJA



A palavra arrebatamento vem do grego arpazw = harpázô = roubar, arrebatar, tomar ou arrancar com força (Mt.12:29; At.8:39; ICo.12:2,4; Ap.12:5; Mt.11:12).1

A doutrina do arrebatamento é particularmente ensinada por Paulo aos tessalonicenses: "...nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares..."(ITs.4:17).

Há uma grande controvérsia entre os expositores bíblicos acerca desta doutrina. Alguns dizem que o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes do início da grande tribulação (estes são os pré-milenistas). Esse modo de enxergar a doutrina exige que a Segunda Vinda de Jesus ocorra em duas fases. A primeira fase é secreta, para o encontro da Igreja nos ares (esta é o arrebatamento da Igreja). A segunda fase é visível, quando Jesus colocar os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, para restaurar o reino de Israel e julgar as nações (Zc.14:4; At.1:6-11; Ap.1:7; Ap.14:1). Outros há que acreditam que a Segunda Vinda só tem uma fase, e, portanto, o arrebatamento da Igreja acontecerá em sua Segunda Vinda, após a tribulação (amilenistas e pós-milenistas). Há ainda outro grupo; daqueles que acreditam que a Igreja será arrebatada no meio da tribulação. A seguir veremos resumidamente os dois diferentes aspectos do arrebatamento da Igreja (quanto ao tempo e quanto ao modo).



I. O TEMPO DO ARREBATAMENTO DA IGREJA:

Há três diferentes opiniões sobre o tempo do arrebatamento da igreja:



1. ARREBATAMENTO PRÉ-TRIBULACIONAL:

O propósito da tribulação não é purificar a Igreja nem disciplinar os crentes, mas sim purificar a nação de Israel, preparando-a para a restauração do reino. A Igreja será arrebatada antes da tribulação (Lc.21:36; Rm.5:9; ITs.5:9; Ap.3:10). Nesta fase da sua Segunda Vinda, Jesus vem para a Igreja; na segunda fase Jesus vem com a Igreja (Jd.14). Alguns interpretam a "apostasia" ("...isto não acontecerá sem que primeiro venha a remoção..." - IITs.2:3) não em seu sentido negativo "afastar-se" referindo-se ao afastamento da fé (ITm.4:1), mas como sendo a "remoção" ou "partida" da Igreja, como em 2:7 ("...que seja afastado aquele que o detém...").

Nesta ocasião os cristãos serão julgados (IICo.5:10), diante do tribunal de Cristo nos céus. Não é um julgamento para receber ou não receber a vida eterna, mas sim para receber galardões ICo.3:10-15). O crente não entra em juízo (Jo.5:24; Rm.8:1) pois o trono de juízo (o trono branco - Ap.20:11) será estabelecido somente depois da rebelião final da humanidade contra Cristo. No juízo final haverá julgamento das obras, quando o livro da vida será aberto juntamente com o livro das obras (Ap.20:12). Não é assim com os crentes; suas más obras já foram julgadas no sacrifício do Calvário (Rm.6:6,7; Hb.10:14-18).

O pré-tribulacionismo admite uma Segunda Vinda Iminente, isto é, poderá ocorrer a qualquer momento (ICo.1:7; Fp.4:5; Tt.2:13; Tg.5:8,9; Jd.21), e nenhum evento ou profecia necessita ser cumprido para que o arrebatamento ocorra, ao contrário das outras interpretações que exigem a ocorrência da tribulação antes que o arrebatamento se consuma.

Para o pré-tribulacionista a primeira ressurreição terá, pelo menos, três fases: (1) A ressurreição dos justos mortos, no arrebatamento pouco antes da tribulação; (2) A ressurreição, imediatamente após a tribulação, dos santos que morreram durante a tribulação, os mártires; (3) A ressurreição dos santos de Israel, no final da tribulação. Outros admitem cinco fases, acrescentando à estas a ressurreição de Cristo, como "as primícias dos que dormem", e as duas testemunhas que serão ressuscitadas no meio da tribulação (Ap.11:3-12).



2. ARREBATAMENTO MID-TRIBULACIONAL:

Esta interpretação argumenta que os eleitos mencionados por Jesus que passarão pela tribulação (Mt.24:21,22), refere-se aos santos da igreja que estarão presente. O mid-tribulacionista faz diferença entre tribulação e ira de Deus. Crêem que a Igreja não sofrerá a ira de Deus, mas deverá passar pela tribulação. A primeira metade da tribulação, na qual a igreja estará presente, ocorrerá apenas uma tribulação. Depois disso a ira de Deus será derramada: "...logo em seguida à tribulação daqueles dias..."(Mt.24:29). Quando isto estiver para acontecer a Igreja será arrebatada, exatamente no meio da tribulação, para ser poupada da ira de Deus.







3. ARREBATAMENTO PÓS-TRIBULACIONAL:

O pós-tribulacionista argumenta, como o pré-tribulacionista, que a Igreja não ficará exposta à ira de Deus. Eles distinguem entre a grande tribulação e a ira de Deus. As passagens de Rm.5:9 e ITs.5:9, onde aparecem o termo ira, não se referem a grande tribulação, mas sim à ira do juízo final. A Igreja participará da tribulação, mas os santos não serão atingidos pela ira de Deus, serão poupados dela. A passagem de Ap.3:10 não significa que a igreja será excluída da tribulação, mas que ela será preservada na tribulação. Eles dão à esta passagem a seguinte interpretação: "...Eu te guardarei na hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro..."(Ap.3:10). Isto significa que a igreja será preservada na tribulação, e não excluida dela.

Para o pós-tribulacionista a primeira ressurreição só tem uma fase, que ocorrerá no começo do milênio. Já que não há nenhum intervalo entre a vinda de Jesus para a Igreja e a vinda com a Igreja, nenhum santo morre durante este interlúdio e, portanto, não há necessidade de duas fases na ressurreição dos justos.

Para os pós-tribulacionista "aquele que o detém" (IITs.2:7) que será removido, é o Espírito Santo, e sua retirada não acarreta a remoção da igreja, pois o que será removido não é a sua presença, mas a sua ação plena e graciosa. Outros interpretam que nem o Espírito Santo nem a Igreja serão afastados, mas sim o Anticristo. Segundo esta interpretação a passagem ficaria desse modo: "E agora sabeis o que detém (o poder de Deus), para que ele (o Anticristo) seja revelado na sua ocasião própria. Pois o mistério da iniquidade já opera: somente que há um (Deus) que agora o detém até que ele (o Anticristo) seja removido do caminho".2



II. O MODO DO ARREBATAMENTO DA IGREJA:

Há duas escolas de pensamento quanto ao modo do arrebatamento da Igreja. São elas: (1) Arrebatamento Integral; (2) Arrebatamento Parcial.



1. ARREBATAMENTO INTEGRAL:

Esta linha de pensamento ensina que a Igreja será arrebatada integralmente. Nenhum crente ficará de fora, apesar dos seus pecados. As Escrituras ensinam que a Igreja de Jesus, sua Noiva, é "...gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito"(Ef.5:27). Isto significa que nenhum de seus membros poderá faltar, pois seria uma Igreja incompleta, defeituosa. A Escritura diz que a Igreja já foi santificada (Ef.5:26). Portanto, se, na hora do arrebatamento, algum cristão for encontrado em desobediência, ela não será deixado, mas, juntamente com os fiéis, será arrebatado, todavia "sofrerá ele dano"(ICo.3;15), isto é, sofrerá perdas de galardões.



2. ARREBATAMENTO PARCIAL:

Segundo este modo de pensar, vê-se um segmento da Igreja arrebatado antes da tribulação, e o outro segmento permanecendo na terra durante toda a tribulação. Portanto o arrebatamento é pré-tribulacional para alguns e pós-tribulacional para outros. Ira E. David, defensor desta interpretação argumenta: "A base da trasladação deve ser a graça ou a recompensa. Aqueles que esperam que todas as pessoas na Igreja verdadeiramente serão trasladadas de uma só vez, pensam que a trasladação é totalmente pela graça. A salvação é pela graça (Ef.2:8). Depois de as pessoas serem salvas, no entanto, recebem galardão pela sua fidelidade e vigilância. Repetidas vêzes, os crentes são advertidos contra a falta destas. Em I Co.3:14,15, conta-se-nos que há galardões para os crentes. ora, não é a trasladação um galardão? cremos que as frequentes exortações nas Escrituras no sentido de vigiarmos, sermos fiéis, estarmos prontos para a vinda de Cristo, vivermos vidas cheias do Espírito, sugerem, todas elas, que a trasladação é um galardão".3

Aqueles que adotam esta interpretação, entendem a parábola das dez virgens não como sendo a nação de Israel, mas sim a Igreja. Contudo, a distinção entre as cinco virgens prudentes e as cinco néscias, não é entre os crentes verdadeiros e falsos, mas sim entre os fiéis e os infiéis. Govett dá oito razões para esta interpretação: "(1) Todas as dez mulheres são virgens, não meras pretendentes à virgindade. Elas não se chamam de virgens; o Senhor assim as chama. (2) Todas as dez tinham lâmpadas acesas, o que significa que a sua profissão de fé era apoiada por boas obras. (3) Saem com o desejo de encontrar-se com Jesus, indicação esta de um coração verdadeiramente convertido. (4) Suas lâmpadas ficam acesas por algumas horas, o que indica que têm o azeite da graça. O texto não é explícito quanto a algumas das lâmpadas chegarem a apagar-se. (5) São consideradas dignas de chegarem à primeira ressurreição, a ressurreição dentre os mortos, o que é o caso somente dos filhos de Deus. (6) As virgens néscias adormecem juntamente com as prudentes, e acordam juntamente com elas. (7) As virgens néscias estão prontas para entrar se o noivo chegar cedo ao invés de tarde, ou seja, antes de adormecerem. (8) Mesmo no fim continuam sendo virgens, a qualificação interna essencial para as bodas. sua única deficiência está dentro do âmbito da sua capacidade circunstâncial e secundária: falta-lhes uma segunda medida de azeite. Os descrentes, por contraste, deixam de satisfazer as duas qualificações".4

Há ainda muitas outras passagens que são usadas para apoiar o ponto de vista mid-tribulacionaista, tais como Mt.24:40 e Lc.21:36, e, ainda, muitas passagens bíblicas sobre o dever do cristão de estar sempre em vigilância para que a vinda de Cristo não o supreenda.



BIBLIOGRAFIA



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A Segunda Vinda Jesus Cristo


A Segunda Vinda Jesus Cristo retornará a terra em Glória. "MAS, irmãos, acerca dos tempos e das estações, não necessitais de quese vos escreva; Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhorvirá como o ladrão de noite; Pois que, quando disserem: Há paz esegurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores departo àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão. Mas vós,irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreendacomo um ladrão; " 1 Ts 5.1-4 O Novo testamento anuncia repetidamente que Jesus Cristo voltaráalgum dia. Essa será sua "visita real", seu 'aparecimento" e"vinda" (grego: parousia). Cristo voltará a este mundo em glória. Osegundo advento do Salvador será pessoal e físico (Mt 24.44;At 1.11;Cl 3.4; 2 Tm 4.8; Hb 9.28), visível e triunfante (Mc 8.38; 2 Ts 1.10;Ap 1.7). Jesus vem para encerrar a história, levantar os mortos ejulgar o mundo (Jo 5.28,29), conceder aos filhos de Deus sua glóriafinal (Rm 8.17,18; Cl 3.4), e introduzi-los em um universoreconstruído (Rm 8.19-21; 2 Pe 3.10-13). Sua execução desta agendaserá a última fase e triunfo final de seu reino mediatário. Uma vezque essas coisas se cumpram, a aplicação da redenção contra a oposiçãosatânica, que era a obra específica do reino, terminará. Quando Paulodiz que Cristo então "entregará o reino" e se tornará sujeito ao Pai(1 Co 15.24-28), ele não está insinuando qualquer diminuição da honrasubseqüente de Cristo, mas está significando o completamento doplano para trazer os eleitos ao céu que o Filho ressurreto foientronizado para realizar. Os eleitos em glória, purificados eaperfeiçoados, honrarão para sempre o Cordeiro como aquele que foicapaz de abrir o livro do plano de Deus para cumprimento e aplicaçãoda redenção na história, e fazer acontecer o que estava planejado (Ap5). Na nova Jerusalém, Deus e o Cordeiro estão entronizados e reinamjuntos para sempre (Ap 22.1,3)). Mas este reinado é a crescenteconexão servo-Senhor entre Deus e os justos que se segue à era doreino mediatário, e não a continuação daquele reino como sul. Em 1 tessolonicenses 4.16,17, Paulo ensina que a vinda de Cristo teráa forma de um descida desde o céu, anunciado por um ressôo detrombeta, um clamor , e a voz do arcanjo. Os que morreram em Cristo játerão sido levantados e estarão com Ele, e todos os cristãos na terraserão "arrebatados" (isto é, levados às nuvens para o encontro comCristo no espaço), para que possam em seguida retornar à terra comEle, como parte de sua escolta triunfante. A idéia de que oarrebatamento os leva para fora deste mundo por um período antes deCristo aparecer uma terceira vez para uma "segunda vinda" tem sidoamplamente defendida, mas falta-lhe apoio escriturístico. Embora alguns dos detalhes dados por Paulo tenham significaçãosimbólica (a trombeta, como um clarim militar, chama a atenção para aatividade de Deus, Êx 19.16,19; Is 27.13; Mt 24.31. 1 Co 15.52; anuvens significa a presença ativa de Deus, Êx 19.9,16; Dn 7.13; Mt24.30; Ap 1.7), ele parece estar falando literalmente, e o fato de oque ele descreve estar além de nosso poder de imaginação não nos deveimpedir de tomar sua palavras no sentido de que isso será assim. O Novo Testamento especifica muito do que sucederá entre as duasvindas de Cristo, mas, afora q queda de Jerusalém em 70d.C. (Lc21.20,24), as predições sugerem processo e não eventos isoladosidentificáveis, e não revelam sequer uma data aproximada doreaparecimento de Jesus. O mundo gentio será chamado à fé (Mt 24.14);os judeus serão trazidos ao reino (Rm 11.25-29, uma passagem que podeou não antecipar uma conversão nacional); haverá falsos profetas efalsos Cristo ou anticristos (Mt 24.5,24; 1 Jo 2.18,22; 4.3). Haveráapostasia da fé e tribulação para os fiéis (2 Ts 2.3; 1 Tm 4.1; 2 Tm3.1-5; Ap 7.13,14; cf. 3.10). Um "homem da iniqüidade", aparentementenão identificável, acerca do qual Paulo havia falado aostessaçocicenses em um ensino oral que não possuímos (2 Ts 2.5), deviaou deve aparecer (2 Ts 2.3-12). Se o período de mil anos deApocalipse 20.1-10 é realmente a história do mundo entre as duasvindas de Cristo, haverá uma último e apical luta de poder de algumaforma entre as forças anticristãs do mundo e o povo de Deus (vv 7-9).Nenhuma data, contudo, pode ser inferida desses dados; o tempo doretorno de Jesus permanece completamente desconhecido. A volta de Cristo terá o mesmo significado para os cristãos queestiverem vivos quando acontecer como a morte tem para os cristãos quemorrem antes de acontecer: será o fim da vida neste mundo e o inícioda vida naquilo que tem sido retratado como "um ambiente desconhecidocom habitantes bem conhecido" (cf. Jo 14.2,3). Cristo ensina (Mt24.36-51) que será um trágico desastre se a parousia encontrar alguémdespreparado. Em vez disso, a idéia do que virá deve estarconstantemente em nossas mentes, incentivando-nos em nosso atualserviço cristão (1 Co 15.58) e ensinado-nos a viver, como se elafosse iminente, prontos a nos encontrarmos com Cristo a qualquermomento (Mt 25.1-13). Autor: J. I. PACKER Fonte: Teologia Concisa, pg. 159, Ed. Cultura Crista.

O Anticristo


O Anticristo
2 Ts 2.1-12; 1 Jo 2.18-23; 1 Jo 4.1-6; 2 Jo 1.7

"Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus. Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco? E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado.Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. "(2 Ts 2.3-10)

O perfil bíblico do Anticristo tem suscitado tem muito interesse não só nos círculos cristãos, mas também na cultura secular, inspirando filmes e novelas bizarras. O Anticristo é o vilão supremo, que incorpora toda a maldade no seu grau mais elevado.

O perfil do Anticristo no Novo Testamento é um tanto enigmático. Há muita confusão e polêmica sobre seu papel e sua natureza. O termo anti-, usado para descrevê-lo, pode significar "contra" ou "no lugar de". O Anticristo é aquele que não só se opões, mas busca usurpar o lugar legítimo de Cristo. Busca tomar para si o lugar de Cristo. Portanto, é falso Cristo, o qual busca enganar as pessoas, levando-as a pensar que ele é o verdadeiro Cristo.

Muito debate se tem feito quanto a identidade do Anticristo. Será uma pessoa, um poder ou uma instituição? Será uma figura religiosa, política, ou ambas? Existe apenas um Anticristo, ou vários? Ocasionalmente, os cristãos o identificam como sendo uma pessoa em particular na história, tais como Nero, Hitler, Mussolini, apenas para citar alguns. Muitos protestantes têm identificado o papado católico romano como a instituição do anticristo, enquanto outros buscam um poder ou personagem ainda revelados como o Anticristo.

João fala de "muitos anticristos" (1 Jo 2.18) e do "espírito do Anticristo", o qual "presentemente já está no mundo" (1 Jo 4.30. Podemos concluir que durante o período entre a era apostólicas e a vinda de Cristo deverá haver muitas manifestações do Anticristo, pelo menos em espíritos e em poder.

O apóstolo Paulo indica que haverá uma manifestação especial do Anticristo antes da vinda final de Cristo. Este "homem da iniqüidade" virá de acordo com a eficácia de Satanás e terá a sua sede de poder no "templo de Deus" (2 Ts 2.1-12). Alguns crêem que para que isso ocorra, a adoração no templo em Israel deverá ser restaurada; outros o interpretam como sendo uma referência à aparição do "templo" do Novo Testamento, ou seja, a Igreja cristã.

A vinda do Anticristo está relacionada com uma grande apostasia na igreja. Talvez uma aliança entre o governo secular e as instituições religiosas esteja em vista. O objetivo do Anticristo é declarar guerra contra povo de Deus e buscar a destruição de Cristo e do seu Reino. A Bíblia nos garante, entretanto, que a despeito do seu tremendo poder e influência, sua derrota, seu julgamento e condenação são certos. Em última instância, ele não apenas é páreo para o verdadeiro Cristo vivo.

Sumário

1. O Anticristo opera tanto"contra" Cristo como "no lugar" de Cristo.

2. O Anticristo tem se manifestado durante toda a história da igreja em pessoas e instituições.

3. A Bíblia prediz uma manifestação especial do Anticristo com poder e influência extraordinários, no final dos tempos.

4.O Anticristo será derrotado por Cristo.

Autor: R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.

O Milênio: Explicação das três posições principais. Amilenismo, Pós-milenismo e Pré-milenismo.


O Milênio: Explicação das três posições principais. Amilenismo, Pós-milenismo e Pré-milenismo.

A palavra ‘milênio’ significa “mil anos” (do lat. Millennium, “mil anos”). O termo vem de Apocalipse 20.4-5, onde se diz que “viveram e reinaram com Cristo durante mil anos”. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Poucos antes dessa declaração, lemos que um anjo desceu céu, agarrou o diabo “e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Ap 20.2-3).
Ao longo da história da igreja tem havido três visões principais sobre a época e a natureza desse “milênio”.

1. Amilenismo: A primeira posição aqui explicada, o amilenismo, é realmente a mais simples. Pode ser ilustrada pela figura 55.1:


Figura 55.1 - Amilenismo

Segundo essa posição, a passagem de Apocalipse 20.1-10 descreve a presente era da igreja. Trata-se de uma era em que a influência de Satanás sobre as nações sofre grande redução de modo que o evangelho pode ser pregado por todo o mundo. Aqueles que reinam com Cristo por mil anos são os cristãos que morreram e já estão reinando com Cristo no céu. O reino de Cristo no milênio, segundo esse ponto de vista, não é um reino físico aqui na terra, mas sim o reino celestial sobre o qual ele falou ao declarar: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18).

Esse ponto de vista é chamado “amilenista” por sustentar que não existe nenhum milênio que ainda esteja por vir. Como os amilenistas crêem que Apocalipse 20 está-se cumprindo agora na era da igreja, sustentam que o “milênio” aqui descrito já está em curso no presente. A duração exata da era da igreja não pode ser conhecida, e a expressão “mil anos” é simplesmente uma figura de linguagem par um longo período em que os propósitos perfeitos de Deus vão se realizar.

De acordo com essa posição, a presente era da igreja continuará até o tempo da volta de Cristo (veja figura 55.1). Quando Cristo voltar, haverá ressurreição tanto de crentes como de incrédulos. Os crentes terão o corpo ressuscitado e unido novamente com o espírito e entrarão no pleno gozo do céu para sempre. Os incrédulos serão ressuscitados para enfrentar o julgamento final e a condenação eterna. Os crentes também comparecerão diante do tribunal de Cristo (2 Co 5.10), mas esse julgamento irá apenas determinar os graus de recompensa no céu, pois só os incrédulos serão condenados eternamente. Por esse tempo também começarão o novo céu e a nova terra. Imediatamente após o juízo final, o estado eterno terá início e permanecerá para sempre.

Esse esquema é bem simples porque nele todos os eventos dos tempos do fim ocorrem de uma só vez, imediatamente após a volta de Cristo. Alguns amilenistas dizem que Cristo pode voltar a qualquer momento, enquanto outros (como Berkhof) alegam que alguns sinais ainda não se cumpriram.

2. Pós-milenismo: O prefixo pós significa “depois”. Segundo esse ponto de vista, Cristo voltará após o milênio. A posição pós-milenista pode ser representada pela figura 55.2.



Figura 55.2 - Pós-milenismo

Segundo esse ponto de vista, o avanço do evangelho e o crescimento da igreja se acentuarão de forma gradativa, de tal modo que uma proporção cada vez maior da população mundial se tornará cristã. Como conseqüência, haverá influências cristãs significativas na sociedade, esta funcionará mais e mais de acordo com os padrões de Deus e gradualmente virá uma “era milenar” de paz e justiça sobre a terra. Esse “milênio” durará um longo período (não necessariamente de mil anos literais) e, por fim, ao final desse período, Cristo voltará à terra, crentes e incrédulos será ressuscitados, ocorrerá o juízo final e haverá um novo céu e uma nova terra. Entraremos então no estado eterno.

A característica principal do pós-milenismo é ser muito otimista acerca do poder do evangelho par mudar vidas e estabelecer o bem no mundo. A crença no pós-milenismo tende a aumentar em época em que a igreja experimenta grande avivamento, há ausência de guerras e conflitos internacionais e aparentemente se obtêm grandes avanços na vitória sobre o mal e sobre o sofrimento no mundo. Mas o pós0milenismo em sua forma mais responsável não se baseia simplesmente na observação dos eventos do mundo em nossa volta, mas em argumentos extraídos de várias passagens da Escrituras, as quais examinaremos abaixo.

3.Pré-milenismo

a. Pré-milenismo clássico ou histórico: O prefixo “pré” significa “antes” e a posição pré-milenista diz que Cristo irá voltar antes do milênio. Esse ponto de vista é defendido desde os primeiros séculos do cristianismo. Pó ser representado como na figura 55.3.



Figura 55.3 - Pré-milenismo clássico ou histórico

Segundo esse ponto de vista, a presente era da igreja continuará até que, com a proximidade do fim, venha sobre a terra um período de grande tribulação e sofrimento (T na figura acima indica tribulação). Depois desse período de tribulação no final da era da igreja, Cristo voltará à terra estabelecer um reino milenar. Quando ele voltar, os crentes que tiverem morrido serão ressuscitados, terão o corpo reunido ao espírito, e esses crentes reinarão com Cristo sobre a terra por mil anos. (Alguns pré-milenistas o consideram mil anos literais, enquanto outros o entendem como expressão simbólica para um período longo.) Durante esse tempo, Cristo estará fisicamente presente sobre a terra em seu corpo ressurreto e dominará como Rei sobre toda a terra. Os crentes ressuscitados e os que estiverem sobre a terra quando Cristo voltar receberão o corpo glorificado da ressurreição, que nunca morrerá, e nesse corpo da ressurreição viverão sobre a terra e reinarão com Cristo. Quanto aos incrédulos que restarem sobre a terra, muitos (mas não todos) se converterão a Cristo e serão salvos. Jesus reinará em perfeita justiça e haverá paz por toda a terra. Muitos pré-milenistas sustentam que a terra será renovada e veremos de fato o novo céu e a nova terra durante esse período (mas a fidelidade a esse ponto não é essencial ao pré-milenismo, pois é possível ser pré-milenista e sustentar que o novo céu e a nova terra virão só depois do juízo final). No início desse tempo, Satanás será preso e lançado no abismo, de modo que não terá influência sobre a terra durante o milênio no abismo, de modo que não terá influência sobre a terra durante o milênio (Ap 20.1-3).

De acordo com o ponto de vista pré-milenista, no final dos mil anos Satanás será solto do abismo e unirá as forças com muitos incrédulos que se submeteram externamente ao reinado de Cristo, mas por dentro revolvem-se em revolta contra ele. Satanás reunirá esse povo rebelde para batalhar contra Cristo, mas serão derrotados definitivamente. Cristo então ressuscitará todos os incrédulos que tiverem morrido ao longo da história, e esses comparecerão diante dele para o julgamento final. Uma vez realizado o juízo final, os crentes entrarão no estrado eterno.

Parece que o pré-milenismo tende a crescer em popularidade à medida que a igreja experimenta perseguição e o sofrimento e o mal aumentam sobre a terra. Mas, assim como no caso do pós-milenismo, os argumentos a favor do pré-milenismo não se baseiam em observação de eventos correntes, mas em passagens específicas das Escrituras, especialmente (mas não exclusivamente) Apocalipse 20.1-10.

b. Pré-milenismo pré-tribulacionista (ou pré-milenismo dispensacionalista): Outra variedade de pré-milenismo conquistou ampla popularidade nos séculos XIX e XX, em especial no Reino Unido e nos Estado Unidos. Segundo essa posição, Cristo voltará não só antes do milênio (a volta de Cristo é pré-milenar), mas também ocorrerá antes da grande tribulação (a volta de Cristo é pré-tribulacional). Esse ponto de visa é semelhante à posição pré-milenista clássica mencionada acima, mas com uma importante diferença: acrescenta outra volta de Cristo antes de sua vinda para reinar sobre a terra no milênio. Essa volta é vista como um retorno secreto de Cristo para tirar os crentes do mundo. A visão pré-tribulacionista é representada na figura 55.4.



Figura 55.4 - Pré-milenismo pré-tribulacionista (ou pré-milenismo dispensacionalista)


Segundo esse ponto de vista, a era da igreja continuará até que, de repente, de maneira inesperada e secreta, Cristo chegará a meio caminho da terra e chamará para si os crentes: “...os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (1Ts 4.16-17). Cristo então retornará ao céu com os crentes arrebatados da terra. Quando isso acontecer, haverá uma grande tribulação sobre a terra por um período de sete anos.

Durante esse período de sete anos de tribulação, cumprir-se-ão muitos dos sinais que, segundo predições, precederiam a volta de Cristo. O grande ajuntamento da plenitude dos judeus ocorrerá à medida que eles aceitarem Cristo como o Messias. Em meio ao grande sofrimento haverá também muita evangelização eficaz, realizada em especial pelos novos cristãos judeus. Ao final da tribulação, Cristo voltará com os seus santos para reinar sobre a terra por mil anos. Depois desse período milenar haverá uma rebelião que resultará na derrota final de Satanás e suas forças, e então virá a ressurreição dos incrédulos, o último julgamento e o começo do estado eterno.

Deve-se mencionar outra característica do pré-milenismo pré-tribulacionista: essa postura se encontra quase exclusivamente entre os dispensacionalistas que desejam fazer distinção clara entre a igreja a Israel. Essa posição pré-tribulacionista permite que a distinção seja mantida, uma vez que a igreja é retirada do mundo antes da conversão geral do povo judeu. Esse povo judeu, portanto, permanecerá um grupo distinto da igreja. Outra característica do pré-milenismo pré-tribulacionista é sua insistência em interpretar as profecias bíblicas “literalmente sempre que possível”. Isso se aplica em especial a profecias do Antigo testamento acerca de Israel. Os que defendem essa posição argumentam que essas profecias da futura bênção de Deus a Israel ainda irão se cumprir entre o próprio povo judeu; elas não devem ser “espiritualizadas”, tentando-se ver o seu cumprimento na igreja. Por fim, uma característica atraente do pré-milenismo pré-tribulacionista é que ele permite às pessoas insistir em dizer que a volta de Cristo pode ocorrer “a qualquer momento” e, por essa razão, fazem justiça ao significado pleno das passagens que nos incentivam a estarmos prontos para a volta de Cristo, ao mesmo tempo que ainda admite um cumprimento bem literal dos sinais que precedem a sua volta, pois diz que lês se darão durante a tribulação.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática, pg. 946-951, Editora Vida Nova.

Céu


Céu

Apocalipse 21:1: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe”.

“Céu” é o termo bíblico para designar o lugar de habitação de Deus (Sl 33.13-14; Mt 6.9), o lugar de sua presença para onde o Cristo glorificado retornou (At 1.11). A Igreja militante e a Igreja triunfante se unem ali para o culto (Hb 12.22-25), e, um dia, o povo de Deus estará ali com Cristo para sempre (Jo 17.5,24; 1Ts 4.16-17). O céu é o lugar de descanso de Deus (Jo 14.2). É descrito como uma cidade (Hb 11.10) e uma pátria (Hb 11.16.

Pensar no céu como um “lugar” é mais correto do que errado, ainda que a palavra (lugar) possa enganar. As Escrituras descrevem o céu como uma realidade espacial que toca e interpenetra o espaço criado. Segundo a Carta aos Efésios, o trono de Cristo à direita do Pai (Ef 1.20) e a vida dos cristãos em Cristo estão ambos nos “lugares celestiais” (Ef 1.3,20; 2.6). Paulo alude à sua experiência no “terceiro céu” ou “paraíso” (2Co 12.2,4). Um corpo ressurreto, adaptado à vida do céu, nos espera (2Co 5.1-8). Enquanto estamos em nosso corpo atual, as realidades do céu são invisíveis para nós, e só as conhecemos pela fé (2Co 4.18; 5.7). A esperança fundada sobre o que a fé vê dá-nos coragem para perseverar (Rm 8.25; conforme Gl 5.5; 1Jo 3.3).

Podemos formar uma idéia da perfeita vida do céu baseados naquilo que conhecemos imperfeitamente agora (1Co 13.12). Nossa comunhão com Deus e com outros cristãos jamais se quebrará (Sl 23.6). Segundo o Apocalipse, lá não haverá lágrimas, tristeza ou morte (Ap 21.4). Segundo a Carta aos Romanos, a própria terra, com a vida sobre ela, “está sujeita à vaidade” por causa do pecado (Rm 8.20). Através do Espírito, sabemos que esta corrupção será destruída, e as possibilidades vagamente percebidas na criação decaída serão realizadas na “liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21).

Segundo Breve o Breve Catecismo, fomos criados “para glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. As coroas, festas e celebrações da vitória descritas nas Escrituras colocam um aspecto dessa alegria diante dos nossos olhos. O triunfo do Cordeiro que foi morto e de seus santos com ele (Ap 5.6; 14.1) é outro aspecto. No centro está a união de Deus com seu povo (Ap 22.4). Esta era a promessa da aliança (Jr 30.22), e está destinada a ser realizada de um modo que vai além da nossa imaginação (Ef 2.7; 3.9; conforme 1Co 2.9).


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Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1548.

Inferno, OS MAUS SERÃO DESTINADOS AO INFORTÚNIO PERPÉTUO


Inferno
OS MAUS SERÃO DESTINADOS AO INFORTÚNIO PERPÉTUO

A morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.Apocalopse 20.14,15

O secularismo sentimental da moderna cultura ocidental, com seu exaltado otimismo a respeito da natureza humana, sua idéia encolhida de Deus e seu ceticismo quanto a se a moralidade pessoal realmente importa — em outras palavras, seu declínio de consciência — torna difícil para os cristãos considerar seriamente a realidade do inferno. A revelação do inferno na Escritura pressupões uma profundidade de discernimento da santidade divina e da pecaminosidade humana e demoníaca que a maioria de nós não tem. Contudo, a doutrina do inferno aparece no Novo Testamento como algo cristão essencial, sendo nós chamados a compreende-la como Jesus e seus apóstolos a compreenderam.

O Novo Testamento visualiza o inferno (geena, como Jesus o chama, o lugar de incineração, Mt 5.22; 18.9) como a morada final dos destinados ao castigo eterno no Juízo Final (Mt 25.41-46; Ap 20.11-15). Pensa-se nele como um lugar de fogo e escuridão (Jd 7.13), de choro e ranger de dentes (Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30), de destruição (2 Ts 1.7-9; 2 Pe 3.7; 1 Ts 5.3), e de tormento (Ap 20.10; Lc 16.23) — em outras palavras, de total angústia e infortúnio. Se, como parece, estes termos são simbólicos e não literais (fogo e escuridão seriam mutuamente excludentes em termos literais), podemos estar seguros de que a realidade, que está além da nossa imaginação, excede em terror o símbolo. O ensino do Novo Testamento acerca do inferno apavora-nos e faz-nos mudos de horror, assegurando-nos que, como o céu será melhor do que podemos sonhar, assim o inferno será pior do que podemos conceber. Tais são as perspectivas da eternidade, que precisam ser encaradas realísticamente agora.

O conceito de inferno é o de uma relação negativa com Deus, uma experiência não tanto de sua ausência quanto de sua presença em ira e desagrado. A experiência da ira de Deus como um fogo consumidor (Hb 12.29), sua justa condenação por desafia-lo e agarrar-nos aos pecados que Ele detesta, e a privação de tudo aquilo que é valioso, agradável e conveniente será a figura da experiência do inferno (Rm 2.6,8,9,12). O conceito é formado pela negação sistemática de cada elemento na experiência da bondade de Deus, como os crentes a conhecem por meio da graça e como todo a humanidade conhece por intermédio de misericordiosas providências (At 14.16,17; Sl 104.10-30; Rm 2.4). A realidade, como acima foi dito, será mais terrível do que o conceito; ninguém pode imaginar quão ruim será o inferno.

A Escritura vê o inferno como incessante (Jd 13; Ap 20.10). As especulações sobre uma “segunda oportunidade” após a morte, ou aniquilamento pessoal dos ímpios em algum estágio, não tem o endosso bíblico.

A Escritura vê o inferno como auto-escolha; os que estiverem no inferno perceberão que sentenciaram a si mesmos ao castigo, amando as trevas e não a luz, preferindo não ter seu Criador como seu Senhor, escolhendo o pecado auto-indulgente do que a retidão autonegada, e (se conheceram o evangelho) rejeitando a Jesus em vez de ir a Ele (Jo 3.18-21; Rm 1.18,24,26,28,32; 2.8; 2 Ts 2.9-11). A revelação geral confronta toda humanidade com esta questão, e, deste ponto de cista, o inferno parece um gesto de respeito de Deus pela escolha humana. Todos recebem o que realmente escolheram, seja para estar com Deus para sempre, adorando-o, ou sem Deus pra sempre, adorando a si mesmos. Os que estiverem no inferno saberão não somente que merecem por seus feitos, mas também que em seus corações o quiseram.

O propósito do ensino bíblico sobre o inferno é levar-nos a apreciar, acolher com gratidão e preferir racionalmente a graça de Cristo, que mos livra dele (Mt 5.29,30; 13.48-50). É realmente uma compaixão pela humanidade o fato de Deus ser tão explícito na Bíblia acerca do inferno. Não podemos dizer que não fomos alertados.

Autor: J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista.

A Morte, o Estado Intermediário e a Glorificação


A Morte, o Estado Intermediário e a Glorificação

• Qual é o propósito da morte na vida cristã?
• Que acontece ao corpo e à alma quando morremos?
• Quando receberemos o corpo ressurreto?
• Como ele será?


1. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

A. Morte: Por que os cristãos morrem?

Nosso estudo da aplicação da redenção deve incluir uma consideração da morte e da questão de como os cristãos devem ver a própria morte e a morte dos outros. Devemos também perguntar sobre o que nos acontece entre o tempo que morremos e o tempo em que Cristo vai retornar para nos dar corpos ressurretos.

1. A morte não é uma punição para os cristãos.

Paulo diz-nos claramente que “agora, já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Todas as penalidades dos nossos pecados já foram pagas.Assim, muito embora saibamos que os cristãos morrem, não devemos considerara morte dos cristãos uma punição de Deus ou de alguma forma um resultado da penalidade devida a nós por causa dos nossos pecados. É verdade que a penalidade pelo pecado é a morte, mas essa penalidade não mais se aplica a nós — nem em termos de morte física nem em termos de morte espiritual ou separação de Deus. Tudo isso foi pago por Cristo. Portanto, deve haver outra razão que não a punição de nossos pecados para a morte que os cristãos enfrentam.

2. A morte é o resultado final da vida no mundo decaído.

Em sua grande sabedoria, Deus decidiu que não nos aplicaria os benefícios da obra redentora de Cristo de uma só vez. Antes ele escolheu aplicar os benefícios da salvação de modo gradual em nossa existência. Semelhantemente, ele resolveu não remover todo o mal do mundo de imediato, mas esperar até o juízo final e o estabelecimento do novo céu e da nova terra. Em resumo, ainda vivemos em um mundo decaído e nossa experiência de salvação é ainda incompleta.

O último aspecto do mundo decaído a ser removido será a morte. Paulo diz: “Então virá o fim, quando ele entregar o Reino a Deus, o Pai, depois de ter destruído todo domínio, autoridade e poder. Pois é necessário que ele reine até que todos os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (lCo 15.24-26).

Quando Cristo retornar, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída pela vitória”. “Onde está, á morte, a sua vitória? Onde está, á morte, o seu aguilhão?” (lCo 15.54,55). Mas até aquele tempo a morte vai permanecer uma realidade mesmo na vida dos cristãos.

Embora a morte não nos venha como penalidade pelos nossos pecados individuais (porque isso foi pago por Cristo), ela vem como resultado de vivermos no mundo decaído, onde os efeitos do pecado não foram ainda removidos. Ligados à experiência da morte estão outros resultados da queda que prejudicam nosso corpo físico e assinalam a presença da morte no mundo — tanto os cristãos como os não-cristãos experimentam o envelhecimento, as doenças, os prejuízos, os desastres naturais (como as enchentes, tempestades violentas e terremotos). Embora Deus muitas vezes responda às orações para libertar cristãos (e também não-cristãos) de alguns desses efeitos da queda por certo tempo (indicando assim a natureza do seu Reino que se aproxima), os cristãos acabam experimentando todas essas coisas em alguma medida, e, até que Cristo retorne, todos nós ficaremos velhos e morreremos. O “último inimigo” ainda não foi destruído. E Deus resolveu permitir que experimentássemos a morte antes de ganharmos todos os benefícios da salvação que foi conquistada para nós.

3. Deus usa a experiência da morte para completar nossa santificação.

Durante toda a nossa jornada na vida cristã, sabemos que nunca temos de pagar qualquer penalidade pelo pecado, pois tudo foi pago por Cristo (Rm 8.1). Portanto, quando realmente experimentamos dor e sofrimento nesta vida, não devemos nunca pensar que é porque Deus nos esteja punindo (para o nosso mal) . As vezes o sofrimento é simplesmente resultado da vida o no mundo pecaminoso e decaído e às vezes é porque Deus nos está disciplinando (para o nosso bem), mas em todo o caso Paulo nos assegura: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28).

O propósito positivo de Deus nos disciplinar está claramente afirmado em Hebreus 12 , onde lemos: “pois o Senhor disciplina a quem ama [...] Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade. Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados”(Hb 12.6,10,11). Nem toda disciplina serve para nos corrigir quando cometemos pecados; Deus pode permiti-la para o nosso fortalecimento, a fim de que possamos ganhar mais capacidade de confiar nele e de resistir ao pecado no desafiador caminho da obediência. Vemos isso claramente na vida de Jesus, que, mesmo sendo sem pecado, todavia “ aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu” (Hb 5.8). Ele foi aperfeiçoado “mediante o sofrimento” (Hb 2.10). Portanto, devemos ver toda fadiga e sofrimento que nos acontece na vida como algo que Deus nos traz para o nosso bem, para o fortalecimento de nossa confiança nele, para nossa obediência a ele e, em última instância, para aumentar nossa capacidade de glorificá-lo.

O entendimento de que a morte não é de modo algum a punição pelo pecado, mas simplesmente algo que Deus nos faz passar a fim de tornar-nos mais parecidos com Cristo, deve servir de grande encorajamento para nós. Esse entendimento deve retirar de nós todo o temor da morte que assalta a mente dos crentes (cf.Hb 2.15). Todavia, embora Deus venha anos fazer um bem por meio do processo da morte, devemos ainda lembrar que a morte não é natural, não é uma coisa boa e, no mundo criado por Deus, ela é algo que não deveria existir. Ela é uma inimiga — algo que Cristo finalmente vai destruir (1Co 15.26).

4. Nossa obediência a Deus é mais importante que preservar a vida.

Se Deus usa a experiência da morte para aprofundar a confiança nele e para fortalecer nossa obediência a ele, então é importante que nos lembremos de que o alvo de preservar a vida neste mundo a qualquer custo não é o alvo maior para o cristão: a obediência a Deus e a fidelidade a ele em todas as circunstâncias são coisas muito mais importantes. Essa é a razão pela qual Paulo pôde dizer:

“Estou pronto não apenas para ser amarrado, mas também para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (At 21.13; cf. 25.11). Ele disse aos presbíteros de Éfeso: “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Quando Paulo estava em prisão, não sabendo se morreria ali ou se sairia vivo, ainda pôde dizer: “Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Ao contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo serei engrandecido em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte” (Fp 1.20).

A persuasão de que podemos honrar ao Senhor mesmo na morte e de que a fidelidade a ele é muito mais importante que preservar nossa vida deu coragem e motivação aos mártires no decorrer de toda a história da igreja. Quando confrontados com a escolha entre preservar a própria vida e pecar ou abrir mão da própria vida e ser fiel, escolhiam abrir mão da própria vida: “diante da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Mesmo em tempos em que há pouca perseguição e pouca coisa semelhante ao martírio, seria bom fixarmos essa verdade em nossa mente de uma vez por todas, pois, se desejarmos abrir mão até mesmo de nossa vida por fidelidade a Deus, veremos que é muito mais fácil abrir mão de qualquer outra coisa por causa de Cristo.

B. O que devemos pensar sobre nossa morte e a morte dos outros?

1. Nossa própria morte.

O NT nos encoraja a ver a própria morte não com temor, mas com alegria pela perspectiva de partir e estar com Cristo. Paulo diz: “Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Quando está na prisão, não sabendo se seria executado ou se seria solto, ele pode dizer: “porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E já não sei o que escolher! Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fp 1.21-23).

Também lemos as palavras de João no Apocalipse: “Então ouvi uma voz dos céus dizendo: ‘Escreva: Felizes os mortos que morrem no Senhor de agora em diante'. Diz o Espírito: ‘Sim, eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão” (Ap 14.13).

Os crentes, portanto, não precisam ter medo de morrer, porque a Escritura nos assegura de que nem mesmo a morte “será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39; cf. Sl 23.4). De fato, Jesus morreu para libertar “aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte” (Hb 2.15). Esse versículo nos lembra de que, quando falamos de maneira clara sobre nossa ausência de temor da morte, isso proporciona um forte testemunho para pessoas idosas que tentam evitar falar sobre a morte e que não possuem nenhuma resposta para ela.

2. A morte de parentes e amigos cristãos.

Embora aguardemos o tempo de nossa própria morte com a expectativa alegre de estar na presença de Cristo, nossa atitude será um tanto diferente quando experimentarmos a morte de amigos crentes e parentes. Nesses casos, experimentaremos a tristeza genuína — mas mesclada com alegria porque eles foram estar com o Senhor.

Não é errado expressar a tristeza real pela perda da comunhão com os nossos amados que morrem e também tristeza pelo sofrimento e angústia que eles possam ter experimentado antes de morrer. Às vezes os cristãos pensam que mostram falta de fé se lamentam profundamente por um irmão na fé que morreu. Mas a Escritura não dá apoio a essa idéia, porque, quando Estêvão foi apedrejado, lemos : “Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram por ele grande lamentação” (At 8.2). Certamente não houve nenhuma falta de fé por parte de ninguém pelo fato de Estêvão estar no céu experimentando grande alegria na presença do Senhor. Todavia, a tristeza daqueles homens piedosos mostrou o genuíno pesar que sentiram com a perda da comunhão de quem amavam, e não foi errado expressá-la — foi correto! Mesmo Jesus, diante da tumba de Lázaro, “chorou” (Jo 11.35), experimentando tristeza pelo fato de Lázaro ter morrido e por suas irmãs e outras pessoas estarem experimentando tristeza, bem como também, sem dúvida, pelo fato de que havia morte no mundo, pois, em última instância, a morte é antinatural e não deveria estar no mundo criado por Deus.

Não obstante, a tristeza que sentimos pela morte de nossos queridos está claramente misturada com esperança e alegria. Paulo não diz aos tessalonicenses que eles não deveriam de forma alguma sentir aflição por causa dos seus amados que haviam morrido, mas ele escreve:

“Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança” (lTs 4.13). Eles não deviam se entristecer do mesmo modo, com o mesmo desespero amargo, como acontece com os descrentes. Mas certamente eles se entristeceriam. Ele lhes assegura que Cristo “morreu por nós para que, quer estejamos acordados quer dormindo, vivamos unidos a ele” (lTs 5.10) e, desse modo, ele os encoraja dizendo que os que morrem vão estar com o Senhor. Essa é a razão por que a Escritura pode dizer: “Felizes os mortos que morrem no Senhor [...] eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão” (Ap 14.13). De fato, a Escritura mesmo nos diz: “O SENHOR vê com pesar a morte de seus fiéis” (S1 116.15).

Portanto, embora tenhamos genuína tristeza quando amigos e parentes cristãos morrem, podemos dizer com a Escritura: “‘Onde está, á morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?' [...] Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (lCo 15.55,57). Ainda que choremos, nosso choro deve ser misturado com adoração a Deus e ações de graças pela vida dos queridos que morreram.

3. A morte dos descrentes.

Quando os descrentes morrem, a dor que sentimos não está misturada com a alegria da segurança de que eles foram estar com o Senhor para sempre. Essa dor, especialmente em relação àqueles com quem estivemos bastante ligados, é muito profunda e real. Paulo, ao pensar a respeito de alguns de seus irmãos judeus que haviam rejeitado Cristo, disse: “Digo a verdade em Cristo, não minto; minha consciência o confirma no Espírito Santo: tenho grande tristeza e constante angústia em meu coração. Pois eu até desejaria ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor de meus irmãos, os de minha raça” (Rm 9.1-3).

Deve ser dito ainda que muitas vezes não temos certeza absoluta de que uma pessoa persistiu ate a morte em sua rejeição a Cristo. O conhecimento da morte iminente que uma pessoa tem vai com freqüência produzir uma sondagem genuína do coração por parte da pessoa que está à morte, e às vezes as palavras da Escritura ou palavras de testemunho cristão que foram ouvidas muito tempo atrás serão lembradas, podendo levar ao arrependimento e fé genuínos. Certamente não temos qualquer certeza de que isso aconteceu a menos que haja uma evidência explícita disso, mas também é salutar perceber que em muitos casos temos um conhecimento provável, mas não absoluto de que aqueles a quem conhecemos como descrentes persistiram em sua incredulidade até a morte. Em alguns casos simplesmente não sabemos.

Não obstante, após a morte de um não-cristão certamente seria errado fornecer qualquer indicação a outros de que pensamos que tal pessoa foi para o céu. Isso seria simplesmente fornecer uma informação errônea e uma segurança falsa e diminuiria a urgência da necessidade dos que ainda estão vivos de confiar em Cristo. É muito melhor, em tais ocasiões, à medida que Deus proporciona oportunidade, gastar tempo para refletir sobre nossa vida e nosso destino e ainda partilhar o evangelho com outras. De fato, as ocasiões em que somos capazes de falar como amigos aos amados de um descrente que morreu são muitas vezes as oportunidades que o Senhor abre para falarmos a respeito do evangelho com os que ainda estão vivos.

C. O que acontece quando as pessoas morrem?

1. A alma dos crentes vai imediatamente para a presença de Deus.

A morte é a cessação temporária da vida corporal e a separação entre a alma e o corpo. Uma vez que o crente morre, embora o seu corpo físico permaneça na terra sepultado, no momento da morte sua alma (ou espírito) vai imediatamente para a presença de Deus com regozijo. Quando Paulo reflete sobre a morte, ele diz: “Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Estar ausente do corpo é estar em casa com o Senhor. Ele também diz que o seu desejo é “partir e estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fp 1.23). Jesus disse ao ladrão que estava à sua direita: “Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 2 3.43). O autor de Hebreus diz que, quando os cristãos comparecem para adorar juntos, eles vêm não somente à presença de Deus no céu, mas também à presença dos “espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.23). Contudo, como veremos em mais detalhes a seguir, Deus não vai deixar o corpo para sempre na sepultura, pois, quando Cristo retornar, a alma dos crentes será reunida ao corpo, o corpo será ressuscitado dentre os mortos e os crentes viverão com Cristo eternamente.

a. A Bíblia não ensina a doutrina do purgatório.

O fato de que a alma dos crentes vai imediatamente para a presença de Deus significa que não há nada semelhante a purgatório.

No ensino da Igreja Católica Romana, o purgatório é o lugar para onde a alma dos crentes vai a fim de ser purificada do pecado, até que esteja pronta para ser admitida no céu. De acordo com esse pensamento os sofrimentos do purgatório são dados por Deus em substituição à punição dos pecados que os crentes deveriam ter recebido nesta vida, mas não receberam.

Mas essa doutrina não é ensinada na Escritura, e é de fato contrária aos versículos citados anteriormente.A Igreja Católica Romana retirou o apoio para essa doutrina não das páginas das Escrituras canônicas que os protestantes aceitaram desde a Reforma, mas nos escritos apócrifos. Antes de tudo, deve ser dito que essa literatura não é igual à Escritura em autoridade e não deve ser tomada como fonte de doutrina cheia de autoridade. Além disso, os textos dos quais essa doutrina é derivada contradizem afirmações claras do NT e, assim, se opõem ao ensino da Escritura. Por exemplo, o texto primário usado nesse sentido , 2Macabeus 12.42-45, contradiz as afirmações claras da Escritura citadas anteriormente a respeito de partir para estar com Cristo. O texto diz o seguinte: [Depois, tendo organizado uma coleta individual, Judas Macabeus, o líder das forças judaicas] enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse um sacrifício pelo pecado: agiu assim absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado.

Aqui fica claro que tanto a oração pelos mortos como fazer uma oferta a Deus para libertar os mortos de seus pecados são práticas aprovadas. Mas isso contradiz o ensino explícito do NT de que somente Cristo fez expiação por nós. Essa passagem em 2Macabeus é difícil de enquadrar mesmo com o ensino católico romano, porque ele ensina que orações e sacrifícios deviam ser oferecidos pelos soldados que haviam morrido no pecado mortal da idolatria (que não pode ser perdoado, segundo o ensino de Roma) para possibilitar que eles viessem a ser libertos de seu sofrimento.

Outras passagens às vezes usadas para dar suporte à doutrina do purgatório são Mateus 12.32 e 1 Coríntios 3.15. Em Mateus 12.32, Jesus diz: “Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado, mas quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem nesta era nem na que há de vir”. Ludwig Ott comenta que essa frase “deixa aberta a possibilidade de que pecados são perdoados não somente neste mundo, mas no mundo por vir” . Contudo, isso simplesmente é um erro de raciocínio, pois dizer que alguma coisa não acontecerá na era por vir não implica que possa acontecer na era por vir! O que é necessário para provar a doutrina do purgatório não é uma afirmação negativa como essa, mas uma afirmação positiva que diga que pessoas sofrem com o propósito de ser continuamente aperfeiçoadas até morrerem. Mas a Escritura não diz isso em lugar algum.

Em 1 Coríntios 3.15 Paulo diz que, no diz do julgamento, a obra que uma pessoa fez será julgada e testada pelo fogo, e então conclui: “Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo”. Mas isso não é o mesmo que falar de uma pessoa sendo queimada ou sofrendo punição, mas simplesmente de sua obra sendo testada pelo fogo — o que é bom será igual ao ouro, prata e pedras preciosas, que vão durar para sempre (v. 12). Além disso, o próprio Ott admite que esse fato ocorre não durante esta era, mas durante o dia do “julgamento geral” , o que indica que dificilmente esse texto pode ser usado como argumento convincente para o purgatório.

Um problema ainda mais sério com essa doutrina é que ela ensina que devemos acrescentar alguma coisa à obra redentora de Cristo e que a sua obra redentora por nós não foi suficiente para pagar a penalidade de todos os nossos pecados. Mas isso é certamente contrário ao ensino da Escritura. Além disso, em sentido pastoral, a doutrina do purgatório rouba dos crentes o grande conforto que lhes deveria pertencer por saber que os que morreram foram imediatamente para a presença do Senhor e por saber que eles também, quando morrerem, partirão e estarão “com Cristo, o que é muito melhor” (Fp 1.23).

b. A Bíblia não ensina a doutrina do “sono da alma”.

O fato de que a alma dos crentes vai imediatamente para a presença de Deus também significa que a doutrina do sono da alma é incorreta. Essa doutrina ensina que, quando morrem, os crentes entram no estado de existência inconsciente, e a próxima coisa de que terão consciência será quando Cristo retornar e os ressuscitar para a vida eterna. Essa doutrina nunca encontrou grande aceitação na igreja.

O suporte para esse pensamento tem sido geralmente encontrado no fato de que a Escritura diversas vezes fala do estado dos mortos como de um sono ou de “adormecer” (Mt 9.24; 27.52; Jo 11.11; At 7.60; 13.36; lCo 15.6,18,20,51; lTs 4.13; 5. l0). Além disso, certas passagens parecem ensinar que os mortos não possuem existência consciente (v. Sl 6.5; 115.17 [mas repare no v. 18!] ; Ec 9.10; Is 38.19) . Porém, quando a Escritura apresenta a morte como sono, trata-se simplesmente de uma expressão metafórica usada para indicar que a morte é somente temporária para os cristãos, exatamente como o sono é temporário. Isso é claramente visto, por exemplo, quando Jesus fala com seus discípulos a respeito da morte de Lázaro. Ele diz: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou até lá para acordá-lo” (Jo 11.11). Então João explica: “Jesus tinha falado de sua [de Lázaro] morte, mas os seus discípulos pensaram que ele estava falando simplesmente do sono. Então lhes disse claramente: ‘Lázaro morreu”'(Jo 11.13,14). As outras passagens que falam a respeito de pessoas dormindo quando morrem devem ser também interpretadas como simplesmente uma expressão metafórica para ensinar que a morte é temporária.

Com respeito às passagens que indicam que os mortos não louvam a Deus ou que há uma cessação de atividade consciente quando as pessoas morrem, devem ser todas entendidas da perspectiva da vida neste mundo. De nossa perspectiva, parece que, uma vez que as pessoas morrem, elas não se dedicam nunca mais a essas atividades... Mas o salmo 115 apresenta uma perspectiva plenamente bíblica desse ponto de vista. Ele diz: “Os mortos não louvam o SENHOR, tampouco nenhum dos que descem ao silêncio”(v. 17). Todavia, ele prossegue no próximo versículo com um contraste, demonstrando que os que crêem em Deus bendirão o Senhor para sempre: “ Mas nós bendiremos O SENHOR, desde agora e para sempre! Aleluia!” (v. 18).

Em última análise, as passagens citadas demonstrando que a alma dos crentes vai imediatamente para a presença de Deus e desfruta comunhão com ele ali (2Co 5.8; Fp 1.23; Lc 23.43; Hb 12.23) indicam, todas elas, que há para o crente existência consciente e comunhão com Deus imediatamente após a morte. Jesus não disse: “Hoje você não terá mais consciência de qualquer coisa que está por acontecer”, e sim: “Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 23.43). Certamente a concepção de paraíso entendida naquela época não era a de existência inconsciente, mas de grande bênção e alegria na presença de Deus. Paulo não diz: “Desejo partir e ficar inconsciente por um longo período de tempo”, mas antes “desejo partir e estar com Cristo” (Fp 1.23). Ele certamente sabia que Cristo não estava inconsciente, o Salvador adormecido, mas o Salvador que estava vivo e reinando no céu. Estar com Cristo significava desfrutar a bênção da comunhão da sua presença, e essa é a razão por que partir e estar com Cristo era “muito melhor” (Fp 1.23). Assim, ele diz: “Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5.8).

c. Devemos orar pelos mortos?

Finalmente, o fato de que a alma dos crentes vai imediatamente para a presença de Deus significa que nós não devemos orar pelos mortos. Embora a oração pelos mortos seja ensinada em 2Macabeus 12.42-45 (v. anteriormente), em lugar algum da Escritura isso é ensinado.Além disso, não há indicação alguma de que essa tenha sido a prática dos cristãos no tempo do NT, nem deveria ter sido. Uma vez que os crentes morrem, entram na presença de Deus e ficam no estado de alegria perfeita com ele. Que bom não ter de orar por eles nunca mais! A recompensa celeste final será baseada em atos praticados nesta vida, como a Escritura repetidamente testifica (1 Co 3.12-15; 2Co 5.10; ect.) . Ademais, a alma dos descrentes que morrem vai para o lugar de punição e de eterna separação da presença de Deus. Não seria bom orar por eles também, visto que o destino final deles é estabelecido por seus pecados e por sua rebelião [Em outros dois usos do NT, a palavra paraíso significa ”céu”. Em 2Coríntios 12.4 é o lugar ao qual Paulo foi arrebatado em sua revelação do céu, e em Apocalipse 2.7 é o lugar onde encontramos a árvore da vida.] contra Deus nesta vida. Orar pelos mortos, portanto, é simplesmente orar por algo que Deus nos disse que já foi decidido. Além disso, ensinar que devemos orar pelos mortos ou incentivar outros a fazer isso seria encorajar a falsa esperança de que o destino das pessoas pode ser mudado após a morte delas, algo que a Escritura não nos orienta a fazer em lugar algum.

2. A alma dos descrentes vai imediatamente para a punição eterna.

A Escritura nunca nos encoraja a pensar que as pessoas terão outra oportunidade de confiar em Cristo após a morte. De fato, trata-se exatamente do contrário. A parábola de Jesus a respeito do rico e de Lázaro não dá esperança alguma de que as pessoas possam passar do inferno para o céu após terem morrido. Embora o rico no inferno tivesse gritado : “Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo”, Abraão lhe respondeu: “entre vocês e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o seu, ou do seu lado para o nosso, não conseguem”(Lc 16.24-26).

O livro de Hebreus associa a morte com a conseqüência do julgamento em uma seqüência imediata: “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo” (Hb 9.27). Além disso, a Escritura nunca apresenta o juízo final como dependente de qualquer coisa feita após a nossa morte, mas dependendo somente do que aconteceu nesta vida (Mt 25.31-46; Rm 2.5-10; cf. 2Co 5. 10) . Alguns argumentam a favor de outra oportunidade para se crer no evangelho com base na pregação de Cristo aos espíritos em prisão em 1 Pedro 3.18-20 e na pregação do evangelho “a mortos” em 1 Pedro 4.6 , mas essas são interpretações inadequadas dos versículos em questão e, numa análise mais precisa, não dão apoio a tal pensamento.

Devemos também perceber que a idéia de que haverá outra oportunidade de aceitar Cristo após a morte é baseada na suposição de que cada pessoa merece uma oportunidade para aceitar Cristo e que a punição eterna vem aos que conscientemente decidem rejeitá-lo. Mas certamente essa idéia não tem o apoio da Escritura; todos nós somos pecadores por natureza e escolha, e realmente ninguém merece nenhuma graça de Deus nem nenhuma oportunidade de ouvir o evangelho de Cristo — que vêm ao homem somente por causa do favor imerecido de Deus. A condenação vem não somente por causa da rejeição deliberada de Cristo, mas também por causa dos pecados que todos cometemos e da rebelião contra Deus que esses pecados representam (v. Jo 3.18)

Embora os descrentes passem para o estado de punição eterna imediatamente após a morte, o corpo deles não será ressuscitado até o dia do juízo. Naquele dia, o corpo de cada um será ressuscitado e reunido à alma, e comparecerão perante o trono de Deus para o juízo final que vai ser pronunciado sobre eles, incluindo o corpo (v. Mt 25.31-46; Jo 5.28,29; At 24.15; Ap 20.12,1 5) . Isso nos conduz à consideração da ressurreição do corpo do crente, que é o passo final de sua redenção.

D. Glorificação

Como foi mencionado anteriormente, Deus não deixará nosso corpo morto na sepultura para sempre. Quando Cristo nos redimiu, ele não redimiu apenas nosso espírito (ou alma) — ele nos redimiu como pessoas completas, e isso inclui a redenção de nosso corpo. Portanto, a aplicação da obra redentora de Cristo a nós não será completa até que nosso corpo seja inteiramente liberto dos efeitos da queda e trazido ao estado de perfeição para o qual Deus o criou. De fato, a redenção de nosso corpo ocorrerá somente quando Cristo retornar e ressuscitá-lo dentre os mortos. Mas, no tempo presente, Paulo diz que esperamos pela “redenção do nosso corpo” e então acrescenta: “Pois nessa esperança fomos salvos” (Rm 8.23,24). O estágio da aplicação da redenção em que receberemos por fim o corpo ressuscitado é chamado de glorificação. Referindo-se àquele dia futuro, Paulo diz que participaremos da glória de Cristo (cf. Rm 8.17) . Além disso, quando Paulo traça os passos na aplicação da redenção, o último que menciona é a glorificação: “E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou” (Rm 8.30).

Podemos definir glorificação da seguinte maneira: A glorificação é o passo final na aplicação da redenção. Ela acontecerá quando Cristo retornar e ressuscitar dentre os mortos os corpos de todos os crentes de todas as épocas que morreram e reuni-los às respectivas almas, e mudar os corpos de todos os crentes que permanecerem vivos, dando assim a todos os crentes ao mesmo tempo um corpo ressuscitado perfeito igual ao seu.

1. Razão bíblica apresentada para a glorificação.

A passagem mais importante do NT para a glorificação ou ressurreição do corpo é lCoríntios 15.12-58. Paulo diz : [...] em Cristo todos serão vivificados . Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem (v. 22,23). Paulo discute a natureza da ressurreição do corpo em alguns detalhes nos versículos 35-50 , e a seguir conclui a passagem dizendo que nem todos os cristãos morrerão, mas alguns que permanecerem vivos quando Cristo retornar simplesmente terão seu corpo instantaneamente transformado em um novo corpo ressurreto, que nunca irá envelhecer, enfraquecer ou morrer: “Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados” (lCo 15.51,52).

Posteriormente Paulo explica em lTessalonicenses que a alma dos que morreram e foram estar com Cristo voltará e se unirá ao corpo naquele dia, pois Cristo a trará consigo :”Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram” (lTs 4.14). Mas aqui Paulo não somente afirma que Deus trará mediante Jesus os que morreram; ele também afirma que “ os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (lTs 4.16). Assim, esses crentes que morreram com Cristo também ressuscitarão para se encontrar com ele (Paulo diz no v. 17 que “nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares”). Isso somente faz sentido se diz respeito à alma dos crentes que partiram para a presença de Cristo e que retornam com ele, e se é o corpo deles que é ressuscitado dentre os mortos para ser reunido à sua alma e, então, ascender para estar com ele.

2. Com que se assemelhará o corpo ressurreto?

Se Cristo vai ressuscitar o nosso corpo dentre os mortos quando retornar e se nosso corpo será igual ao seu corpo ressurreto (1 Co 15.20,23,49; Fp 3.21), então a que se assemelhará nosso corpo?

Usando o exemplo de lançar a semente no solo e então aguardá-la crescer e se tornar algo muito mais maravilhoso, Paulo passa a explicar em detalhes com o que nosso corpo será parecido: “Assim será a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual. [...] Assim como tivemos a imagem do homem terreno, teremos também a imagem do homem celestial” (lCo 15.42-44,49).

Paulo primeiro afirma que nosso corpo ressuscitado será “imperecível”. Isso significa que ele não se desgastará nem envelhecerá, nem mesmo estará sujeito a qualquer espécie de doença ou enfermidade. Ele será completamente sadio e forte para sempre.Além disso, já que o processo gradual de envelhecimento é parte do processo pelo qual nosso corpo está agora sujeito à pericibilidade, é apropriado pensar que nosso corpo ressuscitado não apresentará qualquer sinal de envelhecimento, antes terá as características da juventude mas ao mesmo tempo de masculinidade ou feminilidade madura para sempre. Não haverá qualquer evidência de doença ou dano, pois todos se tornarão perfeitos. Nosso corpo ressuscitado evidenciará o cumprimento da sabedoria perfeita de Deus em nos criar como seres humanos que são a coroa da sua criação e os portadores apropriados de sua imagem e semelhança. No corpo ressuscitado claramente veremos a humanidade como Deus pretendeu que fosse.

Paulo também diz que nosso corpo será ressuscitado “em glória”. Quando esse termo é contrastado com “desonra”, como é aqui, há uma insinuação da beleza ou da atração que nosso corpo exercerá. Ele não mais será ”desonrável” ou desprovido de atração, mas parecerá “glorioso” em sua beleza. Ele pode até possuir um fulgor radiante em si mesmo (v. Dn 12.3; Mt 13.43).

Nosso corpo também será ressuscitado “em poder” (lCo 15.43). Isso contrasta com a “fraqueza” que vemos em nosso corpo agora. Nosso corpo ressurreto não será somente livre das doenças e do envelhecimento, também receberá plenitude de força e poder — não um poder infinito como o de Deus, naturalmente, e provavelmente nada que se assemelhe a um poder “super-humano” no sentido dos super-heróis da moderna literatura de ficção para crianças, por exemplo; mas ele terá mesmo assim a força e o poder humanos de maneira completa e plena, a força que Deus pretendeu que os seres humanos tivessem em seu corpo quando originariamente os criou. Portanto, ele terá força suficiente para fazer tudo o que desejarmos e que estiver de conformidade com a vontade de Deus.

Por último, Paulo diz que o corpo ressuscitado é um “corpo espiritual” (lCo 15.44). Nas cartas paulinas, a palavra “espiritual” (gr., pneumatikos) nunca significa “não-físico”, e sim “consistente com o caráter e a atividade do Espírito Santo” (v.,p.ex.,Rm 1.11; 7.14; lCo 2.13,15; 3.1; 14.37; Gl 6.1 [“vocês, que são espirituais”]; Ef 5.19). Por isso, a expressão “corpo material” (encontrada em algumas traduções) é inadequada, pois em contraste com “corpo espiritual”. 0 fato de o sinal dos cravos permanece nas mãos de Jesus é um caso especial para nos fazer lembrar do preço que foi pago por nossa redenção, não deve ser entendido que quaisquer marcas ou lesões permanecerão em nós, daria a entender que “corpo espiritual” é um corpo não-físico, imaterial. Em vez de “corpo material”, a tradução melhor seria “corpo natural”. A seguinte paráfrase é esclarecedora: “É semeado um corpo natural [isto é, sujeito às características e aos desejos desta era, dominado por sua vontade pecaminosa] e ressuscita um corpo espiritual [isto é, integralmente sujeito à vontade do Espírito Santo e suscetível à orientação dele] ”. Não se trata de um corpo “não-físico”, mas de um corpo físico ressuscitado e elevado ao grau de perfeição que originariamente Deus pretendeu que tivéssemos. Os exemplos repetidos em que Jesus demonstrou aos discípulos que ele tinha um corpo físico que era capaz de ser tocado, que possuía carne e OSSOS (Lc 24.39) e que poderia comer mostram que o corpo de Jesus, que é modelo para o nosso, era claramente um corpo físico que havia se tornado perfeito.

Para concluir, quando Cristo retornar, ele nos dará novos corpos para que sejam iguais ao seu corpo ressurreto: “... sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (lJo 3.2; essa afirmação é verdadeira não somente no sentido ético, mas também em termos de nosso corpo físico; cf. 1 Co 15.49; tb. Rm 8.29). Tal segurança proporciona a afirmação clara de que a criação física de Deus é boa. Viveremos nos corpos que terão todas as qualidades excelentes que Deus criou para que as tivéssemos e, assim, para sempre seremos prova viva da sabedoria de Deus em fazer tudo na criação material, desde o princípio, “muito bom” (Gn 1.31). Viveremos como crentes ressuscitados no novo corpo,e ele será adequado para a nossa habitação nos “novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2Pe 3.13).

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática, Editora Vida Nova.

O juízo final e a punição eterna


O juízo final e a punição eterna

• Quem será julgado?

• Que é inferno?

1. EXPLANAÇÃO E BASE BÍBLICA

A. A realidade do juízo final

A Escritura muitas vezes afirma o fato de que haverá um grande juízo final de crentes e descrentes. Eles comparecerão perante o julgamento de Cristo com seus corpos ressuscitados e ouvirão a proclamação que ele fará do destino eterno deles.

O juízo final é vividamente apresentado na visão de João no Apocalipse:

Depois vi um grande trono branco e aquele que nele estava assentado. A terra e o céu fugiram da sua presença, e não se encontrou lugar para eles.Vi também os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha feito. Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte. Aqueles cujos nomes não foram encontrados no livro da vida foram lançados no lago de fogo (Ap 20.11-15).

Muitas outras passagens ensinam sobre o juízo final. Paulo diz aos filósofos gregos em Atenas: Deus [...] agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que ha de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (At 17.30,31). Semelhantemente, Paulo fala a respeito do “dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento”(Rm 2.5). Outras passagens falam claramente de um dia de juízo que virá (v. Mt 10.15; 11.22,24; 12.36; 25.31-46; lCo 4.5; Hb 6.2; 2Pe 2.4; Jd 6 etc.).

Esse juízo final é o auge de muitos juízos precursores nos quais Deus recompensou a retidão e puniu a injustiça por toda a história. Ao mesmo tempo em que trouxe bênção e libertação do perigo para os que lhe foram fiéis, incluindo Abel, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi e os fiéis dentre o povo de Israel, ele também vez por outra trouxe juízo sobre os que persistiram na desobediência e na incredulidade; seus juízos incluíram o Dilúvio, a dispersão do povo na Torre de Babel, os juízos sobre Sodoma e Gomorra e os contínuos julgamentos ao longo de toda a história, tanto sobre indivíduos (Rm 1.18-32) quanto sobre nações (Is 13— 23) que persistiram no pecado. Além disso, na esfera espiritual invisível, ele trouxe juízo sobre os anjos que pecaram (2Pe 2.4). Pedro nos recorda que os juízos de Deus têm sido cumpridos periodicamente e de forma positiva, e isso nos lembra que um juízo final ainda está por vir, pois “o Senhor sabe livrar os piedosos da provação e manter em castigo os ímpios para o dia do juízo, especialmente os que seguem os desejos impuros da carne e desprezam a autoridade” (2Pe 2.9,10).

B. O tempo do juízo final

O juízo final ocorrerá após o milênio e a rebelião que vai ocorrer no final dele. João apresenta o reino milenar e a remoção de Satanás para não influenciar a terra em (Apocalipse 20.1-6) e, então, diz: ‘Quando terminarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá para enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra [...] a fim de reuni-las para a batalha” (Ap 20.7,8). Após Deus derrotar decisivamente essa rebelião final (Ap 20.9,10), João nos diz que o juízo se seguirá: ‘Depois vi um grande trono branco e aquele que nele estava assentado” (v. 11).

C. A natureza do juízo final

1. Jesus Cristo será o juiz.

Paulo fala de “Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos” (2Tm 4.1). Pedro diz que Jesus Cristo é aquele “que Deus constituiu juiz de vivos e de mortos” (At 10.42; cf. 17.3 1; Mt 25.31-33). Esse direito de agir como juiz sobre todo o universo é algo que o Pai deu ao Filho: “o Pai [...J deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem” (Jo 5.26,27).

2. Os descrentes serão julgados.

Está claro que todos os descrentes comparecerão perante o tribunal de Cristo para julgamento, pois esse julgamento inclui “os mortos, grandes e pequenos (Ap 20.12), e Paulo fala do “dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento” e que “Deus ‘retribuirá a cada um conforme o seu procedimento’. [...] haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça” (Rm 2.5,6,8).

Esse juízo dos descrentes incluirá graus de punição, pois lemos que os mortos “foram julgados de acordo com o que tinham feito” (Ap 20.12,13); esse julgamento de acordo com o que as pessoas tiverem feito, portanto, deve envolver a avaliação das obras que as pessoas fizeram. Semelhantemente, Jesus diz: “Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12.47,48). Quando Jesus diz às [‘O fato de que haverá graus de punição para os descrentes de acordo com suas obras não significa que os descrentes venham a fazer coisas boas para merecer a aprovação de Deus ou ganhar a salvação, pois a salvação vem somente como dom gratuito para os que confiam em Cristo: ”Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus” (Jo 3.18). Para a discussão do fato de que não haverá “outra oportunidade” para as pessoas aceitarem Cristo após a morte] cidades de Corazim e Betsaida: “Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês” (Mt 11.22; cf. v. 24), ou quando diz que os escribas “serão punidos com maior rigor” (Lc 20.47), sugere que haverá graus de punição no último dia.

De fato, cada ação errônea será lembrada e levada em conta na punição que se dará naquele dia, porque “ no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado” (Mt 12.36). Cada palavra dita, cada ato cometido serão trazidos à luz e receberão julgamento: “Pois Deus trata a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mau” (Ec 12.14).

Como esses versículos indicam, no dia do juízo os segredos do coração das pessoas serão revelados e tornados públicos. Paulo fala do dia “em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo, conforme o declara o meu evangelho” (Rm 2.16; cf. Lc 8.17). “Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido. O que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados” (Lc 12.2,3).

3. Os crentes serão julgados.

Escrevendo a cristãos, Paulo diz: “Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus. [...] Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14.10,12). Ele também diz aos coríntios: “Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más” (2Co 5.10; cf. Rm 2.6-11; Ap 20.12,15). Além disso, a apresentação do juízo final em Mateus 25.31-46 inclui Cristo separando as ovelhas dos bodes e recompensando os que recebem sua bênção.

É importante perceber que esse julgamento dos crentes será um julgamento para avaliar e conceder vários graus de recompensa (v. a seguir), mas o fato de que eles enfrentarão um julgamento nunca deveria causar nos crentes qualquer temor de serem eternamente condenados. Jesus diz: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Aqui a condenação deve ser entendida no sentido de morte e condenação eterna, já que é contrastada com o passar da morte para a vida. No dia do juízo final, mais que em outra oportunidade, é de extrema importância o fato de que “agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1) . Assim, o dia do juízo pode ser descrito como um dia em que os cristãos serão recompensados e os descrentes, punidos: “As nações se iraram; e chegou a tua ira. Chegou o tempo de julgares os mortos e de recompensares os teus servos, os profetas, os teus santos e os que temem o teu nome, tanto pequenos como grandes, e de destruir os que destroem a terra” (Ap 11.18).

Todas as palavras secretas, todos os atos dos crentes e todos os seus pecados serão revelados no último dia? Poderíamos pensar no princípio assim, porque, escrevendo aos crentes a respeito do dia do juízo, Paulo diz que, quando o Senhor voltar, “ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação” (lCo 4.5; cf. Cl 3.25). Todavia, esse é um contexto que fala a respeito da recomendação ou louvor (gr., epainos) que vem de Deus, podendo não se referir aos pecados. E outros versículos sugerem que Deus nunca mais chamará nossos pecados à lembrança: “atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mal” (Mq 7.19); “e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões” (Sl 103.12); “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados” (Is 43.25); “Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados” (Hb 8.12; cf. 10.17).

De qualquer forma, o fato de que compareceremos perante Deus para que nossa vida seja avaliada será um motivo para vivermos piedosamente, e Paulo usa-o desse modo em 2Coríntios 5.9,10: “Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer o deixemos. Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más”. Mas essa perspectiva não deve jamais causar terror ou alarme na vida dos crentes, porque mesmo os pecados que serão tornados públicos naquele dia já foram perdoados, e por isso eles serão uma oportunidade para dar glória a Deus pela riqueza de sua graça.

A Escritura também ensina que haverá graus de recompensa para os crentes. Paulo encoraja os coríntios a ser cuidadosos quanto a edificar a igreja sobre o fundamento que já havia sido lançado — o próprio Jesus Cristo.

Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo ( lCo 3.12-15).

Semelhantemente, Paulo diz dos cristãos: “Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más” (2Co 5.10), sugerindo novamente a idéia de graus de recompensa pelo que fizemos nesta vida. Igualmente, na parábola das minas, foi dito ao que fez render dez minas: “Muito bem, meu bom servo! [...] Por ter sido confiável no pouco, governe sobre dez cidades”. Ao que fez render cinco minas, foi dito: ”Também você, encarregue-se de cinco cidades” (Lc 19.17,19). Muitas outras passagens igualmente ensinam ou sugerem graus de recompensa para os crentes no juízo final.

Mas devemos nos precaver contra qualquer entendimento errôneo neste ponto. Embora saibamos que haverá graus de recompensa nos céus, a alegria de cada pessoa será plena e completa pela eternidade. Se perguntarmos como isso pode acontecer, quando há diferentes graus de [O ensino da Bíblia sobre os graus de recompensa no céu é mais amplo do que os cristãos normalmente percebem: Dn 12.2; Mt 6.20,21; 19.21; Lc 6.22,23; 12.18-21,32,42-48; 14.13,14; lCo 3.8; 9.18; 13.3; 15.19,29-32,58; Gl 6.9,10; Ef 6.7,8; Cl 3.23,24; lTm 6.18; Hb 10.34,35; 11.10,14-16,26,35; lPe 1.4; 2João 8; Ap 11.18; 22.12; cf. tb. Mt 5.46; 6.2-6,16-18,24; Lc 6.35.] recompensa, tal fato demonstrará que nossa percepção de alegria é baseada na suposição de que a alegria depende do que possuímos, ou da posição ou poder que temos. Na realidade, contudo, nossa verdadeira alegria consiste em ter prazer em Deus e em regozijar-nos na posição e no reconhecimento que ele nos deu. A tolice de pensar que somente os que foram altamente recompensados e que receberam posição elevada é que serão plenamente felizes no céu é vista quando percebemos que, não importa quão grande seja a recompensa que nos for dada, haverá sempre aqueles com recompensas maiores ou que possuem posição e autoridade maiores, incluindo os apóstolos, as criaturas celestiais, Jesus Cristo e o próprio Deus. Portanto, se a posição mais elevada fosse essencial para as pessoas serem felizes, ninguém seria mais feliz que Deus no céu, o que é certamente uma idéia incorreta. Além disso, aqueles com recompensa e honra maiores no céu, os mais próximos do trono de Deus, teriam prazer não na posição, mas somente no privilégio de se prostrarem diante do trono de Deus para adorá-lo (v.Ap 4.10,11).

Seria moral e espiritualmente benéfico que adquiríssemos uma consciência maior desse ensino claro do NT sobre os graus de recompensa celestial. Ao invés de nos tornar competitivos uns com os outros, ele despertaria em nós o senso de ajudar e de encorajar uns aos outros para que todos pudéssemos aumentar nossa recompensa celestial, pois Deus tem capacidade infinita de trazer bênçãos a nós todos, e todos nós somos membros uns dos outros (v. lCo 12.26,27). Devemos atentar com fervor à admoestação do autor de Hebreus: “E consideremos uns aos Outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia” (Hb I0.24,25). Ademais, o coração sincero ansiando por recompensa celestial nos motivaria ao trabalho muito sincero para o Senhor em qualquer tarefa para a qual ele nos chamasse, seja grande seja pequena, recebendo salário ou não. Isso também nos faria desejosos de sua aprovação antes que de riqueza ou sucesso e nos motivaria a trabalhar na edificação da igreja sobre o único fundamento, Jesus Cristo (lCo 3.10-15).

4. Os anjos serão julgados.

Pedro diz que os anjos rebeldes foram lançados no inferno ,”a fim de serem reservados para o juízo” (2Pe 2.4) , e Judas diz que os anjos rebeldes foram guardados por Deus sob trevas “para o juízo do grande Dia” (Jd 6). Isso significa que ao menos os anjos rebeldes ou demônios também estarão sujeitos ao juízo no último dia.

A Escritura não indica claramente se os anjos santos também estarão sob uma espécie de avaliação por seus serviços, mas é possível que estejam incluídos na afirmação de Paulo : “Vocês não sabem que havemos de julgar os anjos?’ (lCo 6.3) . É provável que isso inclua anjos santos, porque não há nenhuma indicação no contexto de que Paulo esteja falando de demônios ou anjos caídos, e a palavra anjos sem qualquer qualificação adicional no NT deve ser normalmente entendida como referência aos anjos santos. Mas o texto não é explícito o suficiente para que tenhamos certeza do que afirmamos.

D. A necessidade do juízo final

Desde que os crentes passam imediatamente para a presença de Deus quando morrem e que os descrentes passam para o estado de separação de Deus, suportando a punição quando morrem, podemos nos espantar pelo fato de Deus ter um tempo de juízo final estabelecido. Berkhof sabiamente assinala que o juízo final não tem o propósito de permitir que Deus conheça a condição de nosso coração ou o padrão de conduta de nossa vida, pois ele já sabe tudo isso em todos os detalhes. Em vez disso, Berkhof comenta, sobre o juízo final:

Seu propósito é, antes, expor diante de todas as criaturas racionais a glória declarativa de Deus num ato formal e forense que, por um lado, engrandecerá a Sua santidade e justiça, e, por outro lado, engrandecerá a Sua graça e misericórdia. Ademais, devemos ter em mente que o juízo do último dia será diferente daquele que ocorre na morte de cada indivíduo em mais de um aspecto. Não será secreto, mas público; não terá referência a um só indivíduo, mas a todos os homens.

E. A justiça de Deus no juízo final

A Escritura afirma claramente que Deus será totalmente justo no seu juízo e ninguém será capaz de reclamar qualquer coisa perante ele naquele dia. Deus é aquele que “julga imparcialmente as obras de cada um’ (lPe 1.17), e “em Deus não há parcialidade” (Rm 2.11; cf. Cl 3.25). Por essa razão, no último dia, que “toda boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus” (Rm 3.19), sendo que ninguém será capaz de reclamar que Deus o tratou com injustiça. De fato, uma das grandes bênçãos do juízo final será que os santos e anjos verão a justiça pura de Deus sendo absolutamente demonstrada, e isso será uma fonte de louvor a ele por toda a eternidade. No tempo do juízo, haverá grande louvor no céu, pois João diz: “Depois disso ouvi nos céus algo semelhante à voz de uma grande multidão, que exclamava: ‘Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus, pois verdadeiros e justos são os seus juízos”’ (Ap 19.1,2).

F. Aplicação moral do juízo final

A doutrina do juízo final tem diversas influências morais positivas em nossa vida.

1. A doutrina do juízo final satisfaz nosso senso interior de necessidade de justiça no mundo.

O fato de que haverá o juízo final assegura-nos de que o universo de Deus em última

análise é justo, pois Deus está no controle e mantém os registros exatos, tornando justo o juízo. Quando Paulo admoesta os escravos para que sejam submissos aos senhores, lhes assegura: “Quem cometer injustiça receberá de volta injustiça, e não haverá exceção para ninguém” (Cl 3.25). Quando o quadro do juízo final menciona o fato de que ”livros foram abertos” (Ap 20.12; cf. Ml 3.16), isso nos lembra (sejam os livros literais ou simbólicos) que o registro permanente e exato de todos os nossos atos foi guardado por Deus, e finalmente todas as contas serão acertadas e todos serão tornados justos.

2. A doutrina do juízo final capacita-nos a perdoar a outros livremente.

Percebemos que não cabe a nós vingar-nos dos que erraram contra nós, ou mesmo querer fazê-lo, porque Deus reservou esse direito para si próprio.”Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito : ’Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor” (Rm 12.19). Desse modo, sempre que alguém nos prejudicar, devemos deixar nas mãos de Deus o desejo de dar o troco à pessoa que errou contra nós, sabendo que cada erro no universo será finalmente cobrado — será eliminado por ter sido pago por Cristo quando ele morreu na cruz (se o malfeitor se torna cristão), ou será cobrado no juízo final (pago por quem não confiou em Cristo para ser salvo). Mas, em qualquer um dos casos, podemos entregar a situação nas mãos de Deus e então orar para que o malfeitor venha a confiar em Cristo e, desse modo, receba perdão de seus pecados. Esse pensamento deveria guardar-nos de armazenar amarguras ou ressentimentos em nosso coração por injustiças que sofremos quando as coisas não foram feitas corretamente: Deus é justo, e podemos deixar essas situações nas suas mãos, sabendo que algum dia ele corrigirá todos os erros e dará recompensas e punições justas. Desse modo, estamos seguindo o exemplo de Cristo: “Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (lPe 2.23). Ele também orou: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34; cf.At 7.60, quando Estêvão seguiu o exemplo de Jesus orando por aqueles que o matavam).

3. A doutrina do juízo final motiva-nos a viver retamente.

Para os crentes, o juízo final é um incentivo à fidelidade e boas obras; não serve como um meio para obter perdão de pecados, mas como meio de ganhar recompensa eterna maior. Esse é um motivo saudável e positivo para nós — Jesus nos diz: “acumulem para vocês tesouros nos céus” (Mt 6.20) —, embora essa idéia bata de frente com o conceito popular de nossa cultura secular, uma cultura que realmente não crê de forma nenhuma no céu ou nas recompensas eternas.

Para os descrentes, a doutrina do juízo final ainda proporciona algum refreamento moral em suas vidas. Se na sociedade há reconhecimento geral e difundido de que todos algum dia darão contas ao Criador do universo de suas vidas, algum “temor de Deus” vai caracterizar a vida de muitas pessoas. Ao contrário, os que não possuem nenhuma consciência profunda do juízo final se entregarão à pratica do mal em escala cada vez maior, demonstrando que aos “seus olhos é inútil temer a Deus” (Rm 3.18). Sobre os que negam o juízo final, Pedro diz que são “escarnecedores”: “Antes de tudo saibam que, nos últimos dias, surgirão escarnecedores zombando e seguindo suas próprias paixões. Eles dirão: ‘O que houve com a promessa da sua vinda?”’ (2Pe 3.3,4). A consciência do juízo final é conforto para os crentes e advertência aos descrentes para não continuarem em seus maus caminhos.

4. A doutrina do juízo final proporciona grande motivo para a evangelização.

As decisões feitas pelas pessoas nesta vida afetarão o destino delas por toda a eternidade, e é correto que nosso coração sinta e que nossa boca ecoe o mesmo sentimento de apelo a Deus que vemos em Ezequiel: “Voltem-se dos seus maus caminhos! Por que o seu povo haveria de morrer, ó nação de Israel?” (Ez 33.11). De fato, Pedro salienta que o retardamento do retorno do Senhor é devido ao fato de que Deus “é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9).

G. Inferno

É oportuno discutir a doutrina do inferno em conexão com a doutrina do juízo final. Podemos definir o inferno da seguinte maneira: Inferno é o lugar de punição eterna e consciente destinado ao ímpio. A Escritura ensina em diversas passagens que tal lugar existe. No final da parábola dos talentos, o senhor diz: “E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt 25.30). Essa é uma entre as diversas indicações de que haverá consciência de punição após o julgamento final. Semelhantemente, no juízo o rei dirá a alguns: “Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos” (Mt 25.41), e Jesus diz que esses assim condenados “irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25.46). Nesse texto, o paralelo entre “vida eterna” e “castigo eterno” indica que ambos os estados são eternos.

Jesus refere-se ao inferno como “fogo que nunca se apaga” (Mc 9.43) e diz que o inferno é o lugar onde “o seu verme não morre, e o fogo não se apaga” (Mc 9.48). A história do rico e de Lázaro também indica uma consciência horrível da punição: ”Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado. No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado. Então, chamou-o: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo”’ (Lc 16.22-24). Então ele suplica a Abraão: “manda Lázaro ir à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos. Deixa que ele os avise, a fim de que eles não venham também para este lugar de tormento” (Lc 16.28).

Quando nos voltamos para o Apocalipse, as descrições da punição eterna são também muito
explícitas: Um terceiro anjo os seguiu, dizendo em alta voz: “Se alguém adorar a besta e a sua imagem e receber a sua marca na testa ou na mão, também beberá do vinho do furor de Deus que foi derramado sem mistura no cálice da sua ira. Será ainda atormentado com enxofre ardente na presença dos santos anjos e do Cordeiro, e a fumaça do tormento de tais pessoas sobe para todo o sempre. Para todos os que adoram a besta e a sua imagem, e para quem recebe a marca do seu nome, não há descanso, dia e noite’» (Ap 14.9-11).

Essa passagem afirma claramente a idéia da punição consciente e eterna dos descrentes.

Com respeito ao juízo sobre a cidade ímpia da Babilônia, uma grande multidão no céu grita:
“Aleluia! A fumaça que dela vem, sobe para todo o sempre” (Ap 19.3). Após a rebelião final de Satanás ser esmagada, lemos: “O Diabo, que as enganava, foi lançado no lago de fogo que arde com enxofre, onde já haviam sido lançados a besta e o falso profeta. Eles serão atormentados dia e noite, para todo o sempre” (Ap 20.10). Essa passagem é também importante em associação com Mateus 25.41, na qual os descrentes são enviados “para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos”. Esses versículos devem fazer-nos perceber a imensidão do mal que é encontrado no pecado e na rebelião contra Deus e também a magnitude da santidade e da justiça de Deus que provoca essa espécie de punição.

A idéia de que haverá a consciência de punição eterna dos descrentes tem sido negada recentemente mesmo por alguns teólogos evangélicos. Ela havia sido negada anteriormente pela Igreja Adventista do Sétimo Dia e por diversos indivíduos por toda a história da igreja. Os que negam a punição eterna consciente muitas vezes advogam o ”aniquilacionismo”, ensino segundo o qual, após os ímpios terem sofrido a penalidade da ira de Deus por algum tempo, Deus os aniquilará, de modo que passarão a não mais existir. Muitos que crêem no aniquilacionismo também sustentam a realidade do juízo final e da punição pelo pecado, mas argumentam que, após os pecadores terem sofrido por certo período de tempo, suportando a ira de Deus contra seus pecados, eles finalmente cessarão de existir. A punição será, portanto, “consciente” mas não “eterna”.

Os argumentos a favor do aniquilacionismo são: 1) as referências bíblicas à destruição do ímpio, que, dizem alguns, sugerem que eles não mais vão existir após serem destruídos (Fp 3.19; lTs 5.3; 2Ts 1.9; 2Pe 3.7); 2) a aparente incompatibilidade entre a punição eterna consciente e o amor de Deus; 3) a aparente injustiça envolvida na desproporção entre os pecados, cometidos no tempo, e a punição, que é eterna; e 4) o fato de que a presença contínua de criaturas más no universo de Deus desfigurará eternamente a perfeição do universo que Deus criou para refletir sua glória.

Em resposta, 1) deve ser dito que as passagens que falam de destruição (como Fp 3.19; lTs 5.3; 2Ts 1.9; 2Pe 3.7) não implicam necessariamente cessação de existência, pois nessas passagens o termo usado para “destruição” não significa necessariamente o fato de cessar de existir ou uma espécie de aniquilação, mas podem simplesmente ser o modo de referir-se aos efeitos danosos e destrutivos do juízo final sobre os descrentes.

2) Com respeito ao argumento do amor de Deus, a mesma dificuldade de conciliar o amor de Deus com a punição eterna parece estar presente também na conciliação do amor de Deus a idéia da punição divina e, ao contrário, se (como a Escritura testifica abundantemente) é coerente Deus punir o ímpio por determinado tempo após o juízo final, parece que não há razão necessária pela qual seja incoerente Deus infligir a mesma punição para um período de tempo sem fim.

Essa espécie de raciocínio pode conduzir certas pessoas a adotar outra espécie de aniquilacionismo, aquele segundo o qual não há sofrimento consciente de forma alguma, nem mesmo por um tempo breve, e a única punição é que os descrentes cessam de existir após a morte. No entanto, em resposta, é questionável se essa espécie de aniquilacionismo imediato e realmente ser chamado punição, desde que não haveria qualquer consciência de dor. De fato, a garantia de haver a cessação de existência poderia apresentar-se a muitos, especialmente que estão sofrendo e em dificuldade nesta vida, como alternativa de alguma forma desejável.

E, se não há punição de descrentes de espécie alguma, mesmo pessoas como Hitler e Stalin não receberiam castigo algum, e não haveria qualquer justiça final no universo. Assim, as pessoas seriam incentivadas a permanecer tão ímpias quanto fosse possível nesta vida.

3) O argumento de que a punição eterna é injusta (porque há uma desproporção entre o pecado temporário e a punição eterna) presume erroneamente que nós conhecemos o grau do mal cometido quando os pecadores se rebelam contra Deus. David Kingdon observa: “... pecado contra o Criador é nefando até ao ponto de estar totalmente além nossa imaginação [capacidade] pervertida pelo pecado poder conceber [...] Quem poderia temerariamente sugerir a Deus como a punição [...] deveria ser?”. Ele também responde a essa indagação propondo que os descrentes no inferno podem continuar a pecar e receber punição por seus pecados, mas nunca se arrependerão, e observa que Apocalipse 22.11 aponta nessa direção: “Continue o injusto a praticar injustiça; continue o imundo na imundícia”.

4. Considerando o quarto argumento, embora o mal que permanece sem punição prejudique a glória de Deus no universo, também devemos perceber que, quando Deus pune o mal e triunfa sobre ele, a glória da sua justiça, retidão e poder de triunfar sobre toda a oposição será vista (v. Rm 9.17,22-24).A profundidade das riquezas da misericórdia de Deus será então revelada, pois todos os pecadores redimidos reconhecerão que eles também merecem tal punição de Deus e a evitaram somente por causa da graça de Deus por meio de Jesus Cristo (cf. Rm 9.23,24).

Todavia, após tudo isso ter sido dito, devemos admitir que a resolução final das profundezas dessa questão repousa muito além de nossa capacidade de entender e permanece escondida nos conselhos de Deus. Se não fosse pelas passagens da Escritura citadas antes que afirmam tão claramente a punição consciente e eterna, o aniquilacionismo poderia parecer a opção bem mais atraente. Embora o aniquilacionismo possa ser contrariado por argumentos teológicos, a clareza e o vigor das passagens em si mesmas é que nos convencem de que o aniquilacionismo é incorreto e que a Escritura de fato ensina sobre a punição eterna que o ímpio sofre conscientemente.

O que devemos pensar a respeito dessa doutrina? É difícil — e deve ser difícil — pensarmos a respeito dessa doutrina hoje. Se nosso coração nunca é tocado com tristeza profunda quando contemplamos essa doutrina, é porque há uma deficiência séria em nossa sensibilidade espiritual e emocional. Quando Paulo pensa a respeito da perdição de seus concidadãos, os judeus, ele diz: “tenho grande tristeza e constante angustia em meu coração” (Rm 9.2). Isso esta de acordo com o que Deus nos diz de sua tristeza com respeito à morte do ímpio: “Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem dos seus maus caminhos! Por que o seu povo haveria de morrer, ó nação de Israel?” (Ez 33.11). A agonia de Jesus fica evidente quando ele chora: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. Eis que a casa de vocês ficará deserta’ (Mt 23.37,38; cf. Lc 19.41,42).

A razão de ser difícil pensarmos sobre essa doutrina é porque Deus colocou em nosso coração uma porção do próprio amor pelas pessoas criadas à sua imagem, até mesmo o seu amor por pecadores que se rebelam contra ele. Enquanto estivermos nesta vida, quando pensarmos em pessoas que precisam ouvir do evangelho e confiar em Cristo para serem salvas, é natural que cause em nós grande angústia e agonia de espírito só pensarmos a respeito da punição eterna. Todavia, devemos também compreender que qualquer coisa que Deus em sua sabedoria tenha ordenado e ensinado na Escritura está correto. Portanto, devemos ter cuidado para não odiar sua doutrina ou nos rebelarmos contra ela, mas antes procurarmos, tanto quanto formos capazes, chegar ao ponto em que venhamos a reconhecer que a punição eterna é boa e certa, porque em Deus não há injustiça alguma.

Pode ser de ajuda percebermos que, se Deus não exercesse a punição eterna, então certamente sua justiça não seria satisfeita e sua glória não seria promovida da forma que ele julga ser sábio. E talvez seja de maior ajuda ainda percebermos que, da perspectiva do mundo vindouro, há um reconhecimento muito maior da necessidade e do caráter justo da punição eterna. Os crentes martirizados no céu clamam e João registra: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue?” (Ap 6.10). Além disso, na destruição final da Babilônia, a voz audível da grande multidão no céu clama com louvor a Deus pela retidão de seus juízos quando a multidão percebe finalmente a natureza hedionda do mal como ele realmente é:

“Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus, pois verdadeiros e justos são os seus juízos. Ele condenou a grande prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição. Ele cobrou dela o sangue dos seus servos’. [...] Aleluia! A fumaça que dela vem, sobe para todo o sempre” (Ap 19.1-3). Tão logo isso aconteceu, os “vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostraram-se e adoraram a Deus, que estava assentado no trono, e exclamaram: ‘Amém, Aleluia!’’ (Ap 19.4). Não podemos dizer que essa grande multidão de redimidos e de criaturas viventes no céu fazem um julgamento moral errado quando louvam a Deus por exercer a sua justiça sobre o mal, porque eles estão livres de qualquer pecado e os seus juízos morais são agradáveis a Deus. Eles sem dúvida vêem muito mais claramente que nós quão terrível o pecado realmente é.

Nesta presente era, contudo, somente devemos abordar tal celebração da punição do mal quando meditamos na punição eterna dada a Satanás e seus demônios. Quando pensamos neles, instintivamente não os amamos, embora eles também tenham sido criados por Deus. Mas agora eles são plenamente dedicados ao mal e estão além da possibilidade de redenção. Assim, não podemos ansiar pela salvação deles como ansiamos pela redenção da humanidade. Devemos crer que a punição eterna é verdadeira e justa, todavia devemos também desejar que mesmo os que perseguem a igreja mais severamente se cheguem com fé a Cristo e, dessa forma, escapem da condenação eterna.

Autor: Wayne Grudem

Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed. Vida Nova